Brechas no muro do silêncio
Aqui há cerca de um mês, nada calava os bispos portugueses. Multiplicavam entrevistas e declarações públicas, por vezes com riscos para a imagem da própria igreja que representavam e com uma notável falta de bom senso. Falavam compulsivamente. O próprio cardeal-patriarca e outros sacerdotes e leigos assumiram atitudes claramente à margem do acatamento devido às leis do País. A hierarquia perdeu as estribeiras e embriagou-se com a sensação do seu próprio poder.
Os cálculos, afinal, saíram furados. Depois do referendo, viu-se o reverso da medalha. A Conferência Episcopal reuniu-se em Fátima mas produziu um documento final rotineiro e frouxo. Um ou outro elemento católico destacado tomou posição, nos jornais, sobre o resultado da consulta revelando haver internamente, análises muito diferentes e uma acentuada divisão apreciações finais.
Para os bispos, «governo e sociedade civil devem colaborar no sentido de acabarem com o aborto e tornarem a lei que agora se vai fazer uma lei inútil». Para o Opus Dei, segundo destacados dos seus membros, a Igreja sofreu «uma enorme derrota!». Cuidado, porém, ameaçam: «quando a Igreja perde, quase ninguém ganha. A Igreja está preparada para perder, mas Portugal perde mais quando ela perde. Muitos dos que votaram Sim no referendo viverão o suficiente para virem a lamentar a sua escolha».
É um pensamento de Inquisidor do Santo Ofício.
Já para o cardeal Saraiva Martins, Prefeito da Causa dos Santos, «a palavra derrota não é uma palavra que pertença ao dicionário da Igreja ... O Sim não teve uma vitória muito clara, com tantas abstenções ... Gostaria que o legislador tivesse em conta a maioria dessas abstenções ... Nenhum acontecimento, como é o referendo, pode desviar a Igreja dos seus princípios fundamentais».
A Igreja velha é a Igreja de sempre
Se o silêncio é de oiro, a verdade é como o azeite: vem sempre à tona de água. O muro de silêncio da Igreja, erguido à pressa em torno de maus resultados inesperados, tem muitas brechas. E talvez que a falha mais profunda, nestas reacções que vão aparecendo, seja chamar-se a atenção para o facto de que a igreja católica institucional é jesuítica quando ganha e arrogante quando perde. Em termos eclesiásticos profundos, não há igreja nova que nos valha. A igreja velha é a igreja de sempre. Uma igreja que se arrisca, porém, a tornar-se previsível.
Perante a vitória do Sim na despenalização limitada da prática da IVG, é evidente que a hierarquia católica não vai cruzar os braços face aos resultados negativos. Pelo contrário. A médio e a curto prazo utilizará todas as armas do seu arsenal para transformar em êxito aquilo que o sentido do voto expresso lhe roubou. Pouco lhe importa que dezenas de milhares de católicos tenham fugido à disciplina canónica, afirmado o primado da sua própria consciência e votado Sim.
Olhando as curvas e contracurvas do episcopado, ao longo da recente campanha, podemos agora antecipar aquilo que irá ser o seu próximo procedimento. Os bispos não irão prender-se a considerações éticas. Vale tudo, desde que a influência e o poder da igreja não cessem de aumentar.
É evidente que nos iremos proximamente confrontar com manobras de legalidade duvidosa, aliás já avançadas ao longo da campanha pelo Não.
Os mais altos responsáveis religiosos apelaram (ou sugeriram), nessa altura, o recurso à desobediência civil como estratégia, a objecção de consciência, a recusa do Governo ou da Assembleia da República terem capacidade legal para legislarem sobre um assunto que é do foro da moral cristã, a eventualidade de grupos hospitalares privados recusarem praticar a IVG, o apelo no mesmo sentido feito à classe médica, etc.. Ao fim e ao cabo, um conjunto de propostas que introduzisse uma oculta questão central: Portugal deve ser governado segundo princípios soberanos de base democrática ou, nas questões essenciais, a última palavra deve submeter-se à doutrina da igreja? Adivinha-se que, com mais um passo em frente, os portugueses poderiam vir a ser chamados a referendar um Estado democrático ou, em alternativa, um Estado teocrático e católico.
É preciso resistir e vigiar estas sombrias intenções. A igreja diz agora que para haver uma lei equilibrada de despenalização se exige que a mulher seja seguida e aconselhada na sua decisão de abortar. Que o aconselhamento deve ser dado por entidades públicas ou privadas. Que é obrigação do Estado permitir a criação de agências de aconselhamento certificadas e com capacidade para permitir ou recusar a intervenção clínica das dez semanas.
É evidente que por detrás destas propostas espreita a Sociedade Civil, com a extensa procissão das suas IPSS e entidades canónicas.
Os cálculos, afinal, saíram furados. Depois do referendo, viu-se o reverso da medalha. A Conferência Episcopal reuniu-se em Fátima mas produziu um documento final rotineiro e frouxo. Um ou outro elemento católico destacado tomou posição, nos jornais, sobre o resultado da consulta revelando haver internamente, análises muito diferentes e uma acentuada divisão apreciações finais.
Para os bispos, «governo e sociedade civil devem colaborar no sentido de acabarem com o aborto e tornarem a lei que agora se vai fazer uma lei inútil». Para o Opus Dei, segundo destacados dos seus membros, a Igreja sofreu «uma enorme derrota!». Cuidado, porém, ameaçam: «quando a Igreja perde, quase ninguém ganha. A Igreja está preparada para perder, mas Portugal perde mais quando ela perde. Muitos dos que votaram Sim no referendo viverão o suficiente para virem a lamentar a sua escolha».
É um pensamento de Inquisidor do Santo Ofício.
Já para o cardeal Saraiva Martins, Prefeito da Causa dos Santos, «a palavra derrota não é uma palavra que pertença ao dicionário da Igreja ... O Sim não teve uma vitória muito clara, com tantas abstenções ... Gostaria que o legislador tivesse em conta a maioria dessas abstenções ... Nenhum acontecimento, como é o referendo, pode desviar a Igreja dos seus princípios fundamentais».
A Igreja velha é a Igreja de sempre
Se o silêncio é de oiro, a verdade é como o azeite: vem sempre à tona de água. O muro de silêncio da Igreja, erguido à pressa em torno de maus resultados inesperados, tem muitas brechas. E talvez que a falha mais profunda, nestas reacções que vão aparecendo, seja chamar-se a atenção para o facto de que a igreja católica institucional é jesuítica quando ganha e arrogante quando perde. Em termos eclesiásticos profundos, não há igreja nova que nos valha. A igreja velha é a igreja de sempre. Uma igreja que se arrisca, porém, a tornar-se previsível.
Perante a vitória do Sim na despenalização limitada da prática da IVG, é evidente que a hierarquia católica não vai cruzar os braços face aos resultados negativos. Pelo contrário. A médio e a curto prazo utilizará todas as armas do seu arsenal para transformar em êxito aquilo que o sentido do voto expresso lhe roubou. Pouco lhe importa que dezenas de milhares de católicos tenham fugido à disciplina canónica, afirmado o primado da sua própria consciência e votado Sim.
Olhando as curvas e contracurvas do episcopado, ao longo da recente campanha, podemos agora antecipar aquilo que irá ser o seu próximo procedimento. Os bispos não irão prender-se a considerações éticas. Vale tudo, desde que a influência e o poder da igreja não cessem de aumentar.
É evidente que nos iremos proximamente confrontar com manobras de legalidade duvidosa, aliás já avançadas ao longo da campanha pelo Não.
Os mais altos responsáveis religiosos apelaram (ou sugeriram), nessa altura, o recurso à desobediência civil como estratégia, a objecção de consciência, a recusa do Governo ou da Assembleia da República terem capacidade legal para legislarem sobre um assunto que é do foro da moral cristã, a eventualidade de grupos hospitalares privados recusarem praticar a IVG, o apelo no mesmo sentido feito à classe médica, etc.. Ao fim e ao cabo, um conjunto de propostas que introduzisse uma oculta questão central: Portugal deve ser governado segundo princípios soberanos de base democrática ou, nas questões essenciais, a última palavra deve submeter-se à doutrina da igreja? Adivinha-se que, com mais um passo em frente, os portugueses poderiam vir a ser chamados a referendar um Estado democrático ou, em alternativa, um Estado teocrático e católico.
É preciso resistir e vigiar estas sombrias intenções. A igreja diz agora que para haver uma lei equilibrada de despenalização se exige que a mulher seja seguida e aconselhada na sua decisão de abortar. Que o aconselhamento deve ser dado por entidades públicas ou privadas. Que é obrigação do Estado permitir a criação de agências de aconselhamento certificadas e com capacidade para permitir ou recusar a intervenção clínica das dez semanas.
É evidente que por detrás destas propostas espreita a Sociedade Civil, com a extensa procissão das suas IPSS e entidades canónicas.