E vão 30!

Vasco Cardoso
Trinta congressos em pouco mais de 30 anos de existência do PSD constituem um verdadeiro record. Praticamente à razão de um por ano, estes congressos tornaram-se alvo de uma desmesurada cobertura mediática, sobretudo a partir do momento em que as televisões privadas começaram a fazer caminho em Portugal.
Nas intermináveis horas de directos, compactos e reportagens, rádios e televisões desunham-se por nos mostrar todos os ínfimos pormenores da magna reunião do PSD. Para não fugir à regra, depois do diário acompanhamento das eleições para a liderança que, como sabemos, constitui o alfa e o ómega das matérias em discussão dentro do PSD, e quando julgavámos que pouco mais haveria a acrescentar, assistimos neste fim-de-semana a nova overdose laranja, interrompida a espaços, pelos relatos em directo da Capelinha das Aparições em Fátima.
A «chegada do líder», os «discursos do líder», os «convites do líder», as negas ao líder, as presenças, as ausências, os autarcas, os notáveis, os barões, os santanistas, os barrosistas, os jardinistas, e as cada vez mais inevitáveis «bases» – um novo vocábulo do pensamento único para travestir de democracia aquilo que o não é – e esse grande objectivo chamado «2009», foram repetidamente interpretados por variadíssimos «comentadores» e «analistas» que conseguiram, na maioria das vezes, passar ao lado da questão central – faria o PSD uma política diferente daquela que o PS está a fazer no Governo?
Naturalmente que esta observação não ignora – nem considera inocente - os efeitos perversos que tem a difusão destas ideias e valores junto de milhões de portugueses, nem a promoção de novas e a reabilitação de velhas figuras à direita, com o objectivo de garantir no futuro nova alternância entre PS e PSD.
O Capital tem hoje razões para estar contente – coisa que não esconde - com a política do governo PS. Os lucros dos grandes grupos económicos crescem na medida exacta em que aumenta a exploração de quem trabalha, novas e importantes parcelas do Estado a serem entregues aos privados, subserviência sem limites às orientações e políticas da UE e do imperialismo, tudo isto, respaldado por uma cooperação estratégica com o Presidente da República e assente em poderosos meios de propaganda e novos elementos de repressão. Mas mesmo para o Capital, é preciso preparar o dia de amanhã e seria pouco prudente desprezar quem já foi ou pode vir a ser-lhe útil.
Da nossa parte, sabemos que a necessidade e a exigência de mudança de rumo na política nacional não fica à espera de 2009 e que para além destes «jogos» há quem lute e resista.


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