Cuba segue o seu caminho

Ângelo Alves

Cuba segue o seu próprio caminho, soberano

Após as recentes eleições e a renovação democrática dos seus órgãos de soberania, Cuba segue o seu próprio caminho, soberano. O povo Cubano respondeu da melhor forma à campanha de desestabilização montada em torno das eleições e tão bem demonstrada na frase de Bush de Outubro de 2007 «este é o momento para que o mundo ponha de lado as suas diferenças e se prepare para a transição em Cuba». O que sobressai de todo o processo eleitoral e de formação do novo governo de Cuba foi o civismo, a serenidade e a maturidade de um povo. E a ideia de que a Revolução Cubana é uma obra colectiva de todo um povo, está viva e de boa saúde e desenvolve-se no quadro da renovação da própria sociedade cubana. As provas são várias, começando pela altíssima participação popular nas recentes eleições – uma das maiores da história da revolução -, passando pela notável jornada de envolvimento do povo cubano na discussão sobre o aprofundamento do carácter socialista da Revolução – com a realização de 200.000 assembleias de discussão e a recolha de dois milhões de propostas que o actual governo está já a ter em conta na definição das suas políticas – até à renovação em cerca de 40% dos diversos órgãos de poder popular em Cuba, desde a base do poder local até ao Conselho de Estado e a sua Presidência. É neste quadro que têm que ser olhadas as recentes decisões do governo cubano, que tanta tinta têm feito correr na imprensa internacional e que são hoje instrumentalizadas para tentar relançar a campanha contra Cuba. Os títulos utilizados são sugestivos e todos expressam os mais íntimos desejos dos inimigos de Cuba: Cuba está a render-se ao capitalismo, e Raúl Castro, em oposição a Fidel, é o mentor dessa «rendição».

Mas tais notícias demonstram por si só a fragilidade da campanha que alimentam. É que elas ocultam a principal razão porque Cuba pode hoje tomar determinadas decisões: o criminoso bloqueio de que é alvo há quase meio século não impediu que Cuba se desenvolvesse quer no plano social quer económico; não impediu que Cuba tenha hoje programas de cooperação com variados países –nomeadamente potências económicas como a China, o Brasil ou a Venezuela – que lhe permitem ter acesso a mercados e a recursos económicos, energéticos e tecnológicos em condições de igualdade e reciprocamente vantajosas. É que essas notícias ocultam «convenientemente» que tais decisões não foram tomadas à pressa depois da eleição de Raúl Castro e que, obviamente, decorrem de uma reflexão e de planos de desenvolvimento económico e social de Cuba que levaram anos a elaborar e que contaram com a participação activa, dedicada e decisiva de Fidel; ocultam que Cuba é uma referência incontornável no continente latino-americano e que, no plano internacional, desenvolve uma incansável actividade diplomática para a normalização das relações com variados países, nomeadamente europeus, em condições de mútuo respeito, e que está a conseguir resultados.

Não há campanhas ou notícias sobre micro-ondas e afins que ocultem o essencial: Cuba segue o seu caminho, rompe bloqueios e afirma-se no plano internacional. E isso assusta o imperialismo. A prová-lo está a visita à Europa de Caleb McCarry, o executor do criminoso Plano Bush para Cuba, com o objectivo de tentar travar a tendência de normalização das relações da União Europeia com Cuba que vários países europeus têm vindo a defender. Não está anunciada, mas é importante referir que a sua presença em Portugal seria um profundo desrespeito pela soberania das relações internacionais de Portugal e um péssimo sinal para as relações entre Portugal e Cuba.


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