O arruaceiro

Henrique Custódio
São conhecidas as penas que por aí andam a opinar ao serviço e ao sabor das conveniências do poder. Compreende-se porquê: não se morde a mão do dono. Hoje, os grandes órgãos de comunicação social ou pertencem a meia dúzia de grupos económicos ou dependem do Governo.
Daí que não seja novidade o branqueamento que, mais uma vez, a alfurja desses comentadores tentou espraiar sobre as graves ocorrências desencadeadas na sequência de manifestações frente ao primeiro-ministro José Sócrates, nomeadamente o «sequestramento» e identificação de manifestantes atrás de uma fita realizado pela GNR em Montemor-o-Velho ou a inacreditável «visita» de dois agentes da PSP ao Sindicato dos Professores na Covilhã, para intimidar a luta dos sindicalistas.
Um comentador houve, contudo, cujo encarniçamento na defesa de Sócrates atingiu tal desvario nas páginas do CM, que merece alguma referência. Falamos de Emídio Rangel, autor de uma prosa com o mimoso título «Os arruaceiros».
Depois de perguntar se «é democrático» que «um cidadão, legitimado pela escolha dos portugueses em eleições livres, chamado a ser primeiro-ministro» tenha de «suportar, sempre que se desloca em serviço pelo País», diversas «ofensas e indignidades» vindas de «uma “manifestação espontânea” com trinta ou quarenta cidadãos vindos de fora», Rangel denuncia, citando uma fonte chamada «toda a gente»: «Creio que toda a gente sabe que essas “manifestações espontâneas”, ilegais, são da inteira responsabilidade do Partido Comunista, que as prepara meticulosamente».
Posto isto, lança a «hipótese» de o PCP ter «um centro de preparação de arruaceiros desta estirpe» e denuncia, agora sem citar «fontes», como é que se organiza a coisa: «São mobilizadas vinte ou trinta pessoas comuns» (pelos vistos os comunistas também podem ser «comuns»), com umas «faixas com as mensagens decididas no partido, os atestados médicos para os libertarem do emprego naquele dia, um “autocarrozito” para os levar», mais «umas lancheiras para o “almocito” do dia e lá vão eles, cumprir a arruaça programada».
E para que não restem dúvidas sobre o pensamento que o move, conclui que «ainda não percebi, em toda esta mistificação, a razão pela qual os Serviços de Segurança permitem que os arruaceiros façam o seu “teatro” ilegal e ofensivo a poucos metros do primeiro-ministro».
Só lhe faltou acrescentar que os tais «arruaceiros» deveriam ser presos ou corridos a tiro -como no fascismo -, mas não faz mal, a gente percebe.
Convém recordar ao prosador que as manifestações – longe ou perto do primeiro-ministro - não são «ilegais» nem «teatros»: são direitos democráticos conquistados com Abril e consagrados na Constituição.
Registamos, contudo, o repentino desvelo de Rangel para com as «escolhas dos portugueses em eleições livres». Para quem, não há muito tempo, fanfarronava do alto da sua proeminência à frente da SIC que «elegia Presidentes da República como quem vende sabonetes», configura um passo em frente.
Quanto a seu anticomunismo, pela amostra, já deixou de ser primário e tornou-se bacoco. «Central de arruaceiros»?!... «Mensagens do Partido» com «lancheiras» e «almocitos»?!... Francamente...
Assinalamos, finalmente, que Rangel não se deve iludir com o facto de ter começado a ser notícia e «notável» da comunicação quando arrombou à marretada as portas da TSF. Se sonha recuperar o poder doutros tempos na televisão adulando José Sócrates, deve ter em conta que a marreta não será a pena mais adequada para redigir panegíricos...


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