Bento Gonçalves

Um exemplo a seguir

Apesar do mau tempo que se fez sentir, mais de meia centena de militantes e amigos do PCP deslocaram-se no domingo passado a Fiães do Rio, Montalegre, para participar na comemoração do 105.º aniversário do nascimento de Bento Gonçalves, promovida pela Direcção da Organização Regional de Vila Real do PCP.

A homenagem a Bento Gonçalves esteve voltada para o futuro

Na iniciativa, que decorreu junto ao monumento erigido ao antigo dirigente comunista – «A liberdade passou por aqui» – interveio Albano Nunes, membro do Secretariado e da Comissão Política daquele Partido, podendo ver-se entre os presentes também Joaquim Macedo Alves, presidente da Junta de Freguesia de Fiães do Rio, e Fernando Rodrigues, presidente da Câmara Municipal de Montalegre.
Foi com viva emoção que os comunistas evocaram «um dos mais ilustres filhos» de Fiães do Rio, seguramente o que «maior contributo deu, com o sacrifício da própria vida, para a libertação do povo português da ditadura fascista», nas palavras de Albano Nunes.
Mas não foi apenas a memória de Bento Gonçalves, cuja vida «se inscreve em letras de ouro na história do movimento operário português e de Portugal», que os comunistas quiseram evocar e honrar. Foi também objectivo seu garantir que «são possíveis políticas de esquerda», que «há alternativa» às políticas de direita dos partidos «instalados» na região (PS e PSD), de ofensiva contra os direitos dos trabalhadores, de ataque a direitos básicos, de abandono e desertificação do mundo rural. Mas isso, lembra Albano Nunes, só será possível trilhando «o caminho da luta que Bento Gonçalves trilhou» e dando mais força ao partido a que dedicou toda a sua inteligência, energia e generosidade, o PCP.
Albano Nunes evocou ainda o patriotismo e internacionalismo de Bento Gonçalves, em cuja consciência de classe, opção política e formação comunista – geradas essencialmente «no contacto directo com a realidade portuguesa, na dinâmica da luta do movimento operário português, no grande alfobre de quadros que foi o Arsenal da Marinha» – pesou também a Revolução de Outubro e «o impacto internacional das suas extraordinárias realizações», como, de resto, na fundação e consolidação dos partidos comunistas de todo o mundo.
É «oportuno» recordar esta realidade, diz Albano Nunes, sobretudo quando depois do desaparecimento da URSS se pretende pôr em causa não apenas o ideal e o projecto dos comunistas mas também a Revolução de Outubro, as grandes realizações e conquistas do povo soviético na construção de uma nova sociedade, o papel determinante da URSS na luta pelo progresso, a liberdade e a paz. É que do mesmo modo que a existência da URSS «estimulou os grandes avanços libertadores do século XX e a derrota do nazi-fascismo», de igual modo «o desaparecimento do factor de contenção da agressividade do imperialismo» que este país representava está a traduzir-se por «uma violenta ofensiva de exploração, agressão e guerra, como no Iraque, na Palestina e noutros pontos do mundo».

É possível resistir

Mas a História «ensina que resistir e lutar vale sempre a pena» e também nisso a vida de Bento Gonçalves «encerra valiosos ensinamentos»: «nem a consolidação fascista em Portugal nem a terrível avançada nazi em território soviético que se verificava nos últimos dias da sua vida, abalaram as suas convicções, a sua determinação revolucionária e a sua confiança na vitória». Que chegou com a derrota do nazi-fascismo e a revolução do 25 de Abril «para a qual Bento, como obreiro do PCP, deu uma inesquecível contribuição».
Entretanto, o acto de homenagem a Bento Gonçalves, que necessariamente evocou o «passado heróico» do PCP, esteve sobretudo voltado «para o presente e para o futuro da luta dos comunistas portugueses, e da luta dos comunistas e do povo desta região transmontana onde é necessário e é possível ampliar a influência do PCP, dos seus valores, dos seus ideais, do seu programa de progresso social e de transformação revolucionária da sociedade». «Não é tarefa fácil», diz Albano Nunes, mas as forças «interessadas em manter o estado de coisas existente», ou mesmo em «fazer regredir» valores, direitos e conquistas, não têm solução «para as gritantes injustiças e desigualdades que as políticas de direita necessariamente geram» e que urge combater. Foi para isso que nasceu o PCP e a isso dedicou Bento Gonçalves a sua vida.

Aniversário do PCP

A DORVIR associou à comemoração do 105.º aniversário do nascimento de Bento Gonçalves a comemoração dos 86 anos de vida do PCP com um almoço em que participou Agostinho Lopes, membro da Comissão Política do PCP, que interveio sobre ambas as efemérides.


Perfil de um revolucionário

«Chamo-me Bento António Gonçalves, nascido em 2 de Março de 1902, sou natural de Trás-os-Montes, filho de Francisco Gonçalves, camponês, e de Germana Alves (falecida). Comecei a trabalhar aos 13 anos de idade, após conclusão da minha instrução primária, como torneiro de madeira. Aos 16 anos de idade mudei para torneiro mecânico, profissão que ainda conservo. Desde 1919 até Agosto de 1933 trabalhei no Arsenal da Marinha como operário do quadro (oficinas de máquinas). Frequentei a Escola Industrial Afonso Domingues (Xabregas – Lisboa) e tenho o curso elementar de pilotagem (...) Sou dirigente do Partido Comunista Português desde Abril de 1929 e assumo inteira responsabilidade por toda a actividade política do meu Partido».
Esta, uma pequena citação da sua Contestação ao Tribunal Militar Especial e que, escrita na Fortaleza de Angra em 1936, revela, segundo Albano Nunes, «o rico perfil humano e político» de Bento Gonçalves, que veria a sua vida interrompida seis anos mais tarde – 11 de Setembro de 1942 –, no Campo de concentração do Tarrafal.
A sua adesão ao PCP, ocorrendo num período de grandes dificuldades, coloca-o de imediato na primeira linha das responsabilidades de Direcção. Eleito secretário-geral em 1929, lança-se na reorganização do Partido, alargando as suas fileiras, enraizando-o nas empresas e locais de trabalho, fundando o «Avante!», impulsionando um sindicalismo de classe, preparando uma fortíssima organização de marinheiros revolucionários.
Perseguido pelo fascismo, deixa o trabalho profissional e mergulha na clandestinidade, acabando por passar a maior parte da sua vida de militante e dirigente do PCP nas masmorras fascistas de S. Julião da Barra, Aljube, Fortaleza de São João Baptista na Ilha de Angra e Tarrafal, a partir de onde pôde ajudar à implementação de importantes decisões.
Mesmo assim, lembra Albano Nunes, o camarada Bento Gonçalves «teve o mérito histórico de conduzir o amadurecimento marxista-leninista do PCP, libertando-o das nefastas influências anarquistas e também reformistas, que travavam o seu crescimento e afirmação revolucionária. Através do seu intransigente combate ao “reviralhismo” e ao “anarco-sindicalismo” que detinham a hegemonia política e ideológica do movimento sindical e influenciavam numerosas organizações do Partido».
De facto, com Bento Gonçalves o PCP «torna-se uma força organizada e disciplinada, vira-se decididamente para a classe operária, liberta-se do doutrinarismo que fechava ao Partido o caminho das massas, declara guerra ao individualismo e à acção directa individual e coloca a luta de massas no coração da estratégia do PCP». Assim, enquanto «o anarquismo soçobrava» e um «decrépito PS se auto-dissolvia e colaborava na elaboração da Carta do Trabalho fascista», o PCP resistia à violência fascista. «Resistia, combatia, crescia, aprendia com a própria experiência e a experiência do movimento comunista internacional», tornando-se definitivamente na vanguarda do proletariado português, numa grande força política nacional e, indiscutivelmente na grande força da resistência ao fascismo e da revolução de Abril». Um «honroso papel», diz Albano Nunes, de que o PCP «jamais abdicará», por muito que se procure branquear o fascismo, reescrever a História, «diminuir ou mesmo subverter o insubstituível papel dos comunistas na luta libertadora do povo português».
Enfim, «o mundo mudou muito nestes 105 anos que nos separam da data de nascimento de Bento Gonçalves», mas ficam «a sua obra e o exemplo inspirador da sua vida».


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