O «pseudo-estado» do Kosovo

Ângelo Alves

Secessão do Kosovo é parte integrante do grande plano imperialista de desmembramento da Jugoslávia

A declaração unilateral de independência da província sérvia do Kosovo constitui - como o refere a nota da Comissão Política do PCP e a declaração do Grupo de Trabalho do Encontro Internacional de Partidos Comunistas e Operários, reunido em Lisboa no passado Sábado – um acontecimento de extrema gravidade e um grave precedente.

Há de facto imagens que valem por mil palavras e as bandeiras dos Estados Unidos e da União Europeia nas ruas de Pristina simbolizam bem o que realmente se passou no dia 17 de Fevereiro: a consumação de um plano dos EUA, da União Europeia e da NATO para amputar a Sérvia de uma das suas províncias - por sinal a mais importante do ponto de vista geo-estratatégico e de rotas de transporte de petróleo e gás - e aí criar um protectorado, um pseudo-Estado, protegido e administrado pelas potências da NATO, ao serviço dos seus interesses.

Nunca é demais relembrar que a secessão do Kosovo é parte integrante do grande plano imperialista de desmembramento da Jugoslávia.
Um plano que teve o seu ponto mais crítico em Março de 1999 (o início dos 78 dias dos criminosos bombardeamentos à Jugoslávia) e que passou pelo estabelecimento de toda uma máquina de instigação à violência étnica e de propaganda e fabricação de mentiras que visou diabolizar Slobodan Milosevic - assassinado na prisão quando as verdades reveladas pela sua defesa no TPI para a Jugoslávia se tornaram insuportavelmente incómodas para as potências da NATO.
Um plano que ficará marcado na história por algumas das maiores operações de desinformação – como os forjados massacres atribuídos às forças Sérvias e realizados na realidade pelo UCK - e por hediondos crimes cometidos contra os povos dos Balcãs, como os bombardeamentos com armas de Urânio empobrecido que ainda hoje fazem sofrer os povos da região.
Um plano das potências da NATO que armaram, treinaram e deram cobertura ao UCK, essa sim uma verdadeira máfia terrorista que, com a protecção dos cerca de 15.000 militares da NATO que ocupam até hoje o Kosovo, transformou o território num paraíso do tráfico de droga e de armas e num barril de pólvora étnico.
Um plano, que importa não esquecer, foi conduzido na sua fase crucial pelo presidente «democrata» Bill Clinton, apoiado na Europa pelos governos da social-democracia e tolerado por alguma esquerda desorientada e intoxicada com o discurso anti-Milosevic.

A secessão do Kosovo reintroduz na região e no continente europeu novos perigos, elevando ao máximo o risco de novos conflitos militares e abrindo a «Caixa de Pandora» da estabilidade de fronteiras no continente europeu.
Mas este acontecimento é ainda mais grave se tivermos em conta uma questão de fundo: é que a «independência» da província, além de ilegal à luz do direito internacional, faz do Kosovo o primeiro «Estado» do mundo e da História cuja «fundação» é conduzida, concretizada e monitorizada por uma aliança político-militar de carácter ofensivo – a NATO, e cujo processo de «independência» introduz um estranho conceito, a «soberania vigiada». Ou seja, estamos de facto perante um processo de criação de uma colónia dos tempos modernos, cujo território foi conquistado pela força a um país soberano e internacionalmente reconhecido e cuja administração caberá às potências colonizadoras. Um processo criminoso à luz do direito internacional em que a União Europeia – a mesma dos discursos da democracia, dos direitos humanos e do direito internacional – tem um papel central. Uma União Europeia que com os EUA e a NATO «mostra toda a sua raça» de verdadeira potência imperialista, agressiva e fora da lei.


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