«Resignação patriótica»

Margarida Botelho
É inevitável – para usar a palavra preferida do Governo nos últimos meses – falar do Congresso do PS. Um Congresso tão mas tão democrático que a moção a aprovar foi sendo apresentada como aperitivo – ou sobremesa – em jantares pelo país em que os militantes, calados, serviram de cenário ao chefe. Um Congresso tão mas tão espontâneo que Sócrates tinha dois telepontos, para poder parecer que olhava para os delegados, quando na verdade nunca desfitou o ecrãn. Um Congresso tão mas tão de esquerda que até começou com imagens do 25 de Abril. Um Congresso tão mas tão ligado à vida que quem lê os discursos de Sócrates teme ter entrado noutra dimensão, tais são os «avanços», as «reformas», as «vitórias no debate orçamental». Poderia ser cómico, se não fosse trágico ser este o partido do Governo do nosso país.
O Congresso abriu com o discurso do presidente do PS, Almeida Santos, que rasgou os mais ensaboados elogios a Sócrates. Entre as profecias – inevitáveis - sobre o futuro do mundo, Almeida Santos lá deixou cair que, de facto, a vida está difícil para o povo português: custo de vida, desemprego, baixos salários, taxas moderadoras. Tudo o que já sabemos. Mas Almeida Santos consegue surpreender o mais empedernido céptico militante, ao dizer que o povo português a tudo resiste com «resignação patriótica».
Dizer que os portugueses estão «resignados» à política do PS exigiu decerto muita criatividade a Almeida Santos. Ainda por cima no último de dois dias de uma greve geral da Administração Pública que fechou largas centenas de locais de trabalho pelo país fora, numa semana em que se repetiram acções de luta e protesto de estudantes, trabalhadores, populações. É obra. Há que reconhecer-lhe o mérito.
Mas «patriótico»?! Ao contrário do que possa pensar o presidente do PS, os portugueses que não se resignam, que protestam e lutam são patriotas. Defendem a independência nacional e um país mais justo, de igualdade e desenvolvimento. Quem se submete aos ditames da União Europeia e do grande capital é que não é grande patriota.
Ao contrário da tese que o PS tenta fazer vingar, quem recusa esta política não quer que fique tudo na mesma. Quem se prepara para deixar tudo «na mesma» é o Governo, que aplica as mesmíssimas medidas dos últimos 29 anos. Lá está: patriotas são todos os que lutam contra esta velha política.


Mais artigos de: Opinião

Os partidos não são iguais

O tratamento dado pela comunicação social e respectivos comentadores aos recentes acórdãos do Tribunal Constitucional sobre as contas da campanha eleitoral das Eleições Legislativas e multas aplicadas aos Partidos, a propósito das contas de 2003, representa mais um passo na campanha contra os Partidos.

O essencial

No Público de 9.11, Eduardo Prado Coelho (EPC) – recorrendo à memória e sublinhando que «a minha memória só fixa o essencial» - responde a um texto a seu respeito, publicado no mesmo jornal.Para demonstrar que «não mudo muito velozmente de ideário político», informa: «em meados dos anos 70 passei, ao de leve, pelo...

Erro de <em>Casting</em>

Incompreendido pelo povo e maltratado pela «rua» o PS buscou no Congresso o apoio e conforto de que carece para legitimar e prosseguir as suas políticas de direita. Verdade se diga que não foi tarefa particularmente difícil. Perante uma plateia dominantemente preenchida por titulares de cargos no aparelho de Estado,...

Mão-cheia de nada

No congresso do PS que a semana passada entronizou José Sócrates como o actual «dono» do partido – na tradição, aliás, do que sempre ocorre e dura em Portugal enquanto um líder partidário for, concomitantemente, o «dono» do Governo e das suas infindáveis prebendas -, o reconduzidíssimo secretário-geral anunciou...