O relatório

Jorge Cadima

A situação actual foi criada pelos principais responsáveis pela tragédia palestina

strong>Os recentes enfrentamentos entre as principais forças palestinas enfraquecem a causa do seu povo, vítima desde há muitas décadas da criminosa ocupação israelita. A situação tornou-se mais difícil, e mais permeável às manobras do imperialismo e do sionismo. Mas em muitos aspectos, a situação actual foi criada pelos principais responsáveis pela tragédia palestina – que sempre impediram uma solução política que faça justiça a esse martirizado povo. Embora de forma discreta, um testemunho abonatório desta ideia veio recentemente a lume.

Em 13 de Junho, o jornal britânico The Guardian divulgou no seu site na Internet o relatório confidencial de fim de mandato daquele que foi até agora «Coordenador Especial da ONU para o Processo de Paz do Médio Oriente e Representante Pessoal do Secretário Geral da ONU junto da OLP e da Autoridade Palestina», o diplomata peruano Alvaro de Soto. Escrito antes dos mais recentes acontecimentos em Gaza, o relatório afirma que «um Governo de Unidade Nacional com uma plataforma de compromisso semelhante ao acordado em Meca [pela Fatah e Hamas] poderia ter sido alcançado logo após as eleições [que deram a vitória ao Hamas] em Fevereiro ou Março de 2006, caso os EUA não tivessem levado o Quarteto [constituído pela UE, EUA, Rússia e ONU] a colocar exigências impossíveis e tomado uma posição de princípio contra um Governo de Unidade Nacional. Nessa altura, e aliás até ao Acordo de Meca um ano mais tarde, os EUA incentivaram claramente uma confrontação entre a Fatah e o Hamas – tanto assim que o enviado dos EUA declarou por duas vezes numa reunião de enviados em Washington o quanto “gosto desta violência”, numa referência à quase guerra civil que estava a eclodir em Gaza e em que civis estavam a ser regularmente mortos e feridos».

Ao mesmo tempo que exerciam pressões para impedir acordos de unidade e atiçavam as divergências no seio dos palestinos, os EUA impediam quaisquer avanços políticos e manipulavam o Quarteto, que segundo de Soto foi «na prática transformado de um quarteto promotor de negociações guiado por um documento comum (o Roteiro para a Paz), num órgão que quase impõe sanções ao governo livremente eleito de um povo sob ocupação e que fixa pré-condições inalcançáveis para qualquer diálogo». «Em geral, a outra consequência da política do Quarteto foi a de remover qualquer pressão sobre Israel». Amargurado, de Soto deixa entender as razões da sua demissão, após 25 anos de carreira diplomática na ONU, quando informa que apesar do extenso título do seu cargo – e de a ONU ser uma organização cuja razão de ser reside na negociação política - nunca foi autorizado a manter contactos com alguns dos principais parceiros de qualquer negociação: «nunca me autorizaram a visitar a Síria [...] e desde a eleição do Hamas, fui “Representante Pessoal do Secretário Geral junto da Autoridade Palestina” durante dez ou quinze minutos através de duas conversas telefónicas e um aperto de mão» - a mais não tendo sido autorizado por uma ONU cada vez mais refém dos EUA e Israel. De Soto declara que aguentou a situação «até que o Quarteto começou a tomar posições que provavelmente não terão a maioria nos órgãos da ONU e que estão em contraste com as resoluções do Conselho de Segurança e/ou o Direito Internacional [...] É impossível tornear a realidade de que o Quarteto – a Rússia e o Secretário Geral da ONU - estão a fornecer uma capa que encobre as acções dos EUA e da UE».

O Relatório de Soto é mais um testemunho eloquente de como uma grande organização internacional, criada no rescaldo da II Guerra Mundial para procurar soluções pacíficas para os conflitos internacionais, está refém das grandes potências imperialistas. A ONU está a ser transformada num instrumento de políticas de opressão e agressão contra os povos. É um caminho que – como adverte de Soto - será fatal para a ONU.


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