Crise financeira e contestação social

A falência do trabalhismo inglês

O governo trabalhista de Gordon Brown, a braços com uma profunda crise financeira e com uma vaga histórica de contestação social, deverá sofrer uma pesada sanção nas eleições municipais que se realizam amanhã, 1 de Maio, na Grã-Bretanha.

A recessão económica é um cenário a curto prazo na Grã-Bretanha

Juntamente com Tony Blair, Gordon é um dos impulsionadores do New Labor e da chamada «terceira via», através da qual os trabalhistas se colocaram assumidamente ao serviço do grande capital, promovendo a desregulamentação laboral, a redução de salários e um vasto programa de privatizações dos serviços públicos.
Prometendo crescimento económico e emprego para todos, as políticas de direita seguidas pelos trabalhistas ao longo de uma década conduziram o país para a beira do abismo da recessão, suprimiram direitos sociais e estrangularam o poder de compra de amplas camadas sociais.
Na semana passada, dia 24, mais de 400 mil trabalhadores do sector público realizaram uma greve de 24 horas, paralisando numerosos organismos e serviços do Estado para reclamar aumentos salariais acima da inflação.
A luta foi inicialmente convocada pelo Sindicato Nacional dos Professores (NUT), estrutura que há 21 anos não mobilizava uma greve. Porém, não só a adesão ultrapassou largamente as expectativas deste sindicato que conta com 200 mil associados, como o apelo foi seguido nas universidades e outros sectores do Estado, transformando o que parecia ser uma acção isolada numa ampla jornada nacional de protesto.
Cerca de 300 mil professores encerraram total ou parcialmente 9500 escolas em Inglaterra e no País de Gales, ou seja, um terço dos estabelecimentos, afectando perto de 2,9 milhões de alunos. Por todo o país, os trabalhadores manifestaram-se nas ruas de mais de 50 cidades e localidades. Em Londres, seis mil professores e outros funcionários públicos desfilaram no bairro de Westminster, onde se situa o parlamento do Reino Unido. Em vários cartazes, o primeiro-ministro era tratado de «clown» (palhaço) e acusado de querer destruir o sistema educativo.
«Depois de três anos com actualizações salariais abaixo da inflação, a perspectiva de mais três anos nestas condições foi a gota que fez transbordar o copo. É um círculo vicioso que conduz à pobreza», declarou Christine Blower, dirigente do NUT, citada pela agência Reuters. O sindicato exige aumentos anuais de 4,1 por cento e declara que o movimento reivindicativo não acabou com esta greve.

Brown obrigado a recuar

Em contraste com as dispendiosas operações de salvamento das entidades bancárias do país, o governo de Brown decidiu recentemente aumentar o escalão mais baixo do IRS de 10 para 20 por cento, penalizando as famílias de mais fracos recursos.
A medida não constituiu propriamente uma novidade, já que tinha sido aprovada há mais de um ano, devendo agora apenas entrar em vigor. Contudo, alarmados com as consequências eleitorais, 46 deputados trabalhistas rebelaram-se subscrevendo uma proposta de alteração em que condenaram a impopular iniciativa.
Com a arrogância que lhe é conhecida, Brown começou por desprezar as criticas: «Comecei um trabalho que irei terminar». Porém, dias depois, no regresso da sua visita aos EUA, o primeiro-ministro foi obrigado a recuar, anunciando uma série de medidas complementares para compensar os agregados mais desfavorecidos. A reviravolta foi assinalada pela imprensa britânica, mas Brown não quis admitir o erro: «Não fui constrangido nem forçado».
Todavia, o primeiro-ministro foi incapaz de disfarçar a principal contradição das políticas do seu governo que está na origem da sua crescente impopularidade. Para fazer face à crise financeira, os trabalhistas não hesitaram em socorrer a banca, despejando aí milhares de milhões de libras. Ao mesmo tempo decidiram aplicar uma medida que penaliza mais de cinco milhões de contribuintes com rendimentos inferiores a 22 mil euros por ano e afecta sobretudo jovens sem filhos e reformados.

O fantasma da recessão

Sentindo-se traídos pela governação trabalhista, os britânicos procuram em vão a alternativa nos conservadores. Segundo um estudo divulgado, dia 24, pelo jornal Daly Telegraph, apenas 26 por cento dos eleitores votaria hoje no Labour. Em contrapartida, o partido de David Cameron continua em progressão, recolhendo 44 por cento das intenções de voto.
A queda dos trabalhistas acentuou-se à medida que foram sendo conhecidos os verdadeiros contornos da crise dos mercados de crédito e os seus efeitos de bola de neve na economia britânica, onde os serviços representam três quartos do Produto Interno Bruto (PIB).
As previsões de crescimento são hoje praticamente nulas. Nos primeiros três meses do ano, o PIB progrediu apenas 0,4 por cento, o mais baixo ritmo verificado desde 2005, de acordo com os dados oficiais publicados no dia 25.
O «milagre económico» britânico, grande parte do qual assentou na especulação financeira, está hoje a revelar-se um pesadelo. Em Março, os preços do imobiliário registaram a mais forte quebra desde há 15 anos e a probabilidade de uma recessão é já admitida como um cenário a curto prazo.
Se o FMI calcula que a Grã-Bretanha possa crescer 1,4 por cento, alguns economistas britânicos consideram a previsão demasiado optimista. Michael Hume, do Banco Lehman Brothers, citado pela AFP, não vai além de 0,2 a 0,3 por cento de crescimento nos próximos trimestres e avalia em 35 por cento o risco de recessão até ao fim de 2009.
O principal factor de risco resulta do excessivo endividamento das famílias, estimulado ao longo de anos pela financeirização da economia e pela especulação imobiliária, em prejuízo do sector produtivo que foi perdendo peso.
Em 2007, o montante dos empréstimos particulares ultrapassou pela primeira vez o total da riqueza produzida no país. Os 60 milhões de britânicos deviam à banca 1 350 milhares de milhões de libras (1 620 milhares de milhões de euros). Nesse ano, o PIB elevou-se a 1 330 milhares de milhões de libras. Nestas condições, a recessão económica terá consequências devastadoras.


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