Nova pista de atletismo de Lisboa

Francisco Silva
Foi recentemente inaugurada em Lisboa uma pista de atletismo ao ar livre, à qual foi dado o nome de «Professor Mário Moniz Pereira». Uma designação justa, e justa não apenas porque faz justiça ao homenageado, por este sem dúvida o merecer; mas uma designação justa sobretudo no sentido em que ela poderá efectivamente constituir um incentivo adicional à prática desportiva pelo exemplo, até de grande eficácia mediática, que representa - e estou certo que, com esta minha afirmação, estará Mário Moniz Pereira de acordo, ele que sempre, e sem reticências, esteve pronto a prestar o serviço necessário, ele que esteve sempre a trabalhar, incluindo a dar a cara, para que as coisas, e em particular as do seu Atletismo, aconteçam no sentido do desenvolvimento da sua prática, no sentido progressivo.
O discurso sobre o homenageado que o Presidente da Câmara Municipal de Lisboa (CML), Carmona Rodrigues, proferiu na ocasião foi, no essencial, e na parte lida, correcto. Referiu, entre outras coisas, as alegrias que os atletas, e em particular os treinados por Mário Moniz Pereira, têm dado ao nosso País, não se esquecendo de mencionar que foi no pós 25 de Abril, quando o Professor Melo Carvalho foi nomeado para desempenhar as funções de Director Geral dos Desportos, que a preparação olímpica, e as condições de vida proporcionadas aos atletas, na ocasião para os Jogos Olímpicos de Montréal em 1976, por iniciativa de Melo de Carvalho, recebeu um decisivo impulso. Lembram-se? O futuro primeiro campeão olímpico português de todos os tempos, naquela inolvidável Maratona de Los Angeles em 1984, Carlos Lopes, viria a ganhar a medalha de prata dos 10 000 metros em 1976 (ganha pelo finlandês Lasse Viren, de quem se disse que tinha sofrido uma transfusão integral do seu sangue no âmbito da sua preparação olímpica). E nos Jogos de Montréal não foi apenas Carlos Lopes que se distinguiu: da minha memória, sem mais consultas e sem nenhuma busca adicional, ressalta logo o 4º lugar de José Carvalho nos 400 metros barreiras, uma façanha ainda não igualada nesta dificílima disciplina atlética.
Mas eis que Carmona Rodrigues, acabada a sua leitura, desata por aí fora a improvisar. Talvez, tendo notado o que tinha lido sobre o papel de Melo de Carvalho, o actual Presidente da Câmara de Lisboa - o tal técnico que não é político, ah! -, resolveu lembrar-nos que aquela pista de atletismo era a primeira a ser construída em Lisboa depois do 25 de Abril, insinuando, com este dar de cintura, que antigamente é que era bom para o Atletismo!
Ó sr. Presidente da CML, o facto nu e cru até poderá ser verdadeiro. No entanto, omitiu politiqueiramente que as pistas do Estado Universitário de Lisboa foram completamente remodeladas nos anos 90 para receberem o Campeonato do Mundo de Juniores - quando Francis Obikwelu, no ano em que completou o seu 17º aniversário, emigrou para Portugal; e digo «completamente» porque nomeadamente o sítio onde está a pista principal albergava antes uma pista de 500 metros e não de 400 metros. E também esqueceu a remodelação sofrida pela pista do Estádio do Belenenses ainda mais recentemente.
Mas esqueceu sobretudo que o pós 25 de Abril viu construir pistas de Atletismo um pouco por todo o País - vá ao concelho limítrofe de Sintra, a Queluz; vá a concelhos limítrofes da margem sul do Tejo e veja os resultados do pós 25 de Abril.
Esqueceu, além disso, que até há menos de uma década havia mais duas pistas de Atletismo - do Sporting e do Benfica -, ambas não longe do local onde se encontra a nova pista com o nome de Mário Moniz Pereira - sim, porque a do antigo Estádio Alvalade tinha o mesmo nome -, e ambas imoladas em honra do espectáculo do Futebol. Por isso, se não fosse Lisboa e arredores (Concelho de Oeiras) terem outros dois estádios - o do 1.º de Maio, com uma pista, e o Estádio Nacional, com duas pistas -, para além do belíssimo recinto do Estádios Universitário e do Restelo, a situação nestes últimos anos teria sido bem mais dramática numa zona onde o número de atletas é elevado, muitos de qualidade e alguns sendo mesmo dos melhores do mundo.
Ora, sr. Presidente da CML, pista coberta é que não há. Ou antes havia a então magnífica pista, onde Rui Silva foi Campeão do Mundo de 1500 metros, que se degradou num armazém durante uma meia dúzia de anos e foi recentemente instalada em Pombal. Esta é a vergonha de uma cidade na qual são desperdiçados os seus melhores recursos. Porque não nos fala também deste caso?


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