MUD Juvenil e a repressão fascista

Bela-Mandil: Gloriosa jornada da juventude

Com o objectivo de propagar os ideias da cultura, da alegria e da amizade, milhares de jovens, vindos dos mais variados pontos do Algarve, participaram, há 60 anos, mais precisamente no dia 23 de Março de 1947, no Festival da Juventude de Bela-Mandil, concelho de Olhão. Esta iniciativa, a par de tantas outras, marcada pela brutal intervenção da polícia fascista, foi uma consequência da criação, um ano antes, 1946, do Movimento de Unidade Democrática Juvenil (MUD Juvenil), que rapidamente se expandiu por todo o País, através de comissões criadas por rapazes e raparigas representantes dos sectores mais combativos da juventude portuguesa.

Os jovens comunistas assumiram um papel de vanguarda

O papel do MUD Juvenil na mobilização e organização da juventude para a resistência ao fascismo e no quadro do longo historial da unidade antifascista, foi de tal modo marcante que a sua importância e experiências se mantém como factos históricos de grande actualidade, apesar de se terem passado 60 anos desde a sua criação.
Ao fim de poucos meses de actividade, o MUD Juvenil conta com 20 mil aderentes e desenvolve uma actividade intensa. Algumas das acções concretizadas pelo movimento adquirem repercussão nacional, designadamente a Semana da Juventude (de 21 a 28 de Março de 1947), a sessão realizada na Voz do Operário e, ainda, em 1947, o Festival da Juventude de Bela-Mandil, no Algarve.
«De toda a parte do Algarve deslocaram-se, em grande número, jovens munidos de instrumentos musicais, com programas que constavam de canções, recitais, danças e palestras, a fim de darem o máximo de brilhantismo a esta jornada de alegria e confiança. O intuito destes jovens – se bem que na sua maioria fossem democratas – não era o de promover uma manifestação política, mas sim propagar os ideias que qualquer juventude, que quer ser digna do seu nome, não pode deixar de perfilhar: cultura, alegria e amizade», lê-se no suplemento ao boletim n.º3 da Comissão Distrital de Faro do MUD Juvenil, publicado na altura.
Estes jovens, continua o documento, não pretendiam fazer qualquer desfile pelas ruas de Olhão, nem era seu intento provocar a atenção das autoridades. Para isso, isolaram-se numa mata, onde pretendiam realizar o seu programa, «com as armas da paz, que são a alegria, a unidade e a consciência, a lançar as bases a favor do campismo e do ar livre».
Quando se dava início à leitura de uma mensagem, os jovens foram surpreendidos por uma brigada da PSP que os intimou a retirarem-se. Perante esta atitude, os delegados concelhios do MUD Juvenil decidiram submeter-se às exigências da autoridade, acordando, contudo, em que se fizesse um protesto, pelas vias legais a quem de direito.
Mais adiante, quando todos se preparavam para sair, surgiu o comandante da polícia de Faro, acompanhado do chefe de posto e por mais alguns praças, bem como alguns elementos da polícia política, enquanto os jovens eram cercados pelas forças da GNR. Os jovens, em sinal de protesto, cantaram o Hino Nacional, acto que também foi proibido.
Havia apenas uma estrada que poderia conduzir os jovens à estação de comboios de Olhão. Quando atravessavam a vila, policiados como criminosos, a GNR, numa manobra táctica, divide-os em dois grupos. O grupo da frente, verificando que estava a ser separado, quando se tentou juntar, foi atacado, primeiro à coronhada depois à baioneta. Sendo infrutíferos tais processos de repressão, a GNR disparou sobre as cabeças dos manifestantes tiros de espingarda e rajadas de metralhadora.
«E foi assim que terminou esta gloriosa jornada da juventude, que se viu obrigada pelas circunstâncias a dar uma projecção admirável e estupenda da sua resistência e da sua unidade indestrutível», relata o boletim do MUD Juvenil, sublinhando, ainda, que esta jornada «ficará como um padrão na memória de todos os algarvios».

Um passo para a liberdade

Até 1957, ano da sua extinção, o MUD Juvenil une e mobiliza os sectores mais combativos e conscientes da juventude portuguesa. Nele, os jovens comunistas assumiram um papel de vanguarda.
A juventude portuguesa com a sua luta generosa e abnegada, deu um contributo inestimável para a conquista da liberdade do povo português. Na longa lista das vítimas do fascismo, muitos foram os jovens que passaram pelas cadeias, onde foram torturados e assassinados
.

– PMR de Almeida (22 anos, estudante de Direito de Lisboa), sete dias e sete noites sem dormir e dois (leia-se quatro) meses de segredo;
– Dinis Fernandes Miranda (25 anos, trabalhador rural, Montoito), selvaticamente espancado três dias e três noites e com grande período de incomunicabilidade e segredo;
– José Augusto Baptista Seabra (18 anos, estudante de Direito, Coimbra), agredido violentamente à bofetada, a pontapé, a cavalo-marinho e 11 dias e 11 noites sem dormir;
– Henrique Verdial (18 anos, estudante liceal, Porto), violentamente agredido com boxe metálico, chegando a desmaiar;
– Albino da Silva (21 anos, electricista, Matosinhos), espancado a pontapé e a murro e mantido em pé e sem dormir cinco dias e cinco noites;
– David Cunha (27 anos, saqueiro, do Movimento da Paz, no Porto), agredido a murros, pontapés e cavalo-marinho e mantido em pé e sem dormir quatro dias e quatro noites;
– Artur Almeida (30 anos, ajudante de motorista, V. N. de Gaia), espancado a murro e a pontapé e mantido em estátua vários dias;
– Vítor Alegria Lobo, agredido à bofetada pelo próprio sub-director da PIDE, do Porto, Tenente Coelho Dias, e três noites e três dias sem dormir, além de longos períodos no segredo e incomunicabilidade;
– Humberto Morais Lima (27 anos, engenheiro, Porto), sete dias e sete noites sem dormir;
– Luís Fonseca de Carvalho (21 anos, estudante de Medicina, Porto), cinco dias e cinco noites de pé e sem dormir;
– Álvaro Teixeira Lopes (22 anos, estudante de Medicina, Porto), tortura da estátua e do sono de alguns dias;
– António Emílio Teixeira Lopes (23 anos, estudante de Arquitectura), apesar de sofrer de uma doença pulmonar foi obrigado a permanecer de pé e sem dormir 60 horas;
– Raúl J. H. Ferreira (24 anos, estudante de Arquitectura), foi agredido a murro e mantido de pé e sem dormir cinco dias e cinco noites;
– Rui de Oliveira (22 anos, estudante de Engenharia, em Lisboa e Porto);
– Luís Fidalgo (19 anos, estudante liceal, Porto), espancado a murro, pontapé e bofetada;
– Fernando Miguel Bernardes (21 anos, estudante de Coimbra, empregado comercial), nove dias e nove noites sem dormir, tendo no seu curso feito a greve da fome;
– Júlio Rebelo (22 anos, empregado comercial, Movimento da Paz, Porto), foi agredido à bofetada;
– Fernando Fernandes (26 anos, empregado comercial), foi mantido sem dormir durante três dias e três noites;
– Francisco Delgado (18 anos, estudante liceal, Porto), de pé, sem dormir, dois dias e duas noites;
– João Carlos Teixeira Lopes (18 anos, estudante liceal, Porto), obrigado a fazer estátua durante 24 horas;
– Alfredo Calheiros (21 anos, estudante de Medicina), foram-lhe feitas muitas promessas e ameaças e foi transferido para o Forte de Caxias;
– Maria Manuela Macário (22 anos, estudante de Engenharia, Porto), esteve encarcerada durante longo tempo num quarto com apenas 4m2 de superfície, no meio de duas retretes, sem luz e com mau cheiro;
– Manuel Canijo (25 anos, estudante do 5.º ano de Medicina, Porto), esteve durante longo tempo isolado;
– Maria Luísa Marvão (22 anos, doméstica), quatro meses isolada, longos interrogatórios nocturnos, castigada de incomunicabilidade por reclamar contra os maus-tratos infligidos a seu irmão
– Hermínio Marvão (25 anos, estudante da Faculdade de Economia, do Porto), obrigado a estar de pé e sem dormir durante 56 horas, seguidas de mais 60 horas sentado no chão e sem dormir, sendo, aliás, um doente pulmonar, estando ainda internado numa ala subterrânea durante quatro meses;
– Hernâni Silva (28 anos, empregado de escritório, Porto), esbofeteado pelo chefe de brigada Pinto Soares, e que em Caxias e no Porto foi conhecendo, durante semanas e semanas, sucessivos segredos;
– Silas Coutinho Cerqueira (25 anos, do Movimento da Paz), esteve sempre em incomunicabilidade em consequência dos castigos que lhe foram aplicados;
– Antónia Lapa (27 anos, da Faculdade de Medicina de Lisboa, que em 1951 já tinha sido presa como membro da Direcção Universitária de Lisboa, do MUD Juvenil), durante o tempo que esteve presa no Porto, teve a janela pregada, e porque reclamasse contra isso foi castigada, e enquanto esteve em Caxias nunca a deixaram escrever a seu marido (S. Cerqueira).


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