Chávez 2, Bush 0
George W. Bush esteve em périplo por alguns países da América Latina com dois objectivos em mente: manter o continente dividido e sob o controlo imperialista.
O presidente da Venezuela, Hugo Chávez, também se deslocou à região, mas os seus objectivos foram exactamente opostos: unir os países da América Latina, encorajar e apoiar a independência do subcontinente face ao imperialismo.
No passado dia 9 de Março, ambos os presidentes estiveram em margens diferentes do rio que separa a Argentina do Uruguai. Acabado de chegar ao Uruguai, Bush foi transportado numa caravana de limusinas blindadas por entre os fortes protestos que se levantaram com a visita. Chávez, depois de assinar um acordo de cooperação energética com o presidente argentino, Nestor Kirchner, falou a uma multidão de 40 mil pessoas reunidas no estádio de futebol Cancha de Ferro, em Buenos Aires.
Vitória incontestável
Com o fim do dia de trabalho, os habitantes de Buenos Aires e os trabalhadores dos subúrbios da capital Argentina começaram a dirigir-se para o estádio. Chegavam em carros alugados, em transportes públicos ou a pé. Representavam uma dúzia de partidos, movimentos e organizações de esquerda, das «Mães da Praça de Maio», a sindicatos e estruturas comunitárias nas quais se revêem a maioria dos anti-imperialistas argentinos. Com eles, imigrantes paraguaios, uruguaios, chilenos e pelo menos dois anti-imperialistas vindos dos EUA.
Mesmo nos apartamentos junto do estádio – maioritariamente ocupados por famílias da classe média – as pessoas vieram à janela empunhando bandeiras da argentina em sinal de apoio a Chávez contra Bush.
Por volta das oito da noite, Chávez começou a falar tornando óbvio que estava com o povo e que este estava com ele. Cada frase foi saudada, fossem referências a Fidel Castro, Cuba, Che Guevara ou a qualquer dos heróis da luta contra o colonialismo, de Simón Bolívar ao argentino San Martin.
Mas nada mereceu mais manifestações populares do que os comentários irónicos sobre o presidente norte-americano. «Ele já não cheira a enxofre» – disse Chávez aludindo à classificação de Bush como «o diabo», feita por si na Assembleia das Nações Unidas, «mas mantém o cheiro de um cometa político que brevemente desaparecerá entre a poeira cósmica», continuou.
Quer o presidente venezuelano, quer os presentes no estádio estão bem conscientes da posição enfraquecida de Bush e da quebra imparável do nível de popularidade do titular da Casa Branca. Sondagens recentes feitas nos EUA indicam que Bush merece uma aprovação inferior a 30 por cento.
Chávez denunciou claramente a falência de Bush no que toca ao auxílio às vítimas do furacão Katrina e no que à política de saúde diz respeito, deixando milhões de pessoas desprotegidas. «Se realmente quer promover a justiça social, tem de começar a fazer algo nesse sentido em vez de deixar tudo pelas falsas intenções», instou Chávez.
«Bush deve ainda ordenar a retirada das tropas do Iraque e usar as vastas somas de dinheiro gastas na guerra canalizando-as para o combate à fome e à doença que grassam pelo mundo. Fora dos EUA, a popularidade de Bush não seria de 30 por cento, seria provavelmente negativa», acrescentou Chávez arrancando gargalhadas e aplausos dos participantes.
Unidos pela liberdade
Alguém se lembrou, desprevenidamente, de escrever no discurso de Bush uma referência a Simón Bolívar. Ele cometeu o erro de proclamar que tal como os homólogos sul-americanos, também era «filho de Bolívar e George Washington».
Na sua intervenção, Chávez conteve-se ao dizer que Bush era mesmo era «filho da…», mas os manifestantes não se ficaram pelas meias palavras. Seguidamente, o presidente venezuelano esclareceu que muito separa o esclavagista George Washington, que fundou os EUA e a consigna da dominação continental, do libertador sul-americano.
Mas mais que uma lição de história, a mensagem de Chávez foi no sentido da união dos povos latino-americanos porque esta «é absolutamente fundamental para a sua libertação». Quando Chávez afirmou categoricamente que a luta pela libertação no século XXI é a luta pelo socialismo, também deixou claro que tal processo tem de incluir líderes como Kirchner, os quais não tendo expresso o objectivo de alcançar o socialismo, combatem a favor de alguma independência política e económica face ao colosso do Norte.
Na vanguarda estão Cuba, Venezuela, Bolívia, Equador e em certas matérias são acompanhados pela Argentina e Brasil. Lula da Silva assinou um acordo com Bush para o desenvolvimento de combustível baseado no etanol, mas recusou a pretensão do norte-americano em fazer do país uma plataforma militar e económica contra governos que Washington considera seus inimigos.
À região, Bush trouxe pouco mais que um engodo. A assistência médica proporcionada por quadros da marinha norte-americana, as bolsas de estudo nos EUA, os programas de aprendizagem de inglês e a construção de habitação são muito pouco sobretudo se considerarmos que tudo isto já os cubanos e venezuelanos oferecem com maior alcance e qualidade há vários anos.
Em todos os países por onde passou, Bush mobilizou milhões de pessoas em protesto. Se as massas perseguem um líder mundial acusando-o legitimamente de crimes de guerra, é bom que ele seja poderoso e generoso caso pretenda desfazer tal imagem e ganhar pontos, facto que não se passou com Bush, personalidade fraca que regressou a casa denegrido e de mãos vazias, averbando uma derrota de 2 a 0 para Chávez.
O presidente da Venezuela, Hugo Chávez, também se deslocou à região, mas os seus objectivos foram exactamente opostos: unir os países da América Latina, encorajar e apoiar a independência do subcontinente face ao imperialismo.
No passado dia 9 de Março, ambos os presidentes estiveram em margens diferentes do rio que separa a Argentina do Uruguai. Acabado de chegar ao Uruguai, Bush foi transportado numa caravana de limusinas blindadas por entre os fortes protestos que se levantaram com a visita. Chávez, depois de assinar um acordo de cooperação energética com o presidente argentino, Nestor Kirchner, falou a uma multidão de 40 mil pessoas reunidas no estádio de futebol Cancha de Ferro, em Buenos Aires.
Vitória incontestável
Com o fim do dia de trabalho, os habitantes de Buenos Aires e os trabalhadores dos subúrbios da capital Argentina começaram a dirigir-se para o estádio. Chegavam em carros alugados, em transportes públicos ou a pé. Representavam uma dúzia de partidos, movimentos e organizações de esquerda, das «Mães da Praça de Maio», a sindicatos e estruturas comunitárias nas quais se revêem a maioria dos anti-imperialistas argentinos. Com eles, imigrantes paraguaios, uruguaios, chilenos e pelo menos dois anti-imperialistas vindos dos EUA.
Mesmo nos apartamentos junto do estádio – maioritariamente ocupados por famílias da classe média – as pessoas vieram à janela empunhando bandeiras da argentina em sinal de apoio a Chávez contra Bush.
Por volta das oito da noite, Chávez começou a falar tornando óbvio que estava com o povo e que este estava com ele. Cada frase foi saudada, fossem referências a Fidel Castro, Cuba, Che Guevara ou a qualquer dos heróis da luta contra o colonialismo, de Simón Bolívar ao argentino San Martin.
Mas nada mereceu mais manifestações populares do que os comentários irónicos sobre o presidente norte-americano. «Ele já não cheira a enxofre» – disse Chávez aludindo à classificação de Bush como «o diabo», feita por si na Assembleia das Nações Unidas, «mas mantém o cheiro de um cometa político que brevemente desaparecerá entre a poeira cósmica», continuou.
Quer o presidente venezuelano, quer os presentes no estádio estão bem conscientes da posição enfraquecida de Bush e da quebra imparável do nível de popularidade do titular da Casa Branca. Sondagens recentes feitas nos EUA indicam que Bush merece uma aprovação inferior a 30 por cento.
Chávez denunciou claramente a falência de Bush no que toca ao auxílio às vítimas do furacão Katrina e no que à política de saúde diz respeito, deixando milhões de pessoas desprotegidas. «Se realmente quer promover a justiça social, tem de começar a fazer algo nesse sentido em vez de deixar tudo pelas falsas intenções», instou Chávez.
«Bush deve ainda ordenar a retirada das tropas do Iraque e usar as vastas somas de dinheiro gastas na guerra canalizando-as para o combate à fome e à doença que grassam pelo mundo. Fora dos EUA, a popularidade de Bush não seria de 30 por cento, seria provavelmente negativa», acrescentou Chávez arrancando gargalhadas e aplausos dos participantes.
Unidos pela liberdade
Alguém se lembrou, desprevenidamente, de escrever no discurso de Bush uma referência a Simón Bolívar. Ele cometeu o erro de proclamar que tal como os homólogos sul-americanos, também era «filho de Bolívar e George Washington».
Na sua intervenção, Chávez conteve-se ao dizer que Bush era mesmo era «filho da…», mas os manifestantes não se ficaram pelas meias palavras. Seguidamente, o presidente venezuelano esclareceu que muito separa o esclavagista George Washington, que fundou os EUA e a consigna da dominação continental, do libertador sul-americano.
Mas mais que uma lição de história, a mensagem de Chávez foi no sentido da união dos povos latino-americanos porque esta «é absolutamente fundamental para a sua libertação». Quando Chávez afirmou categoricamente que a luta pela libertação no século XXI é a luta pelo socialismo, também deixou claro que tal processo tem de incluir líderes como Kirchner, os quais não tendo expresso o objectivo de alcançar o socialismo, combatem a favor de alguma independência política e económica face ao colosso do Norte.
Na vanguarda estão Cuba, Venezuela, Bolívia, Equador e em certas matérias são acompanhados pela Argentina e Brasil. Lula da Silva assinou um acordo com Bush para o desenvolvimento de combustível baseado no etanol, mas recusou a pretensão do norte-americano em fazer do país uma plataforma militar e económica contra governos que Washington considera seus inimigos.
À região, Bush trouxe pouco mais que um engodo. A assistência médica proporcionada por quadros da marinha norte-americana, as bolsas de estudo nos EUA, os programas de aprendizagem de inglês e a construção de habitação são muito pouco sobretudo se considerarmos que tudo isto já os cubanos e venezuelanos oferecem com maior alcance e qualidade há vários anos.
Em todos os países por onde passou, Bush mobilizou milhões de pessoas em protesto. Se as massas perseguem um líder mundial acusando-o legitimamente de crimes de guerra, é bom que ele seja poderoso e generoso caso pretenda desfazer tal imagem e ganhar pontos, facto que não se passou com Bush, personalidade fraca que regressou a casa denegrido e de mãos vazias, averbando uma derrota de 2 a 0 para Chávez.