Uma flor em Budapeste
Levantei-me com a leveza de alma dos ingénuos e dos distraídos, nem sequer sabia ao certo a quantos do mês estava, e o meu primeiro gesto fora do quarto foi o gesto do costume: ligar o televisor e escolher um canal. Na RTP1 e na TVI estavam a dar-nos as habituais notícias do trânsito, na SIC era uma série supostamente infanto-juvenil que não estava para a minha idade, optei por ir aos canais por cabo e escolhi o noticiário da Euronews. Vi então um espectáculo que me pareceu tristíssimo e me deprimiu. Era uma praça numa cidade distante, soube pouco depois que era Budapeste, e uma mão-cheia de sujeitos com todo o ar de serem importantes, num ambiente ornamentado por muita outra gente de ar solene, que ia desfilando um a um, e depositando uma flor num monumento de dimensão discreta mas decerto de grande significado erguido na sua frente. A flor era branca e devia ser uma rosa, seguramente que cravo não era, nem mesmo sendo branco. Apesar de talvez ainda um pouco estremunhado, percebi rapidamente que se tratava da evocação do levantamento húngaro de 1956 e que nele participava pessoalmente tudo o que da Ucrânia para cá é presidente da república ou exerce funções equiparáveis. Reparei que D. Juan, rei de Espanha, mandara o filho em seu lugar, e lembro-me de ter reflectido que talvez por coisas destas é que por vezes as gerações seguintes guardam razões de queixa dos pais, embora não fosse decerto o caso. Mas o que muito me doeu, o que me deixou verdadeiramente deprimido, é ter descoberto que também o professor Cavaco Silva, Presidente da República Portuguesa, estava entre aquela gente tão heterogénea (digamos assim) e também ele desfilou até ao monumento, depôs a flor branca e regressou ao seu lugar entre os demais. Resisti a escrever «entre os seus pares» porque entendo que o nosso presidente não é da mesma massa que alguns dos que ali estavam e, com razão ou sem ela, tenho por uns refinados trastes que estão ou estiveram na lista de pagamentos de uma certa potência estrangeira. Se me engano, antecipadamente peço desculpa.
As «pessoas escolhidas»
Mas por que diabo aquele espectáculo tanto me fez doer a alma? Eu explico. Porque o que ali estava a acontecer era a solene substituição, com toda a pompa e circunstância, da verdade histórica por uma versão falsificada, parte integrante de uma impostura que nem por ter sido ampla e duravelmente propalada se tornou verdade, orquestrada por maestros sediados em Washington e seus arredores. Foi-o, de uma maneira muito clara e iniludível, embora muito omitida, no quadro da chamada Guerra Fria e, dizendo-o de outro e mais nítido modo, no do combate silencioso, secreto, sorna mas muito vigoroso, dos Estados Unidos contra a URSS e os restantes regimes que havia pouco mais de uma década faziam no Leste europeu a tentativa de implantar o socialismo. Esse combate está amplamente documentado (e, é claro, era conduzido em nome da democracia e dos valores ocidentais), sendo feito sobretudo através de infiltrações, agentes secretos, agitação interna, habilidades e meios afinal comuns em situações semelhantes desde tempos imemoriais. Entre muitos outros documentos, é interessante e esclarecedor conhecer o ponto 101/a da chamada Lei de Segurança Mútua, aprovada em 51 pelo Congresso dos Estados Unidos. Nele eram atribuídos 100 milhões de dólares anuais para a actividade de «pessoas escolhidas» do Leste Europeu. As pessoas, essas e outras, foram decerto bem escolhidas, e as suas actividades floriram em Budapeste em Outubro de 56 como haveriam de florir doze anos mais tarde em Praga. Nada disto e de muito mais sabe o comum das gentes porque a História, pelo menos a nível dos grandes media e suas adjacências, tem sido escrita segundo mandamentos que vêm do outro lado do Atlântico.
O que aqui fica escrito é terrivelmente pouco e, sublinha-se, não implica que na Hungria anterior a 56 não tenham sido cometidos enormes disparates. Construir o socialismo sobre as ruínas de um regime fascista como ali existira até 45 não é coisa fácil. Mas a insurreição húngara que agora se comemorou foi uma vitória da política norte-americana no contexto da Guerra Fria que iria, anos mais tarde, desembocar na derrota da URSS, não foi uma vitória da justiça, nem da democracia, nem sequer da paz. Assim, já se entenderá porque tanto me entristeceu ver que na comemoração dessa vitória de Washington mascarada de vitória do Bem eu vi o presidente de Portugal. Não, acentue-se, que não entenda as razões que o terão levado lá. Mas porque esse entendimento só me agrava a tristeza.
As «pessoas escolhidas»
Mas por que diabo aquele espectáculo tanto me fez doer a alma? Eu explico. Porque o que ali estava a acontecer era a solene substituição, com toda a pompa e circunstância, da verdade histórica por uma versão falsificada, parte integrante de uma impostura que nem por ter sido ampla e duravelmente propalada se tornou verdade, orquestrada por maestros sediados em Washington e seus arredores. Foi-o, de uma maneira muito clara e iniludível, embora muito omitida, no quadro da chamada Guerra Fria e, dizendo-o de outro e mais nítido modo, no do combate silencioso, secreto, sorna mas muito vigoroso, dos Estados Unidos contra a URSS e os restantes regimes que havia pouco mais de uma década faziam no Leste europeu a tentativa de implantar o socialismo. Esse combate está amplamente documentado (e, é claro, era conduzido em nome da democracia e dos valores ocidentais), sendo feito sobretudo através de infiltrações, agentes secretos, agitação interna, habilidades e meios afinal comuns em situações semelhantes desde tempos imemoriais. Entre muitos outros documentos, é interessante e esclarecedor conhecer o ponto 101/a da chamada Lei de Segurança Mútua, aprovada em 51 pelo Congresso dos Estados Unidos. Nele eram atribuídos 100 milhões de dólares anuais para a actividade de «pessoas escolhidas» do Leste Europeu. As pessoas, essas e outras, foram decerto bem escolhidas, e as suas actividades floriram em Budapeste em Outubro de 56 como haveriam de florir doze anos mais tarde em Praga. Nada disto e de muito mais sabe o comum das gentes porque a História, pelo menos a nível dos grandes media e suas adjacências, tem sido escrita segundo mandamentos que vêm do outro lado do Atlântico.
O que aqui fica escrito é terrivelmente pouco e, sublinha-se, não implica que na Hungria anterior a 56 não tenham sido cometidos enormes disparates. Construir o socialismo sobre as ruínas de um regime fascista como ali existira até 45 não é coisa fácil. Mas a insurreição húngara que agora se comemorou foi uma vitória da política norte-americana no contexto da Guerra Fria que iria, anos mais tarde, desembocar na derrota da URSS, não foi uma vitória da justiça, nem da democracia, nem sequer da paz. Assim, já se entenderá porque tanto me entristeceu ver que na comemoração dessa vitória de Washington mascarada de vitória do Bem eu vi o presidente de Portugal. Não, acentue-se, que não entenda as razões que o terão levado lá. Mas porque esse entendimento só me agrava a tristeza.