Pataca a ti, pataca a mim

Aurélio Santos
O presidente do PSD expressou há dias uma interessante concepção de democracia.
Segundo ele, se o partido no governo nomeia (ou designa, ou «sugere») um dos seus altos dirigentes (ou ex-ministro) para a presidência de um Banco, deve logo ser designado (ou «sugerido») um alto dirigente (ou ex-ministro) d‘«o partido da oposição» em outro Banco de importância aproximada, «para o equilíbrio de poderes».
Esta concepção de «democracia» sugere algumas reflexões.
Porque ela expressa numa variante de comovedora ingenuidade a concepção da democracia de bitola estreita que a democracia burguesa anda a querer impor, uma democracia com lugar reservado só para dois partidos: o do governo e o da oposição.
Trata-se, no fim de contas, de um regime de partido único, a que poderíamos chamar no nosso caso, por exemplo, o PPC (Partido Português do Capital) com acesso exclusivo à governação em duas versões alternantes: a A e a B, com provas dadas de lerem pela mesma cartilha e aplicarem a mesma política, a determinada por aqueles que possuem e dirigem a economia mundial sob o pseudónimo de «O Mercado».
Compreendo que filiados do PSD possam sentir-se constrangidos vendo o seu presidente reduzido a pedir ao governo um lugar secundário para «equilíbrio de poderes».
Mas que pode ele fazer quando Sócrates lhe rouba os projectos, pondo em prática medidas que o PSD muito gostaria de protagonizar, mas que nem o Prof. Cavaco Silva conseguiu impor?
E, como para não deixar que estas minhas palavras pareçam exagero, aí está o invocado Sócrates, num corajoso esforço que marca esclarecedoramente esta passagem de ano, tentando desmantelar o sistema de segurança no emprego. «Está arcaico», diz ele. Claro Vem do tempo do 25 de Abril!..
E estando nós em época festiva, tão dedicada à evocação dos conceitos tradicionais e das suas versões infantis, não posso deixar de lembrar aqui o que me trouxe à memória aquela forma tão inocentemente enunciada sobre «a distribuição de poderes».
Nem mais nem menos do que reminiscências daqueles contos tradicionais, como o do Grãozinho de Milho ou o de Ali-Baba, em que a partilha dos despojos se fazia também assim. Democraticamente.
Pataca a ti, pataca a mim.


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