O que faz falta

Correia da Fonseca
Até me custou a crer, mas era verdade: num daqueles tempos mortos em que a televisão nos presenteia com um compasso de espera, apenas uma mira técnica e música, dei por mim a ouvir uma canção de José Afonso. Só a música, sem palavras. Nem posso garantir agora qual o canal que se entregava a tão estranha prática, pois uma canção de José Afonso não é música que esteja na moda, mas inclino-me a crer que terá sido a RTP 2, mais vulnerável a uma extravagância deste tipo. De qualquer modo, o caso é que, ouvindo a música, a memória seguiu a sugestão que ela trazia a obrigou-me a lembrar os versos que ali faltavam. Na medida em que ainda os retinha, naturalmente: «(...) o que faz falta é avisar a malta, o que faz falta (...)». Lembrei-me também de que o próprio José Afonso contara, creio que no seu último concerto, no Coliseu, que a canção tinha sido cantada pela primeira vez numa empresa cujos trabalhadores estavam em luta laboral e que, naturalmente, precisavam de apoio amplo. O poeta quis então dizer, cantando, que «o que faz falta é avisar a malta», isto é, explicar às gentes o que vai acontecendo no País e no mundo, único entendimento da expressão condizente com o seu próprio trabalho no duplo plano da criação artística e da cidadania. Aliás, parece-me que explicar a vida nos diversos contextos em que ela acontece está, de um modo ou de outro, no âmago da obra de qualquer intelectual que não abdicou de ser cidadão a pretexto, tácito ou mesmo explícito, de que a sua condição o dispensa de se interessar pela tecitura social em que ele e os outros se inscrevem. Como bem se sabe, José Afonso nunca abdicou dessa cidadania e, coerentemente, sempre quis chamar os outros para o lúcido exercício dela. De onde as suas palavras: «o que é preciso é avisar a malta». O mesmo é dizer: o que é preciso é explicar o que se passa, o que está a acontecer por detrás de aparências e talvez de dissimulações, revelar o sentido de um quotidiano por vezes aparentemente «branco». E escusado será acrescentar que o aviso, qualquer aviso, há-de ser claro e sintético, sem ênfases escusadas nem longos paleios inúteis. Bem lhe bastara ter tido de, perante a censura fascista, esconder sob fórmulas poéticas aliás belíssimas recados que terá desejado mais linearmente explícitos. Talvez por isso incluiu em «O que faz falta» um desabafo impaciente: naquela rusga, não havia «lugar para os filhos da mãe».

O dever primeiro

Ora, aconteceu que ouvir a canção de José Afonso e o recado por ela veiculado me pôs a pensar, o que talvez não aconteça tantas vezes quanto seria desejável. E, pensando, pensei que «avisar a malta» é exactamente o dever primeiro da crítica de televisão perante uma TV que, precisamente, dá claros sinais de se empenhar para que a malta telespectadora se mantenha desavisada. Dizendo-o de outra maneira: o que mais faz falta ao público de milhões que dia após dia consome acriticamente a TV que lhe fornecem, e que até gosta porque «sempre é uma companhia» (título de um conto de Manuel da Fonseca tendo como tema a presença da rádio numa solidão alentejana bem antes de 74), é que o avisem. Depois, alguns dirão que uma crítica assim, avisadora, é política. E é verdade. Para sua honra. E para eventual desonra de alguma outra forma de fazer crítica de TV sem avisar o público, isto é, a vítima inconsciente, do que lhe está a acontecer. E é curioso, ou muito mais que isso, que o próprio verso de José Afonso, sendo ele próprio um óbvio aviso, pode e deve ser recebido muito para lá dos limites específicos e estreitos da crítica de televisão, isto mesmo considerando que as circunstâncias actuais são diferentes das que motivaram «O que faz falta». Na verdade, são vários os sectores em que «avisar a malta» continua a ser a tarefa primordial, talvez mesmo se possa dizer, plagiando uma fórmula que tristemente se celebrizou, que «avisar a malta» é a mãe de todas as tarefas, de todos os combates sociais. Avisar, já se vê, de modo a que o aviso chegue ao seu destino, nele germine e floresça em lucidez. É, como ensinou José Afonso, o que sempre «faz falta».


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