Centro-esquerda cria novo partido em Itália

«Uma máquina para ganhar votos»

As singulares eleições primárias para a eleição do líder da nova formação política italiana Partido Democrático (PD), realizadas no domingo, 14, consumaram a fusão dos dois maiores partidos da coligação governativa - o DS, Democratas de Esquerda, herdeiros longínquos do antigo Partido Comunista Italiano, e a Margherita, de inspiração democrata-cristã.
Cerca de três milhões de italianos foram às urnas escolher o líder do novo partido. Para votar bastava ter mais de 16 anos e possuir cartão de eleitor. Este tipo de sufrágio, apresentado como uma inovação da participação democrática, foi experimentado pela primeira vez em 2005, quando a coligação do centro esquerda decidiu colocar à votação dos italianos a escolha do seu representante. Romano Prodi foi então plebiscitado por cerca de 4,3 milhões de votantes.
O novo Partido Democrático, que diz não ser de esquerda nem de direita (o que na prática significa que defende um política de direita) propõe-se alcançar o «consenso» numa larga fatia da sociedade italiana, inspirando-se nos modelos do Partido Democrata norte-americano e no Partido Trabalhista da Grã-Bretanha.
Ou seja, considerações sobre democracia à parte, o PD pretende ser «uma máquina eleitoral para ganhar votos. Um superpartido que deverá permitir evitar a chantagem das pequenas formações», que têm contestado com vigor as reformas anti-sociais do governo de Romano Prodi.
Esta definição certeira, dada por Marco Tarchi, professor de Ciências Políticas da Universidade de Florença citado pela Lusa, coincide de resto com a largueza de vistas de Walter Veltroni, presidente da Câmara de Roma e o vencedor das eleições de domingo: «Sempre estive convencido de que, cedo ou tarde, nasceria em Itália um partido democrata, onde se reuniriam pessoas, culturas e energias diferentes», declarava ao jornal Corriere della Será, dia 12, o candidato favorito à liderança do PD, acrescentando que «esta votação concretiza o sonho de toda a minha vida política».
Ideologicamente inodoro no nome, o novo Partido Democrático parece ter encontrado nesta personalidade o representante ideal. Como recorda o diário El Pais (15.10) «Veltroni foi dirigente do Partido Comunista, mas assegura que nunca foi comunista. Declara-se ateu, mas utilizou as páginas do Unitá, quando era director do órgão central do PCI, para difundir os evangelhos e várias vezes fez questão de participar em peregrinações católicas».

Ambições hegemónicas

Não surpreende pois que este político ambíguo já tenha manifestado vontade de «dialogar» com a oposição de centro-direita, revelando desmesuradas ambições hegemónicas na cena política italiana.
Com contas feitas, afirma que «o PD tem um potencial eleitoral de 37 por cento», ou seja, expressão semelhante à que o Partido Comunista Italiano tinha nos tempos em que disputava com a Democracia Cristã a vitória nas eleições.
Contudo, as sondagens apenas atribuem ao novo partido 28 por cento de intenções de voto, ou seja, menos que as duas formações que o compõem obtiveram separadamente nas legislativas de 2006.
O descrédito antecipado do PD tem origem nas próprias fileiras do DS, onde destacadas figuras se demarcaram da fusão envolvendo-se na criação de movimentos políticos alternativos.
Entre estes está o actual vice-presidente do Senado, Gavino Angius, antigo DS que se mostra empenhado na reconstrução do Partido Socialista Italiano, como formação à esquerda do PD.
Por seu lado, Fábio Mussi, ministro da Universidade e Investigação, envida esforços para a constituição de uma «Cosa Rossa» (coisa vermelha) para a qual procura atrair comunistas e verdes.
Acresce que também à direita alguns antigos democratas-cristãs parecem mais inclinados a aderirem ao centro-direita de Berlusconi do que ao PD, como é o caso da ministra da Justiça, Clemente Mastella, chefe de uma formação centrista que integra a coligação no poder (Le Monde, 13.10).

CN


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