O Partido na História

Comunistas deportados

José Casanova
Já aqui falámos de comunistas deportados, especificamente de casos ocorridos antes da implantação da ditadura fascista. Naturalmente, após o golpe militar de 28 de Maio de 1926, o ritmo das prisões e deportações de militantes comunistas intensificou-se de forma acentuada. Logo em 1927, são desterrados para Timor vários membros do Partido, entre eles Reinaldo Ferreira Godinho que tinha sido eleito para a Comissão Central do PCP por ocasião do II Congresso, em 30 de Maio de 1926.
A segunda deportação de que há registo após a implantação da ditadura, ocorreu em 8 de Outubro de 1930: no navio Lima seguem, para os Açores, 11 deportados políticos, a maioria dos quais destacados militantes e dirigentes comunistas, como: Bento Gonçalves, secretário-geral do PCP; e Anastácio Ramos, António Nunes, Francisco Pereira de Sousa e José da Silva. Assinale-se que, no momento do embarque, os presos e muitos seus familiares e amigos que deles se foram despedir à praia de Santos, em Lisboa, cantaram a Internacional.
Sete meses depois, em 12 de Maio de 1931, alguns dos presos da leva anterior, designadamente José da Silva, integram a lista de 64 presos políticos que, no navio Maria Cristina são transferidos de Angra do Heroísmo para o Campo de Concentração de São Nicolau, em Cabo Verde.
Em 2 de Setembro desse mesmo ano de 1931, o navio Pedro Gomes, com 358 deportados a bordo, faz-se ao mar a caminho de Timor. O dirigente comunista António Bandeira Cabrita é um dos deportados.
Em 20 de Novembro de 1933, o navio Quanza parte de Peniche levando a bordo centena e meia de presos ditos «perniciosos». São comunistas na sua maioria e entre eles encontram-se destacados quadros e dirigentes do Partido: Alfredo Caldeira, Manuel Alpedrinha, Jaime da Fonseca e Sousa e Gilberto de Oliveira. O destino é a Fortaleza de São João Baptista, em Angra do Heroísmo.
É para essa mesma Fortaleza, situada na Ilha Terceira, nos Açores, que em 8 de Junho de 1935, é enviado um novo contingente de presos políticos: partem do Forte de Peniche e, entre eles, segue Sérgio Vilarigues.
Em Dezembro desse mesmo ano, outro grupo de presos parte de Lisboa rumo à Fortaleza de São João Baptista: José Aguiar, Francisco Rodrigues e João Lustosa são alguns dos militantes comunistas que integram este grupo de deportados transportados pelo navio Cabo Verde.
Em 29 de Outubro de 1936, 152 antifascistas desembarcados do navio Luanda vão inaugurar o Campo de Concentração do Tarrafal, o Campo da Morte Lenta. São, na sua imensa maioria, militantes e simpatizantes comunistas – facto que é do conhecimento público mas que importa sublinhar dado que há por aí quem, fingindo desconhecer esta verdade, a silencie sistematicamente. Entre os 152 figuram os membros do secretariado do PCP Bento Gonçalves, Júlio Fogaça e José de Sousa e muitos dezenas de outros dirigentes, quadros e militantes, entre os quais Pedro Soares, António Guerra, Alfredo Caldeira, Gilberto de Oliveira, Sérgio Vilarigues, Manuel Rodrigues da Silva, Américo de Sousa, Henrique Ochsenberg, João Faria Borda, Hermínio Martins, Joaquim Teixeira, Joaquim Ribeiro, José Barata, Josué Martins Romão, Manuel Alpedrinha, Militão Ribeiro, Oliver Bártolo, João Dinis, Gabriel Pedro, Fernando Alcobia.
Em Junho do ano seguinte, o navio Lourenço Marques chega ao Tarrafal com mais 41 presos, entre eles os militantes comunistas Joaquim Amaro e Miguel Wagner Russel – na altura dirigente do Socorro Vermelho Internacional.
A partir de então, a deportação de presos para o Tarrafal processou-se com uma regularidade anual. De 1940 até ao primeiro encerramento do Campo de Concentração (em Janeiro de 1954) mais de uma centena de presos teve o Tarrafal como destino. Alguns foram para ali enviados pela segunda vez: Júlio Fogaça, Pedro Soares, Militão Ribeiro, António Guerra e Francisco Miguel – que viria a ser o último cativo do Campo da Morte Lenta. E foram 32 os que o fascismo salazarista lá assassinou.


Mais artigos de: Argumentos

Brechas no muro do silêncio

Aqui há cerca de um mês, nada calava os bispos portugueses. Multiplicavam entrevistas e declarações públicas, por vezes com riscos para a imagem da própria igreja que representavam e com uma notável falta de bom senso. Falavam compulsivamente. O próprio cardeal-patriarca e outros sacerdotes e leigos assumiram atitudes...

Nova pista de atletismo de Lisboa

Foi recentemente inaugurada em Lisboa uma pista de atletismo ao ar livre, à qual foi dado o nome de «Professor Mário Moniz Pereira». Uma designação justa, e justa não apenas porque faz justiça ao homenageado, por este sem dúvida o merecer; mas uma designação justa sobretudo no sentido em que ela poderá efectivamente...

Com o «Che» enquanto jovem

A informação de que a RTP1 iria transmitir o filme «Os Diários de Che Guevara» quase justificou alguma perplexidade: por que inesperada magia a Radiotelevisão Portuguesa dava um remoto sinal de se ter tornado um poucochinho, mesmo só um poucochinho, guevarista? É certo que o filme, baseado nos diários que Che escreveu...