Pressões contra abaixo-assinado
Os estudantes do Instituto Superior de Psicologia Aplicada (ISPA), em Lisboa, estão descontentes com a situação na escola e lamentam as pressões por parte da direcção.
«Não houve um momento em que o director abordasse os problemas levantados»
Tudo começou quando, a 17 de Outubro do ano passado, os alunos, reunidos em Assembleia-Geral, decidiram que a Associação de Estudantes deveria fazer um levantamento dos problemas existentes na escola junto dos delegados de turma e que estes seriam apresentados à direcção do ISPA através de um abaixo-assinado.
Menos de um mês depois, realizou-se outra Assembleia-Geral, onde os estudantes decidem participar no dia Nacional de Luta do Ensino Superior, marcado para 15 de Novembro.
Nesse dia, cerca de 30 estudantes juntaram-se numa marcha à volta do ISPA, batendo os pés no chão de forma a chamar a atenção. No final, foi entregue o abaixo-assinado à direcção.
«A resposta da direcção foi convocar uma reunião geral de alunos, em que o director tentou envergonhar e descridibilizar por completo a Associação de Estudantes», recorda João (nome fictício).
Numa intervenção que durou duas horas e meia, o director avisou que não ia ouvir ninguém e que estava ali apenas a dizer o que ele pensava. Afirmou que o abaixo-assinado era ridículo e procurou dar a entender que a Associação de Estudantes tinha acrescentado texto ao documento depois de este ter sido subscrito pelos alunos.
«Juntou uma carta anónima que lhe chegou, dizendo que tinha sido escrita pela Associação de Estudantes, procurando descredibilizá-la completamente. Salientou ainda que não iria receber a AE porque não a reconhecia. Ao mesmo tempo dizia que o ISPA era muito democrático e que não admitia discursos sobre democracia, que alguns dos professores tinham inclusive sido dirigentes associativos quando estudavam. Também criticava o facto de o abaixo-assinado ser dirigido ao Ministério do Ensino Superior, porque assim os estudantes estavam a estragar a reputação do ISPA», lembra João.
«Em toda a reunião, não houve um momento em que o director pegasse no texto do abaixo-assinado e abordasse os vários problemas levantados, dando o seu ponto de vista concreto sobre cada questão. Não houve uma análise ao abaixo-assinado, apenas crítica geral e nada construtiva», comenta.
Por seu lado, a presidente do Conselho Científico afirmou que não admitia discutir o Processo de Bolonha com os estudantes. No final, alguns estudantes dirigiram-se ao director para pedir desculpa por terem subscrito o abaixo-assinado
Nas salas de aula
O clima que então se gerou na instituição foi transposto para as aulas, registando-se vários tipos de pressões. «Há professores a provocar, a perguntar se os alunos sabiam que um jornal partidário tinha publicado uma notícia sobre o protesto. Outros insistem em dizer que não tínhamos razão para subscrever o abaixo-assinado», refere João, que condena as pressões e defende que «só com diálogo e discussão é que é possível transformar a escola em algo melhor».
João diz que não se deve fazer generalizações, lembrando que já antes do abaixo-assinado havia professores que incentivavam os estudantes a contestar a aplicação do Processo de Bolonha no ISPA, nomeadamente as incertezas em relação às diferenças de graus, à entrada no mercado de trabalho e ao facto de os alunos do quinto ano não saírem como mestres no final do ano lectivo, ao contrário dos estudantes da Universidade de Coimbra.
«Havia uma união muito grande entre os estudantes, mas depois as coisas tornaram-se muito mais difíceis, com o director a dizer, num tom ameaçador e autoritário, que não podemos entregar abaixo-assinados e protestos. As pessoas começam a pensar se não é melhor para si manter-se calado e não dar nas vistas», comenta João.
O que dizia o abaixo-assinado
O abaixo-assinado promovido pela Associação de Estudantes considerava que o estado actual do ensino superior em Portugal é fruto da adopção de «medidas de carácter economicistas e elitistas, que visam unicamente o lucro em detrimento de um ensino de excelência, deixando à margem do direito à educação muitos estudantes».
O documento apontava vários problemas concretos do ensino superior particular e cooperativo, nomeadamente a ausência de discussão com os estudantes das alterações no sistema (como a introdução do Processo de Bolonha), o desprezo pelos trabalhadores estudantes, o progressivo desinvestimento em materiais pedagógicos disponíveis, e a diminuição global na qualidade dos serviços.
Entre outras medidas, o abaixo-assinado exigia «uma verdadeira discussão com os estudantes» sobre o Processo de Bolonha e a sua implementação e a avaliação justa às disciplinas, «que não se declarem como “experiências” de um processo que todos mal conhecem»; um número maior de exemplares de livros na biblioteca que corresponda a necessidade de consulta e requisição dos estudantes; mais e melhores computadores, num espaço físico maior, que permitam a realização de trabalhos individuais ou em grupo; a criação de uma sala de estudo; a redução dos preços do refeitório e do bar; o aumento da qualidade e variedade nas ementas; e o respeito pela situação dos trabalhadores-estudantes. O documento pedia ainda «que a actualização desta propina não subjugue os alunos aos interesses financeiros e administrativos da instituição».
Menos de um mês depois, realizou-se outra Assembleia-Geral, onde os estudantes decidem participar no dia Nacional de Luta do Ensino Superior, marcado para 15 de Novembro.
Nesse dia, cerca de 30 estudantes juntaram-se numa marcha à volta do ISPA, batendo os pés no chão de forma a chamar a atenção. No final, foi entregue o abaixo-assinado à direcção.
«A resposta da direcção foi convocar uma reunião geral de alunos, em que o director tentou envergonhar e descridibilizar por completo a Associação de Estudantes», recorda João (nome fictício).
Numa intervenção que durou duas horas e meia, o director avisou que não ia ouvir ninguém e que estava ali apenas a dizer o que ele pensava. Afirmou que o abaixo-assinado era ridículo e procurou dar a entender que a Associação de Estudantes tinha acrescentado texto ao documento depois de este ter sido subscrito pelos alunos.
«Juntou uma carta anónima que lhe chegou, dizendo que tinha sido escrita pela Associação de Estudantes, procurando descredibilizá-la completamente. Salientou ainda que não iria receber a AE porque não a reconhecia. Ao mesmo tempo dizia que o ISPA era muito democrático e que não admitia discursos sobre democracia, que alguns dos professores tinham inclusive sido dirigentes associativos quando estudavam. Também criticava o facto de o abaixo-assinado ser dirigido ao Ministério do Ensino Superior, porque assim os estudantes estavam a estragar a reputação do ISPA», lembra João.
«Em toda a reunião, não houve um momento em que o director pegasse no texto do abaixo-assinado e abordasse os vários problemas levantados, dando o seu ponto de vista concreto sobre cada questão. Não houve uma análise ao abaixo-assinado, apenas crítica geral e nada construtiva», comenta.
Por seu lado, a presidente do Conselho Científico afirmou que não admitia discutir o Processo de Bolonha com os estudantes. No final, alguns estudantes dirigiram-se ao director para pedir desculpa por terem subscrito o abaixo-assinado
Nas salas de aula
O clima que então se gerou na instituição foi transposto para as aulas, registando-se vários tipos de pressões. «Há professores a provocar, a perguntar se os alunos sabiam que um jornal partidário tinha publicado uma notícia sobre o protesto. Outros insistem em dizer que não tínhamos razão para subscrever o abaixo-assinado», refere João, que condena as pressões e defende que «só com diálogo e discussão é que é possível transformar a escola em algo melhor».
João diz que não se deve fazer generalizações, lembrando que já antes do abaixo-assinado havia professores que incentivavam os estudantes a contestar a aplicação do Processo de Bolonha no ISPA, nomeadamente as incertezas em relação às diferenças de graus, à entrada no mercado de trabalho e ao facto de os alunos do quinto ano não saírem como mestres no final do ano lectivo, ao contrário dos estudantes da Universidade de Coimbra.
«Havia uma união muito grande entre os estudantes, mas depois as coisas tornaram-se muito mais difíceis, com o director a dizer, num tom ameaçador e autoritário, que não podemos entregar abaixo-assinados e protestos. As pessoas começam a pensar se não é melhor para si manter-se calado e não dar nas vistas», comenta João.
O que dizia o abaixo-assinado
O abaixo-assinado promovido pela Associação de Estudantes considerava que o estado actual do ensino superior em Portugal é fruto da adopção de «medidas de carácter economicistas e elitistas, que visam unicamente o lucro em detrimento de um ensino de excelência, deixando à margem do direito à educação muitos estudantes».
O documento apontava vários problemas concretos do ensino superior particular e cooperativo, nomeadamente a ausência de discussão com os estudantes das alterações no sistema (como a introdução do Processo de Bolonha), o desprezo pelos trabalhadores estudantes, o progressivo desinvestimento em materiais pedagógicos disponíveis, e a diminuição global na qualidade dos serviços.
Entre outras medidas, o abaixo-assinado exigia «uma verdadeira discussão com os estudantes» sobre o Processo de Bolonha e a sua implementação e a avaliação justa às disciplinas, «que não se declarem como “experiências” de um processo que todos mal conhecem»; um número maior de exemplares de livros na biblioteca que corresponda a necessidade de consulta e requisição dos estudantes; mais e melhores computadores, num espaço físico maior, que permitam a realização de trabalhos individuais ou em grupo; a criação de uma sala de estudo; a redução dos preços do refeitório e do bar; o aumento da qualidade e variedade nas ementas; e o respeito pela situação dos trabalhadores-estudantes. O documento pedia ainda «que a actualização desta propina não subjugue os alunos aos interesses financeiros e administrativos da instituição».