A vingança das bruxas

Anabela Fino
Toda a gente conhece a famosa frase sobre as bruxas, as tais em que não se acredita... pero que las hay, las hay. Pois não é que voltaram ao ataque? Não, não foi nada com Sócrates, nem com polícias à paisana, nem com o debate sobre Segurança Interna, nem com nenhum outro tema palpipante, revoltante, sórdido, indigno ou (sobretudo) preocupante dos muitos que agitam as águas cada vez mais turvas da nossa vida nacional, e em relação aos quais estou em crer que as bruxas, se existem, não só nada têm a ver como devem guardar distância por elementar questão de higiene e sanidade mental.
Do que se trata é de outra coisa, sem importância de maior porque sem consequências relevantes, que nem sequer valeria a pena trazer aqui à colação se não fosse essa questão de princípio que obriga – a alguns pelo menos – a repor a verdade sempre que é caso disso. O caso é com Teran, o sargento boliviano hoje na reforma, o homem que há 40 anos assassinou Che Guevara, que tanta tinta fez correr recentemente – inclusive no Avante!, pela autora destas linhas – devido a uma pretensa operação às cataratas que lhe teria devolvido a visão.
O tempo dos verbos não é fortuito. Então não é que, neste fim-de-semana, em Serpa, falando com um camarada boliviana, apurei que a Operação Milagre na Bolívia já devolveu a vista a três – três, meus amigos, três – homens de nome Teran, sendo que nenhum deles é o tal que ficou tristemente famoso por ser um assassino? Pois é verdade. Ao que parece, terá sido a precipitação (ou especulação?) do jornal que recebeu os agradecimentos do filho de um desconhecido Teran aos médicos cubanos que lançou o mundo mediático no engano. Nem a própria agência cubana Prensa Latina escapou.
A «notícia» correu mundo. Mas uma falsa notícia não é notícia. Ou será? Quase se pode ouvir as gargalhadas das bruxas, saboreando a pequena vingança e pensando em quantas «notícias» destas, de consequências bem mais graves, fundamentam o «conhecimento» do que se passa no mundo ou mesmo aqui ao nosso lado, difundidas de forma bem menos inocente do que esta de Teran o foi.
O erro, no caso, não foi grave. O mérito da Operação Milagre é incontornável. Mas não deixa de ser caricato que tenha sido preciso um engano destes para milhões de pessoas em todo o mundo ficarem a saber a imensa generosidade da revolução cubana. Uma gota de água no oceano de mentiras ou meias verdades que todos os dias nos servem, dirão as bruxas.


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