Violência e repressão na Alemanha

A guerra do G8

Cerca de 80 mil pessoas, oriundas de vários países europeus, confluíram, sábado, 2, na cidade portuária de Rostock, no norte da Alemanha, para participarem numa manifestação contra a cimeira do G-8, que reúne os países mais industrializados.

O governo alemão tem imposto graves restrições às liberdades civis

Duas colunas de manifestantes desfilaram pelas ruas da cidade portuária de Rostock, situada a 21 quilómetros da estância balnear de Heiligendamm, no Mar Báltico, onde, hoje, quarta-feira, tem início a cimeira do chamado G-8 (Alemanha, Canadá, Estados Unidos, França, Reino Unido, Japão, Itália e Rússia).
Sob o lema «Outro Mundo é Possível», a marcha, convocada por perto de 300 organizações antiglobalização, desembocou na zona portuária onde foram feitas várias intervenções, todas elas transmitidas em directo pela cadeira pública de televisão Phoenix.
Em comunicado divulgado pelas 18 horas, os organizadores contabilizavam 80 mil participantes no protesto e acusaram as autoridades de tentarem diminuir a sua expressão. Os números da polícia não foram além dos 25 mil manifestantes.
Embora ostensivamente escoltados por cerca de 13 mil agentes mobilizados para o local, dispondo de uma imensa panóplia de meios técnicos, desde carros de água a helicópteros, os manifestantes cumpriram o percurso pacificamente.
Os incidentes começaram após a polícia anti-motim ter irrompido por entre as pessoas com o objectivo de deter um indivíduo. Em resposta a esta operação, alguns activistas radicais, agrupados no «Bloco Negro», começaram a lançar pedras, garrafas e outros objectos contra os destacamentos policiais.
Já depois de o canal de televisão ter deixado de transmitir em directo, a polícia entrou em acção com cinco carros de água e vários grupos de choque para dispersar os manifestantes.
Contudo, os confrontos prosseguiram pelas estreitas ruas da cidade entre pequenos grupos de activistas e os agentes. Vários veículos foram incendiados. De ambos os lados há registo de quase milhar de feridos. Centena e meia de manifestantes foram detidos.
No domingo, polícia e organizadores do protesto divulgaram os números exactos. Nos confrontos da véspera, 433 agentes policiais e 520 manifestantes ficaram feridos, 63 pessoas permaneciam detidas. A jornada de sábado ficará marcada como uma das mais violentas dos últimos anos na Alemanha.

Tensão acumulada

Procurando justificar a gigantesca operação de segurança em torno do G-8, as autoridades alemãs têm apresentado as manifestações contra a cimeira como inevitáveis focos de distúrbios e violência que urge prevenir.
Todavia, o conjunto de medidas repressivas preventivas contra organizações e activistas de esquerda, as restrições aos direitos cívicos, bem como os custos astronómicos ligados à organização da cimeira mais não têm feito do que aumentar as tensões e extremar posições e protestos.
Temendo a invasão por manifestantes da estância balnear, onde se realiza a cimeira dos sete países industrializados mais a Rússia, o governo alemão começou há muito a construir uma cerca metálica em torno de Heiligendamm, com 2,5 metros de altura, encimada por arame farpado, e um perímetro de 12 quilómetros. A estrutura custou aos cofres do Estado 12,5 milhões de euros.
Seguindo as ordens da chanceler, Angela Merkel, a polícia decretou a proibição de qualquer manifestação na área circundante de cinco quilómetros, a partir do local da cimeira. Mais tarde, face aos protestos de vários sectores da sociedade, um tribunal alemão decidiu encurtar essa distância para 200 metros. Mas esta decisão foi contestada por outra instância judicial que deu razão à polícia.
A repressão atingiu os próprios jornalistas, designadamente de órgãos que defendem posições anticapitalistas. Nos últimos dias, o Gabinete Federal de Imprensa retirou ou recusou a acreditação de duas dezenas de profissionais da imprensa, num total de 4500 acreditados.
Entre os órgãos que foram inicialmente afastados da cobertura da cimeira esteve o diário berlinense Die Tageszeitung. Na sua edição de sexta-feira, 1, este jornal denunciava o caso com a manchete «Censura de imprensa no G-8». Poucas horas depois, o organismo federal devolveu-lhe a acreditação. Outros não tiveram essa sorte.
Porém, exemplos de violações de direitos fundamentais é o que não tem faltado nas últimas semanas na Alemanha. Casos de violação de correspondência, da liberdade de informação e do direito de manifestação têm vindo a público continuamente.
Todas estas medidas repressivas têm provocado grande controvérsia no país, levando até alguns ministros sociais-democratas do Interior de estados federados a criticar os excessos securitários, que reconhecem serem contrários à constituição.


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