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Anabela Fino
A propósito do lançamento, esta semana, do título «Álvaro Cunhal e a dissidência da terceira via», o Sol dedicou na sua última edição uma página a Raimundo Narciso, ilustrada por uma fotografia a três quartos assaz elucidativa do autor da obra: numa varanda sobre a cidade, cotovelo direito apoiado no parapeito, ar concentrado, mãos cruzadas, olhar no infinito. Uma pose de quem deu à estampa «uma viagem guiada ao interior do Comité Central entre Julho de 1987 e Dezembro de 1988, período que corresponde à preparação do 12.º Congresso no PCP e durante o qual ganha forma a maior cisão do PCP no pós 25 de Abril», como o Sol faz o favor de informar, e aguarda agora pelos devidos elogios.
No entretanto, certamente para aguçar o apetite pela leitura, Raimundo Narciso (RN) levanta a ponta do véu respondendo a perguntas de Margarida Marante. É assim que ficamos a saber que RN se atribui «um certo pedigree» por ter pertencido à ARA (Acção Revolucionária Armada), factor que em seu entender explicaria as diligências levadas a cabo por diferentes dirigentes do Partido, incluindo Álvaro Cunhal, no sentido de evitar a ruptura que se adivinhava. O facto de idênticos esforços terem sido feitos junto de outros dissidentes sem «pedigree» não perturba RN, embora reconheça que tais práticas visavam «ajudar um camarada».
No caso concreto, «o camarada» já tinha entrado em rota de colisão com o PCP, ao que parece porque o Partido, em seu entender, estava numa «evolução cada vez mais desadequada com a realidade» e «não acompanhava as grandes mudanças da sociedade portuguesa», pelo que acaba por ser expulso.
Vai daí, para se adequar, RN envereda pela criação da Plataforma de Esquerda e em 1995, já em sintonia com sociedade portuguesa, é eleito deputado nas listas do PS. Actualmente conjuga a escrita com um lugar no gabinete do ministro Mário Lino, outro acompanhante das mudanças sociais, mas sem perder de vista o PCP, embora parecendo ter uma visão algo estrábica da vida partidária.
Se não, vejamos: segundo RN, o actual secretário-geral do PCP, Jerónimo de Sousa, é «um homem da fábrica, da sociedade recreativa, do bailarico», que embora tenha trazido «de novo ao partido uma camada da classe trabalhadora que estava desiludida com a situação política», não se compara com Cunhal, que «era um príncipe da Renascença». Sem Álvaro Cunhal, diz RN, «deixou de haver no PCP um horizonte compatível com a actual realidade», pelo que prosseguir no caminho tendo o «marxismo-leninismo como cartilha» e insistindo no «centralismo democrático sem um upgrade muito grande» é ter como horizonte «um comunismo de sociedade recreativa».
Desconhece-se que sociedades recreativas frequenta, ou frequentou, RN, mas para quem entrou em dissonância com o PCP (e com Álvaro Cunhal) por a respectiva evolução não acompanhar «as grandes mudanças da sociedade portuguesa», não se percebe como é que o desaparecimento do «príncipe» – que afinal até «era um estratégico e um teórico» – faz com que deixe de haver para o PCP «um horizonte compatível com a actual realidade», tanto mais que Jerónimo de Sousa – RN dixit – trouxe ao PCP os desiludidos com... a actual realidade.
Deve ser um problema de upgrade, ou se calhar de pedigree, mas a verdade é que não conseguimos acompanhar a coerência de tão profunda reflexão.


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