EUA enfrenta contestação interna e externa

Império com pés de barro

Bush é o presidente norte-americano com a maior taxa de desaprovação da história dos EUA. A política da guerra, da agressão e as medidas antipopulares estão na base do repúdio generalizado.

Os filhos da nação têm medo de regressar num caixão chumbado

A política externa e interna da administração republicana é hoje contestada pela maioria dos norte-americanos, afirmam sondagens divulgadas por meios de comunicação nos EUA.
Os escândalos envolvendo negociatas e influências em torno do poder; a incapacidade de resposta federal e local a calamidades (como os furacões Katrina e Rita deixaram a nu); as precárias condições de vida e de trabalho da maioria do povo americano; as guerras de agressão e a escalada militarista são o retrato de um império com pés de barro.
Se do ponto de vista externo os EUA só através da chantagem ou da repartição dos espólios de guerra conseguem agregar aliados para a sua política de agressão, ocupação, destruição e saque de vastas regiões, do ponto de vista interno, o governo é já incapaz de convencer a nação da inevitabilidade da sua conduta, sobretudo em matéria de mobilização para o «combate ao terrorismo».
A este respeito, são sintomáticas as declarações do general Douglas Lute, responsável pela coordenação das guerras no Iraque e Afeganistão, quando afirma, sem rodeios, que Washington tem que repensar a inclusão do serviço militar obrigatório, revogado por Nixon em 1973 perante a contestação das massas à guerra do Vietname.
As baixas taxas de alistamento militar actualmente verificadas nos EUA contrastam com as crescentes necessidades impostas pela multiplicação dos conflitos. Bush e o Pentágono elevaram os incentivos financeiros – cerca de 20 mil dólares – para os que se apresentem ao serviço, mas a medida estará em vigor apenas até ao final do próximo mês de Setembro e poucos acreditam, a julgar pelos números verificados em Maio e Junho, que a meta de 80 mil voluntários seja alcançada. Os filhos da nação têm medo de regressar num caixão chumbado, dizem, e mesmo entre os mais pobres e excluídos, afroamericanos, hispânicos, portoriquenhos, a cor do dinheiro já não vale o risco.
Certo é que nos territórios iraquiano e afegão parte considerável do contingente norte-americano é composto ou por jovens soldados sem a preparação adequada, conforme manda a legislação sobre a matéria, ou por soldados obrigados a cumprir segundas e mesmo terceiras comissões de guerra. As acusações foram feitas pela senadora democrata Ellen Tauscher. A eleita californiana revelou ainda que os soldados passam 12 meses nos EUA por cada período de 15 em serviço, quando a lei obriga a dois anos de descanso por cada ano de comissão.

Avança o povo

A política do governo norte-americano merece uma oposição forte e não comprometida com os interesses imperialistas do capital que manda em Washington, mas os democratas não são a solução.
Cindy Sheehan - que tal como muitos outros norte-americanos faz parte do grupo dos que perderam um parente próximo no Iraque, no caso um filho, Casey - parece ter percebido tal necessidade quando viu o Partido Democrata negar o seu pedido de levantamento de processos políticos e judiciais contra Bush, Cheney e outros membros do aparelho da Casa Branca.
Depois de um período de desilusão em que anunciou mesmo o afastamento da sua participação cívica e política, Sheehan voltou à carga e anunciou que irá disputar um lugar no Congresso norte-americano, informou o jornal USA Today.
Na base da decisão estão as falsas esperanças depositadas na maioria Democrata no parlamento, onde a líder da Câmara Baixa, Nancy Pelosi, bem se esforçou por dar uma aparência de alternativa mas acabou por revelar-se, mais uma vez, como alternância, saindo acusada de comprometimento com a elite e de defraudar as expectativas dos seus eleitores.
A campanha de Sheehan na Califórnia não será financiada por qualquer empresa, esclareceu a própria durante o lançamento da sua candidatura. Para além do fim da guerra, a «mãe coragem», como lhe chamam, promete lutar pela diminuição dos custos da educação e pelo estabelecimento de um sistema de saúde universal.

Miseráveis no Estado mais rico

A Califórnia é o Estado mais rico dos EUA. O facto não é novidade nem espanta ninguém, mas o que não é sabido nem divulgado é que paredes meias com o mais obsceno luxo convive a maior das misérias.
Segundo um estudo divulgado esta semana, cerca de dois milhões de famílias californianas vivem em condições de extrema pobreza.
Apesar dos abrangidos realizarem os trabalhos mais duros, diz o relatório, recebem duas vezes menos que o mínimo considerado fundamental para suportar as necessidades mais básicas de qualquer ser humano: alimentar-se segundo os padrões calóricos definidos pelas organizações internacionais; habitar num sítio condigno; aceder a educação ou cuidados primários de saúde.
O mesmo estudo citado pelo diário La Opinión diz que seis em cada dez famílias pobres são de origem latina, a comunidade que apresenta igualmente os maiores índices de abandono escolar, marginalização e baixa produtividade.
Em Washington, o executivo faz por estes dias gala com a retoma da reforma migratória, propondo, com pés de lã, depois de derrotado nas ruas o projecto inicial fruto da mobilização de milhões de trabalhadores imigrantes, as mesmas medidas com outro embrulho, a saber: reforço da segurança na fronteira, restrição da atribuição de vistos e documentos de cidadania, pesadas multas para quem contratar indocumentados.
Pode parecer contraditório que um país que apresenta uma estrutura populacional envelhecida e por isso seja importador de mão-de-obra tome tais medidas. Puro engano. Como esclareceram a seu tempo as associações de defesa dos imigrantes nos EUA, a intenção é mesmo aprofundar a exploração impondo vistos temporários de trabalho (os «trabalhadores convidados»), retirando força reivindicativa aos imigrantes por via da chantagem numa fórmula sintetizada na aceitação da exploração em troca de umas migalhas, ou o regresso à tua terra natal onde a miséria espreita.
Possam as Cindy Sheehan norte-americanas promover a unidade e os pés de barro do império estalam em mil bocados.

EUA caem a pique nos índices internacionais
Saúde, mas não para todos

«O ponto de partida é o reconhecimento de que os Estados Unidos não possuem o melhor sistema de saúde. Há ainda imensas pessoas que acreditam nisso». A afirmação é de Christopher Murray, director do Instituto de Avaliação da Saúde da Universidade de Washington e reporta-se aos números divulgados recentemente pelo Gabinete de Recenseamento e pelo Centro Nacional de Estatísticas da Saúde dos EUA.
De acordo com os dados oficiais, citados pela Lusa, nos últimos 20 anos os EUA caíram da 11.º posição para a 42.ª posição ao nível mundial no que à esperança média de vida diz respeito, sendo ultrapassados, por exemplo, pelas ilhas Caimão ou por Portugal, nações cujo Produto Interno Bruto fica muito longe do norte-americano mas que ainda assim ultrapassam o país mais rico do mundo, mas também o mais desigual.
As razões apresentadas são muitas, desde logo o desinvestimento na saúde e a privatização de um sistema que em rigor nunca foi universal, factos que se juntam à ausência de seguro de saúde por parte de mais de 45 milhões de norte-americanos. E na terra da abundância já sabemos, sem seguro ficas à porta das urgências.
A política de incentivo ao consumo rápido, imediato, descartável apresentado pelas multinacionais da industria alimentar, do tabaco ou do álcool também provoca danos. Um terço dos jovens norte-americanos com mais de 20 anos é considerado obeso e dois terços têm peso em excesso.
A política neo-natal também deixa muito a desejar e os norte-americanos estão no 40.º posto quando se fala de mortalidade infantil antes de completado o primeiro ano de vida.

Discriminação ainda pesa

Se tivermos em conta sectores da população, facilmente chegamos à conclusão que a cor da pele ainda é nos EUA motivo para morrer precocemente.
Os afroamericanos morrem mais cedo em média cinco anos que os seus congéneres caucasianos, 73,3 anos e 77,8 anos de esperança de vida, respectivamente. Nos homens afro-americanos a média baixa para os 69,8 anos, próxima de países tidos como do «eixo do mal» como o Irão ou a Síria.
Ainda no que à mortalidade infantil concerne, ficamos a saber que 13,7 nascituros por cada mil de origem afroamericana morrem antes do primeiro ano de vida, o dobro da taxa para a restante população dos EUA e um valor só comparável ao da Arábia Saudita.


Mais artigos de: Internacional

Fretilin devolve acusações

A Fretilin condenou, domingo, a violência crescente em Timor mas rejeitou as acusações de levantamento armado no país.

Começou a batalha do Árctico

Canadianos, russos, dinamarqueses, noruegueses e norte-americanos deram início ao que pode vir a ficar conhecida como a batalha do Árctico. A disputa da soberania sobre uma parte ou a totalidade daquele Círculo Polar tem como objectivo garantir o acesso aos recursos naturais ali existentes.Três das cinco nações...

Putin inaugura sistema anti-aéreo

Depois da suspensão do Tratado de Forças e Armas Convencionais na Europa, o presidente russo apresentou oficialmente o novo sistema de defesa anti-aéreo da Rússia, o qual deverá estar completamente operacional nos próximos oito anos. A medida é a resposta do Kremlin ao projecto norte-americano de instalação de um sistema...

Estatuto sem acordo

Representantes dos EUA, da UE e da Rússia deslocaram-se, durante o fim-de-semana, a Belgrado e Pristina, capitais da Sérvia e da província sérvia do Kosovo, respectivamente, com o objectivo de discutirem com os responsáveis políticos locais o futuro da região. O alemão Wolfgang Ischinger (UE), o russo Aleksander...

<em>Africom</em> em marcha

Até ao próximo mês de Outubro, o Pentágono vai convidar representantes de mais de 30 países africanos para discutir o plano de estabelecimento no continente de um comando militar unificado, cujo objectivo é «participar em missões humanitárias» e «prevenir conflitos».A iniciativa, chamada Africom, terá, para já, como...