Governos de direita arruinam Alentejo
Dos 2,5 milhões de reformados que estão inscritos na Segurança Social, cerca de dois milhões recebem uma pensão inferior ao Salário Mínimo Nacional e, destes, uma percentagem muito significativa tem uma pensão que em pouco ultrapassa os 200 euros.
No distrito de Beja a situação é ainda mais grave. Segundo dados oficiais, 36,8 por cento das famílias são consideradas pobres e 12 por cento muito pobres, contra os 18,3 por cento e 4,8 por cento da média do País. Hoje, fruto da política do Governo PS, esta situação estará mais agravada.
Para demonstrá-lo fomos ao coração do Alentejo e aí encontrámos duas realidades diferentes, uma agrícola, em Pias, outra mineira, em Aljustrel. Semelhanças, só mesmo as que os governos dos últimos 30 anos implementaram: cortes na saúde, falta de transportes, aumento das taxas moderadoras, encerramento de serviços públicos, entre muitas outras.
Em Pias toda a gente se conhece pelas suas alcunhas. Não é fácil encontrar uma pessoa pelo seu nome próprio. «Muitas acabam por ficar de pais para os filhos», explicou Manuel Bravo, mais conhecido por Patinhas. «Nesta terra é mais fácil encontrar um corvo branco que uma pessoa sem alcunha», acrescentou.
Esta maneira de lidar entre pessoas tem uma explicação histórica, ligada ao regime fascista. «A PIDE localizava a malta pelas alcunhas. Um dia perguntaram-me: Serás o único bandido no Alentejo que não tens alcunha?», recordou Manuel Bravo, reportando-se ao ano de 1964.
«Olha, vem aí o Milharuco!» Chegou mais tarde porque foi marcar uma consulta ao centro de saúde. «Só tenho consulta para daqui a 300 anos. Assim vai a saúde no nosso país», lamentou, com um sorriso malandro, Isidro da Costa Martins. «A doutora é como as açordas em Maio, não fazem bem nem mal», ironizou o Patinhas.
As transformações introduzidas no Serviço Nacional de Saúde pelos sucessivos governos, particularmente pelo actual, do PS, têm dificultado muito a vida daqueles que vivem no interior do País.
As alterações na gestão dos hospitais que não cumpriram os objectivos anunciados de redução de custos, o encerramento de maternidades, a falta de médicos e outro pessoal técnico, a criação e o constante aumento das taxas moderadoras, o aumento do preço dos medicamentos e a retirada de comparticipação de muitas centenas deles são medidas ilegais porque contrariam o estipulado no artigo 64 da Constituição da República Portuguesa e conduzem os utentes para a medicina privada, com custos insuportáveis para os mais pobres.
«A maior parte das aldeias do distrito de Beja têm médico uma ou duas vezes por semana, só algumas horas. Depois temos muitos centros de saúde que já fecharam», explicou António Pedro Valverde Martins, que nos acompanhou nesta viagem ao coração do Alentejo.
«Aqueles que moram mais perto da fronteira, caso de Barrancos, Ficalho e Vila Nova de São Bento preferem ir ao médico a Espanha, onde são mais bem tratados e pagam menos», explicou, dizendo ainda: «Em Barrancos, por exemplo, numa urgência, a pessoa tem que ir a Beja, que fica a 100 quilómetros. Isto porque o hospital de Moura fechou e muitas valências do Hospital de Serpa também.»
Estas populações vão ainda a Espanha por razões económicas. «Há muita gente que ali vai comprar bens alimentares e de primeira necessidade. Todos vão lá encher os depósitos dos carros», confessou Manuel Bravo.
«O gás em Espanha custa 12 euros e aqui 20. Em cada três ganha uma. Os fumadores até vão lá comprar a morte. Isto são muitos milhões que não ficam no País», acrescentou o Milharuco.
Governo encerra serviços públicos
Privados soltam as garras
A complicar ainda mais a situação está a falta de transportes com horários compatíveis com as necessidades das populações. O encerramento dos centros de saúde e serviços de atendimento permanente (SAP’s), em muitos casos entre as 20h00 e as 8h00, obrigam os pacientes a deslocarem-se ao Hospital Distrital de Beja, muitas vezes sem o acompanhamento técnico indispensável, particularmente nos casos mais graves.
Paralelamente, são detectados casos em que o encerramento dos serviços públicos de saúde é acompanhado de ambições e de clínicas privadas e de misericórdias que ainda vão agravar de forma mais violenta os custos da prestação dos cuidados de saúde.
Em Pias, para além da falta de médicos, os problemas estendem-se ao encerramento, durante um dos governos de Mário Soares, da linha ferroviária do Ramal de Moura.
«Continuamos a pensar que é um dos meios de transporte mais acessível, não só pelos custos como pela comunidade», afirmou o Patinhas, dando a palavra a Francisco Moita Farinho, mais conhecido, como ali é hábito, pelo Guitarreiro. Um homem acanhado, com uma história de vida sofrida, como todos os outros. No entanto, quando se falava da luta e da resistência no período negro do fascismo, os seus olhos brilhavam e, mesmo sem palavras, percebíamos o que foram aqueles tempos.
Voltemos, então, ao presente. Francisco Moita Farinho foi operado, recentemente, ao coração. Só numa das deslocações gastou mais de 150 euros de táxi. Para uma pessoa que ganha 283 euros de reforma, é um valor gigantesco. «A comparticipação não é nenhuma. Depois, todos os dias, tenho de comprar medicamentos. A minha reforma é só para “mezinhas”», explicou.
O Estado comparticipou, entretanto, as suas despesas em 25 euros. «Para Beja nem merece a pena meter os papéis, só dão um euro», lamentou.
A reforma de Manuel Bravo ainda é mais baixa. «Ganho 171 euros. Depois, na outra, da emigração, tenho 126 euros. Juntas não chegam a 300 euros», somou, lembrando que «os alentejanos, aqueles da mala de cartão, eram obrigados, porque não havia emprego, a ir trabalhar três ou quatro meses para França. Enquanto andávamos neste vai e vem não descontávamos em Portugal. Há aqui muita gente desta», confiou.
Injustiça social
Com uma população envelhecida, Pias apenas têm um centro de dia privado, ligado à Segurança Social. «É mais um lar da terceira idade, só aqueles que têm muito dinheiro conseguem lá entrar», revelou António Valverde.
«O Estado dá uma parte, uma comparticipação por pessoa, e depois o centro de dia exige 80 por cento da sua reforma. Quanto maior for mais é o que eles recebem, isto para além das outras comparticipações (casa, terrenos e dinheiro)», sublinhou.
«Aqueles vão buscar dinheiro até ao inferno», criticou o Patinhas.
Os responsáveis por esta situação foram os últimos governos. Se tivessem a oportunidade de falar com o agora responsável, José Sócrates, diziam-lhe que se fosse embora. «Todos os dias as mulheres vêm com lamentos de que as coisas estão mais caras, no entanto as nossas reformas não sobem. Parece um animal de quatro patas a querer apanhar a mão, não consegue, quando lá chega já a mão lá não está», exemplificou Isidro da Costa Martins.
«Tenho a opinião que de que ele está mais à direita que o PSD. Não é por acaso que o Presidente da República elogia a política do PS», acrescentou Manuel Bravo.
Condições de vida melhoram no Alentejo
Tudo mudou com Abril!
Mas nem sempre as coisas foram assim. Com a Revolução de Abril tudo mudou. Em 1974, uma «febre» de mudança envolveu largos sectores da população que ambicionava melhores condições de vida e de trabalho. Nesta conjuntura, destaca-se o investimento colectivo por parte dos trabalhadores agrícolas do Sul de Portugal no processo de ocupação de terras e nas explorações colectivas.
Antes, naquela que ainda hoje é uma zona de latifúndio, com base na cerialicultura extensiva de sequeiro, com especial destaque para a produção do trigo, o desemprego sazonal era recorrente. A ausência de alternativas de emprego a nível local e, até aos anos 60, a dificuldade de encontrar alternativas fora da região, permitia assegurar aos donos da terra a disponibilidade de uma reserva de mão-de-obra barata.
«Havia deveres sem direitos», afirmou Manuel Bravo, recordando que «nas praças de jorna o pessoal estava ali aos montes. Só quando o trabalho abundava é que eles iam nos chamando». Depois, «quando o trabalho estava no fim», continuou, «apenas ficavam os mais submissos».
«Trabalhava-se quando eles queriam, até sermos chamados para o “chão das almas”. Abria-se um buraco e mandava-se para lá o corpo, nem dinheiro havia para fazer um funeral condigno», frisou.
A intervenção do PCP, junto dos trabalhadores, era muito importante. «Fazíamos as reuniões nos cemitérios velhos, onde eles tinham medo de ir», lembrou Isidro da Costa Martins.
A «esmolinha» dos pobres
Naquele tempo os trabalhadores e os reformados não tinham quaisquer tipos de direitos. «Havia uma pensão da casa do povo, a minha avó chamava-lhe a “esmolinha”, que era de 25 tostões, depois passou para cinco escudos, dava para um “panito” por mês», sublinhou António Valverde.
«Aqui só havia cinco pessoas nessas condições. O reformado tinha que ficar à espera que morresse um reformado para ele se reformar», explicou, contando, de imediato uma história: «Havia ali um homem, o Rogério, que já não podia com os pés, e quando ouvia os sinos da igreja perguntava, a quem passasse, quem tinha morrido, para saber se era ele o próximo a receber a reforma».
Também o trabalho era muito mal pago. «Naquela altura já fazíamos descontos. Uma vez, por graça, um homem voltou-se para o funcionário da Casa do Povo, um bufo da PIDE, e disse-lhe: “Fique ai com o ordenado e dê-me os descontos”», contou Isidro da Costa Martins.
O dinheiro não dava para nada. «Andávamos sempre mal vestidos, tínhamos uns “botecos” de trabalho e outros domingueiros para as festas. Esmolava-se de porta em porta», recordou Manuel Bravo.
E o que mudou com o 25 de Abril de 1974? «Foi uma reviravolta nas nossas vidas. Foi as férias, o subsídio de férias, os feriados, o salário mínimo nacional», sublinhou, emocionado, acrescentando: «Conquistámos tudo aquilo que eles agora nos querem tirar. Já levaram um bom bocado, mas não serão capazes de levar o resto. Pelo menos vamos lutar por isso.»
Com a Reforma Agrária foram, entretanto, criadas as Unidades Colectivas de Produção e as cooperativas. Pias não foi excepção. «Tínhamos aqui de tudo, só não havia sal», relatou Manuel Bravo.
Foram ainda criadas infra-estruturas para idosos, creches, escolas e unidades de saúde. «Antes do 25 de Abril havia os médicos, com os seus consultórios. Com o Serviço Nacional de Saúde (SNS) criaram-se centros de saúde, que tiveram um papel importantíssimo na melhoria das condições de vida das pessoas. Hoje, o SNS está a sofrer um ataque terrível e aqui na zona está a verificar-se com uma grande intensidade», acusou António Valverde.
Reformas baixas em Aljustrel
Terra de luta e de coragem
Em Aljustrel, uma das mais antigas povoações de Portugal, a situação não é diferente. A população desta localidade, agora um tanto envelhecida, fruto da quebra de produção, dividiu-se entre o trabalho agrícola, em menor número, com o trabalho mineiro, uma actividade de risco, que exige muita coragem para descer ao fundo da mina, diariamente, esforço físico no desempenho das tarefas e bravura e solidariedade nos momentos difíceis de acidentes e de lutas.
«Basta dizer que, em algumas lutas, morreram mineiros baleados pela GNR e pela PIDE», afirmou António Valverde, durante uma visita à sede do MURPI de Aljustrel.
Referia-se à greve de 1922 (que se prolongou por quatro meses), a greve de zelo entre 1958 e 1960, a paralisação do trabalho em Abril de 1960 (com a consequente prisão de 150 trabalhadores nas cadeias da PIDE) ou o tiroteio policial durante uma manifestação em Abril de 1962 (que resultou na morte de dois mineiros).
Lá dentro, num pequeno bar, falámos com alguns heróis que se aventuraram naquilo que fizeram durante toda a sua vida, retirar minério. «O grande problema é o pó da mina (silicose)», afirmou um deles, acrescentando: «O mineiro até pode estar verde por fora, mas por dentro está todo podre».
Outro problema levantado é a falta de segurança nas minas. «Eles não ligam muito a isso, apenas querem o trabalho feito. Trabalhar numa mina, 10 horas por dia, sem oxigénio, com ar comprimido, não é nada fácil», alertou um outro, já na reforma.
Depois, os problemas de saúde surgem. No entanto não se encontram respostas para os problemas. «Ainda não encerraram o centro de saúde. O problema é que, depois das 20 horas, mandam-nos para as urgências de Castro Verde, e daí para as de Beja. Muitos já têm morrido pelo caminho», contava uma mulher, também ela reformada, que ganhava, segundo contou, cerca de 140 euros, um valor que não era muito diferente dos outros reformados ali presentes.
«O Governo só tira aos pobres para dar aos ricos», acrescentava um outro, enquanto comia um tomate com sal e bebia um copo de vinho.
Esta maneira de lidar entre pessoas tem uma explicação histórica, ligada ao regime fascista. «A PIDE localizava a malta pelas alcunhas. Um dia perguntaram-me: Serás o único bandido no Alentejo que não tens alcunha?», recordou Manuel Bravo, reportando-se ao ano de 1964.
«Olha, vem aí o Milharuco!» Chegou mais tarde porque foi marcar uma consulta ao centro de saúde. «Só tenho consulta para daqui a 300 anos. Assim vai a saúde no nosso país», lamentou, com um sorriso malandro, Isidro da Costa Martins. «A doutora é como as açordas em Maio, não fazem bem nem mal», ironizou o Patinhas.
As transformações introduzidas no Serviço Nacional de Saúde pelos sucessivos governos, particularmente pelo actual, do PS, têm dificultado muito a vida daqueles que vivem no interior do País.
As alterações na gestão dos hospitais que não cumpriram os objectivos anunciados de redução de custos, o encerramento de maternidades, a falta de médicos e outro pessoal técnico, a criação e o constante aumento das taxas moderadoras, o aumento do preço dos medicamentos e a retirada de comparticipação de muitas centenas deles são medidas ilegais porque contrariam o estipulado no artigo 64 da Constituição da República Portuguesa e conduzem os utentes para a medicina privada, com custos insuportáveis para os mais pobres.
«A maior parte das aldeias do distrito de Beja têm médico uma ou duas vezes por semana, só algumas horas. Depois temos muitos centros de saúde que já fecharam», explicou António Pedro Valverde Martins, que nos acompanhou nesta viagem ao coração do Alentejo.
«Aqueles que moram mais perto da fronteira, caso de Barrancos, Ficalho e Vila Nova de São Bento preferem ir ao médico a Espanha, onde são mais bem tratados e pagam menos», explicou, dizendo ainda: «Em Barrancos, por exemplo, numa urgência, a pessoa tem que ir a Beja, que fica a 100 quilómetros. Isto porque o hospital de Moura fechou e muitas valências do Hospital de Serpa também.»
Estas populações vão ainda a Espanha por razões económicas. «Há muita gente que ali vai comprar bens alimentares e de primeira necessidade. Todos vão lá encher os depósitos dos carros», confessou Manuel Bravo.
«O gás em Espanha custa 12 euros e aqui 20. Em cada três ganha uma. Os fumadores até vão lá comprar a morte. Isto são muitos milhões que não ficam no País», acrescentou o Milharuco.
Governo encerra serviços públicos
Privados soltam as garras
A complicar ainda mais a situação está a falta de transportes com horários compatíveis com as necessidades das populações. O encerramento dos centros de saúde e serviços de atendimento permanente (SAP’s), em muitos casos entre as 20h00 e as 8h00, obrigam os pacientes a deslocarem-se ao Hospital Distrital de Beja, muitas vezes sem o acompanhamento técnico indispensável, particularmente nos casos mais graves.
Paralelamente, são detectados casos em que o encerramento dos serviços públicos de saúde é acompanhado de ambições e de clínicas privadas e de misericórdias que ainda vão agravar de forma mais violenta os custos da prestação dos cuidados de saúde.
Em Pias, para além da falta de médicos, os problemas estendem-se ao encerramento, durante um dos governos de Mário Soares, da linha ferroviária do Ramal de Moura.
«Continuamos a pensar que é um dos meios de transporte mais acessível, não só pelos custos como pela comunidade», afirmou o Patinhas, dando a palavra a Francisco Moita Farinho, mais conhecido, como ali é hábito, pelo Guitarreiro. Um homem acanhado, com uma história de vida sofrida, como todos os outros. No entanto, quando se falava da luta e da resistência no período negro do fascismo, os seus olhos brilhavam e, mesmo sem palavras, percebíamos o que foram aqueles tempos.
Voltemos, então, ao presente. Francisco Moita Farinho foi operado, recentemente, ao coração. Só numa das deslocações gastou mais de 150 euros de táxi. Para uma pessoa que ganha 283 euros de reforma, é um valor gigantesco. «A comparticipação não é nenhuma. Depois, todos os dias, tenho de comprar medicamentos. A minha reforma é só para “mezinhas”», explicou.
O Estado comparticipou, entretanto, as suas despesas em 25 euros. «Para Beja nem merece a pena meter os papéis, só dão um euro», lamentou.
A reforma de Manuel Bravo ainda é mais baixa. «Ganho 171 euros. Depois, na outra, da emigração, tenho 126 euros. Juntas não chegam a 300 euros», somou, lembrando que «os alentejanos, aqueles da mala de cartão, eram obrigados, porque não havia emprego, a ir trabalhar três ou quatro meses para França. Enquanto andávamos neste vai e vem não descontávamos em Portugal. Há aqui muita gente desta», confiou.
Injustiça social
Com uma população envelhecida, Pias apenas têm um centro de dia privado, ligado à Segurança Social. «É mais um lar da terceira idade, só aqueles que têm muito dinheiro conseguem lá entrar», revelou António Valverde.
«O Estado dá uma parte, uma comparticipação por pessoa, e depois o centro de dia exige 80 por cento da sua reforma. Quanto maior for mais é o que eles recebem, isto para além das outras comparticipações (casa, terrenos e dinheiro)», sublinhou.
«Aqueles vão buscar dinheiro até ao inferno», criticou o Patinhas.
Os responsáveis por esta situação foram os últimos governos. Se tivessem a oportunidade de falar com o agora responsável, José Sócrates, diziam-lhe que se fosse embora. «Todos os dias as mulheres vêm com lamentos de que as coisas estão mais caras, no entanto as nossas reformas não sobem. Parece um animal de quatro patas a querer apanhar a mão, não consegue, quando lá chega já a mão lá não está», exemplificou Isidro da Costa Martins.
«Tenho a opinião que de que ele está mais à direita que o PSD. Não é por acaso que o Presidente da República elogia a política do PS», acrescentou Manuel Bravo.
Condições de vida melhoram no Alentejo
Tudo mudou com Abril!
Mas nem sempre as coisas foram assim. Com a Revolução de Abril tudo mudou. Em 1974, uma «febre» de mudança envolveu largos sectores da população que ambicionava melhores condições de vida e de trabalho. Nesta conjuntura, destaca-se o investimento colectivo por parte dos trabalhadores agrícolas do Sul de Portugal no processo de ocupação de terras e nas explorações colectivas.
Antes, naquela que ainda hoje é uma zona de latifúndio, com base na cerialicultura extensiva de sequeiro, com especial destaque para a produção do trigo, o desemprego sazonal era recorrente. A ausência de alternativas de emprego a nível local e, até aos anos 60, a dificuldade de encontrar alternativas fora da região, permitia assegurar aos donos da terra a disponibilidade de uma reserva de mão-de-obra barata.
«Havia deveres sem direitos», afirmou Manuel Bravo, recordando que «nas praças de jorna o pessoal estava ali aos montes. Só quando o trabalho abundava é que eles iam nos chamando». Depois, «quando o trabalho estava no fim», continuou, «apenas ficavam os mais submissos».
«Trabalhava-se quando eles queriam, até sermos chamados para o “chão das almas”. Abria-se um buraco e mandava-se para lá o corpo, nem dinheiro havia para fazer um funeral condigno», frisou.
A intervenção do PCP, junto dos trabalhadores, era muito importante. «Fazíamos as reuniões nos cemitérios velhos, onde eles tinham medo de ir», lembrou Isidro da Costa Martins.
A «esmolinha» dos pobres
Naquele tempo os trabalhadores e os reformados não tinham quaisquer tipos de direitos. «Havia uma pensão da casa do povo, a minha avó chamava-lhe a “esmolinha”, que era de 25 tostões, depois passou para cinco escudos, dava para um “panito” por mês», sublinhou António Valverde.
«Aqui só havia cinco pessoas nessas condições. O reformado tinha que ficar à espera que morresse um reformado para ele se reformar», explicou, contando, de imediato uma história: «Havia ali um homem, o Rogério, que já não podia com os pés, e quando ouvia os sinos da igreja perguntava, a quem passasse, quem tinha morrido, para saber se era ele o próximo a receber a reforma».
Também o trabalho era muito mal pago. «Naquela altura já fazíamos descontos. Uma vez, por graça, um homem voltou-se para o funcionário da Casa do Povo, um bufo da PIDE, e disse-lhe: “Fique ai com o ordenado e dê-me os descontos”», contou Isidro da Costa Martins.
O dinheiro não dava para nada. «Andávamos sempre mal vestidos, tínhamos uns “botecos” de trabalho e outros domingueiros para as festas. Esmolava-se de porta em porta», recordou Manuel Bravo.
E o que mudou com o 25 de Abril de 1974? «Foi uma reviravolta nas nossas vidas. Foi as férias, o subsídio de férias, os feriados, o salário mínimo nacional», sublinhou, emocionado, acrescentando: «Conquistámos tudo aquilo que eles agora nos querem tirar. Já levaram um bom bocado, mas não serão capazes de levar o resto. Pelo menos vamos lutar por isso.»
Com a Reforma Agrária foram, entretanto, criadas as Unidades Colectivas de Produção e as cooperativas. Pias não foi excepção. «Tínhamos aqui de tudo, só não havia sal», relatou Manuel Bravo.
Foram ainda criadas infra-estruturas para idosos, creches, escolas e unidades de saúde. «Antes do 25 de Abril havia os médicos, com os seus consultórios. Com o Serviço Nacional de Saúde (SNS) criaram-se centros de saúde, que tiveram um papel importantíssimo na melhoria das condições de vida das pessoas. Hoje, o SNS está a sofrer um ataque terrível e aqui na zona está a verificar-se com uma grande intensidade», acusou António Valverde.
Reformas baixas em Aljustrel
Terra de luta e de coragem
Em Aljustrel, uma das mais antigas povoações de Portugal, a situação não é diferente. A população desta localidade, agora um tanto envelhecida, fruto da quebra de produção, dividiu-se entre o trabalho agrícola, em menor número, com o trabalho mineiro, uma actividade de risco, que exige muita coragem para descer ao fundo da mina, diariamente, esforço físico no desempenho das tarefas e bravura e solidariedade nos momentos difíceis de acidentes e de lutas.
«Basta dizer que, em algumas lutas, morreram mineiros baleados pela GNR e pela PIDE», afirmou António Valverde, durante uma visita à sede do MURPI de Aljustrel.
Referia-se à greve de 1922 (que se prolongou por quatro meses), a greve de zelo entre 1958 e 1960, a paralisação do trabalho em Abril de 1960 (com a consequente prisão de 150 trabalhadores nas cadeias da PIDE) ou o tiroteio policial durante uma manifestação em Abril de 1962 (que resultou na morte de dois mineiros).
Lá dentro, num pequeno bar, falámos com alguns heróis que se aventuraram naquilo que fizeram durante toda a sua vida, retirar minério. «O grande problema é o pó da mina (silicose)», afirmou um deles, acrescentando: «O mineiro até pode estar verde por fora, mas por dentro está todo podre».
Outro problema levantado é a falta de segurança nas minas. «Eles não ligam muito a isso, apenas querem o trabalho feito. Trabalhar numa mina, 10 horas por dia, sem oxigénio, com ar comprimido, não é nada fácil», alertou um outro, já na reforma.
Depois, os problemas de saúde surgem. No entanto não se encontram respostas para os problemas. «Ainda não encerraram o centro de saúde. O problema é que, depois das 20 horas, mandam-nos para as urgências de Castro Verde, e daí para as de Beja. Muitos já têm morrido pelo caminho», contava uma mulher, também ela reformada, que ganhava, segundo contou, cerca de 140 euros, um valor que não era muito diferente dos outros reformados ali presentes.
«O Governo só tira aos pobres para dar aos ricos», acrescentava um outro, enquanto comia um tomate com sal e bebia um copo de vinho.