Para onde vai a França?

Albano Nunes

Uma in­ter­ro­gação que en­cerra uma enorme in­qui­e­tação quanto à evo­lução

Esta uma interrogação que percorre a Europa. Uma interrogação perturbadora, sobretudo após a eleição de Sarkozy para Presidente da República, função que no regime presidencialista francês dispõe de poderes muito amplos. Uma interrogação que encerra uma enorme inquietação quanto à evolução do quadro político do continente no momento em que o grande capital intensifica a ofensiva contra os trabalhadores, as suas conquistas, as suas organizações e os seus direitos, prepara um novo salto federalista e militarista da União Europeia, anima um perigoso ressurgimento do racismo, do fascismo e do anticomunismo.
Interrogação e inquietação que partilhamos e que são uma razão mais para expressar aos comunistas franceses activa solidariedade e desejar ao PCF, independentemente de conhecidas diferenças em questões como a da «mutação», os melhores sucessos na dificílima batalha das próximas eleições legislativas.

A França conta muito na Europa e no mundo. Trata-se de um país capitalista, onde o poder económico e político pertence aos monopólios. Onde a burguesia não hesitou em trair os interesses do povo frente a Bismark e frente a Hitler e fez correr rios de sangue com as guerras coloniais da Argélia, da Indochina e outras. Uma grande potência que, em disputa e concertação com outras grandes potências, participa activamente no desenho e execução da estratégia imperialista (nomeadamente em África) que está a conduzir o mundo para o abismo.
Mas a França é também, e sobretudo, a França das «Luzes» e da grande Revolução Francesa. O berço do movimento operário revolucionário que nasceu no início do século XIX na Lião dos «canut» e o palco da heróica Comuna de Paris que inspirou a Marx as geniais reflexões de «A guerra civil em França». A pátria de Thorez e Duclos, do histórico Congresso de Tours com a transformação leninista do velho PS francês, dos pioneiros avanços da Frente Popular, do «partido dos fuzilados», o grande PCF que durante muitos anos foi um dos maiores e mais prestigiados partidos comunistas.

É este honroso património de uma França progressista, com uma cultura de esquerda solidamente enraizada, que Sarkozy quer enterrar quando pretende no seu discurso da vitória que «o povo francês escolheu romper com as idéias, os hábitos e os comportamentos do passado» e quando se propõe «reabilitar o trabalho, a autoridade, a moral, o respeito, o mérito», sabendo nós o que tal significa no discurso revanchista da reacção. Trata-se de projectos de ruptura muito ambiciosos que convocam desde já a nossa vigilância em relação à evolução no imediato das políticas do Governo francês. Graças à grande expressão dos comunistas e às tradições patrióticas e progressistas do seu povo, a França, membro fundador da CEE/ projecto imperialista europeu, é simultâneamente o país que disse «não» à Comunidade Europeia de Defesa, que durante muitos anos recusou participar no dispositivo militar da NATO, que em momentos cruciais bateu o pé às ambições hegemónicas dos EUA e aos seus planos mais agressivos e, mais recentemente, chumbou com um estrondoso «não» a chamada «Constituição Europeia». É com esta tradição de independência que Sarkozy também pretende romper, afirmando o seu pró-americanismo e anunciando opor-se a um novo referendo sobre a alteração dos Tratados da UE.
Sim, há fortes motivos de inquietação com a eleição daquele que tratou como «canalhas» os jovens revoltados das «banlieu» e com a previsível vitória do seu partido nas eleições de 10 e 17 de Junho. O que se deseja é que a inquietação incite à afirmação coerente e corajosa de projectos realmente de esquerda (que a candidatura de Ségolène Royal manifestamente não corporizou), capazes de incutir confiança e suscitar o apoio do eleitorado popular, e não, como alguns pretendem, novas abdicações e adaptações ao sistema. Só por essa via será possível voltarmos a receber em breve boas notícias de França.


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