Os trituradores

Jorge Messias
Com o fim das férias, os portugueses deitam agora contas à vida. E as contas que fazem enerva-os e alarma-os. Muitos hão-de sentir o amargo de boca de serem cúmplices das circunstâncias actuais. Porque votaram mal. Os tempos que faltam para as próximas legislativas prometem tempestade. Há um quadro negro de aumento do desemprego e do custo de vida, de agravamento das condições do crédito e da subida dos juros, de falências em série de PMES, de violação electrónica da privacidade dos cidadãos, de liberalização total dos despedimentos, etc., etc.
É evidente que nem todos sofrem as angústias do dia de amanhã. Os 100 portugueses mais ricos possuem ¼ da riqueza nacional, metem ao bolso 34 mil milhões de euros e vem a saber-se que Sócrates ganha mais no seu emprego que o próprio Putin. Sócrates recebe, ao que se diz, 5287 euros/mês, enquanto que o russo se fica pelos 4860 euros. É caso para nos orgulharmos de haver um português que vai à frente dos russos. Ao menos, isso. Faz bem à nossa deprimida auto-estima lusitana...
A Igreja Católica portuguesa não se mete nestas coisas e faz ela muito bem. «Os pobres, tê-los-eis sempre convosco...», rezam os Evangelhos. E a Igreja lá vai fazendo, na sombra, o seu percurso solitário, estrategicamente fiel ao voto de pobreza que aceitou mas que não cumpre e a distingue, por isso, entre os seus pares. Aumentou para três vezes por ano (13 de Maio, 13 de Agosto e 13 de Outubro) as espectaculares encenações litúrgicas de Fátima - porque é preciso, mesmo aos mais pobres, pagar as dívidas aos fornecedores - e mandou construir aquela Catedral da Cova da Iria que custou à hierarquia os olhos da cara. Ainda não está pronta e já vai nos 50 milhões, com tendência para uma derrapagem ainda maior. Como dizia um vendedor ambulante do Santuário, «O negócio está fraquinho!...»

Os espinhos na carne

No plano financeiro - e porque não também dizer religioso ? - avultaram recentemente dois problemas maiores (se não contarmos o que representou para o Vaticano a dança macabra das oscilações das bolsas mundiais): o caso do financiamento encapotado do PSD por parte do grupo da Somague e as declarações sensacionalistas de Teixeira Pinto que diz agora ir abandonar o Opus Dei... São assuntos de grande importância que terão de ser tratados aqui de forma sumária.
No primeiro caso, provou-se que em 2002 a Somague subsidiou ocultamente, ao que se diz com 233 mil euros, a campanha do PSD. O que, evidentemente, não é permitido pela lei. Fala-se, agora, de uma multa astronómica a aplicar às duas partes, sobretudo à SOMAGUE. Que ninguém acredite que tal possa acontecer. A Somague tem um passado sempre estreitamente ligado aos capitais da Igreja e do Opus Dei. Foi fundada pela famílias Moniz da Maia e Vaz Guedes, ricas e católicas, baluartes do movimento opusdeísta. São intocáveis. É mesmo impressionante a teia de alianças que a Somague desenvolveu ao longo dos anos, sempre com grupos financeiros conotados com o Vaticano: o Santander, o Banesto, a Condotte D'Aqua, a ABB, a SENET, os Valores Ibéricos e os Títulos Ibéricos, de José Roquette, a La Union y El Fenix, de Mário Conde, o Royal Bank of Scotia, o Hispano-Americano, e uma teia infinita de outras instituições canónicas da área financeira. Na Somague ninguém pode pôr a mão. Por outro lado, a Spmague é grande accionista no BCP e no BPI, facto de interesse para uma eventual ligação ao processo que se desenvolve no banco de Jardim Gonçalves.
Que Jardim Gonçalves é membro do Opus Dei toda a gente o sabe e o próprio reconhece. Que Fernando Ulrich, presidente do BPI, também foi aceite pela Obra (apadrinhado por Jardim Gonçalves, como Ulrich reconheceu em entrevista) é igualmente público e notório. Apenas faltava, nesta tríade, o esclarecimento das posições de Paulo Teixeira Pinto. Primeiro, há já anos, reconheceu pertencer ao Opus Dei. Depois, mudou de ideias, e negou essa filiação. Agora, regressou à versão inicial mas com uma subtil variante: é do Opus Dei, há mais de 20 anos, mas promete que vai sair da Obra... É preciso ser-se ingénuo para se acreditar que no Opus Dei alguém entra e sai quando lhe apetece! Sobretudo, quando se tem a «tarimba» bancária de um Teixeira Pinto. Quando se possui os segredos que ele tão bem conhece. Tanto mais que Teixeira Pinto também anunciou a intenção de permanecer no BCP, aconteça o que acontecer.
O Opus Dei é um triturador, uma máquina implacável que não depende de ninguém. A sua força em Portugal, é decisiva.
Um aviso que aqui fica, aos incautos.


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