Caça ao dólar

André Levy
As eleições presidenciais nos EUA são daqui a mais de um ano e meio (a 4 de Novembro), mas a corrida já vai bastante adiantada, tendo mesmo começado antes das últimas eleições intercalares, em Novembro de 2006. Porquê tão cedo? Antes de ganharem votos, os candidatos precisam de ganhar dólares: o mercado eleitoral tem prioridade sobre o escrutínio democrático. O presidente da Comissão Eleitoral afirmou que para ser levado a sério um candidato terá de conseguir $100 milhões até ao fim de 2007, e que as eleições presidenciais de 2008 prometem ser as mais dispendiosas de sempre, possivelmente ultrapassando o recorde de 2004 (mil milhões de dólares) – mais que metade do PIB de Portugal.
Estas serão as primeiras eleições em 80 anos nas quais não haverá um elemento da Casa Branca a concorrer, havendo vários candidatos à partida dentro de ambos os partidos tradicionais. A separação entre os candidatos na pré campanha não é feita consoante diferenças entre as suas propostas, ou estratégias políticas, ou até personalidades, mas segundo a avaliação dos principais investidores sobre qual o candidato que melhor servirá os seus interesses. São os investidores de Wall Street e outros interesses comerciais que determinam a viabilidade inicial dos candidatos, que contribuem para os anúncios televisivos e determinam a atenção e forma de cobertura dedicada pela comunicação social, e desta forma moldam quais os candidatos considerados viáveis. Um candidato com ambição de ganhar a corrida no seu partido sabe que tem de ter um arranque forte. Thomas Vilsack, um dos primeiros democratas a anunciar a sua candidatura, desistiu da corrida em Fevereiro, após prever que não seria capaz de competir financeiramente com os outros candidatos: havia logrado acumular apenas $1.3 milhões durante os três meses em que foi candidato, o mesmo que outros candidatos conseguiam angariar numa noite – um sinal claro da inviabilidade da sua candidatura.
Os investidores em geral não se movem pelas filiações partidárias dos candidatos, sendo frequente contribuírem para ambos os partidos. Num sistema político fortemente bi-polarizado, financiado por um sector económico interessado em assegurar a estabilidade e continuidade da política económica, isto é, os privilégios do capital, um candidato precisa de convergir para o programa único, com pequenas variações de pormenor. Este programa em nada corresponde à vontade maioritária da população, expressa em sondagens de opinião, nem ao peso demográfico das diferentes camadas da população. Assim, por exemplo pode defender-se uma (eventual) retirada do Iraque, mas sem um calendário preciso, e há que ser um forte apoiante de Israel: organizações pró israelitas são responsáveis por cerca de 40% do financiamento do Partido Democrata.

Candidatos na corrida

Candidatos com propostas divergentes são rapidamente marginalizados pelos investidores e comunicação social. Recorde-se a forte campanha contra Ralph Nader, candidato pelo Partido Verde nas eleições de 2000, excluído dos debates presidenciais e acusado pelos democratas de lhes roubar os votos necessários para ganhar as eleições.
Usando o compasso financeiro, quais são os candidatos que a meio ano das eleições primárias, demonstram ter fôlego? Entre os democratas, destacam-se a senadora e mulher do ex-presidente, Hillary Clinton, e o jovem senador de Illinois, o afro-americano Barak Obama. Ambos ultrapassaram já os $58 milhões angariados, com Clinton ligeiramente à frente, mas tendo Obama obtido melhores resultados no segundo quadrimestre devido à acumulação de pequenas contribuições. Bastante atrás ficam os restantes candidatos democratas, incluindo o ex-candidato vice-presidencial John Edwards. Entre os republicanos, estão empatados na liderança, com cerca de $35 milhões cada, o ex-presidente da câmara de Nova Iorque e suposto herói do 11 de Setembro, Rudy Giuliani, e o ex-governador do Massachusetts, Mitt Romney. Giuliani foi atacado num anúncio promovido pelo sindicato dos bombeiros de Nova Iorque, mas a sua imagem será certamente maquilhada pois recebeu o apoio do vice-presidente de programação da cadeia televisiva FOX, Sean Hannity. O senador do Arizona, John McCain, foi forçado a despedir dezenas de trabalhadores de campanha devido aos mais fracos resultados financeiros. Significativo é também o crescendo do Partido Democrata que consegue pela primeira vez em muitos anos ultrapassar o Partido Republicano, em larga medida devido a uma alteração do apoio dos grupos de interesse, que desde Reagan têm maioritariamente apoiado os republicanos. Dentro de um ano, formalizada a escolha dos interesses financeiros com o voto dos eleitores, será business as usual.


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