Os mais fortes somos nós !...

Jorge Messias
Prosseguem e acentuam-se as orgias dos muito ricos, dos novos ricos, dos velhos e jovens beatos. Opas, fusões, privatizações, transferências de poder, tudo perpassa diante do olhar atónito do cidadão comum. É o espectáculo, um fabuloso jogo de circo. Com tanto dinheiro fresco, bispos, banqueiros e uma corrupta classe de políticos, não têm mãos a medir. Falam uns com os outros, aplaudem-se, elogiam-se e promovem-se. O povo, essa amálgama mal cheirosa, é como se não existisse. Os pobres que apertem o cinto enquanto podem produzir; depois, que morram, conforme Deus manda ...
Ainda há poucos dias esteve em Lisboa o Comissário Europeu do Comércio que nos deixou esta síntese brilhante da filosofia política do capitalismo: «As empresas virão e sairão. O emprego desaparece e será criado um novo. A chave é manter o dinamismo.» É este catecismo da angústia e do efémero que melhor define o governo de Sócrates e claramente explica as intimidades da hierarquia católica com os mais cruéis formas de exploração do homem.

Negócios e encargos

Nas manobras de saque que a igreja ajuda a embrulhar em Ética cristã destacaram-se, recentemente, dois importantes processos de intenção:
o governo português assinou um acordo de cinco anos, com o Instituto Tecnológico de Massachusetts, nas áreas vitais dos Sistemas Avançados de Produção, Energia, Transportes, Bioengenharia e Gestão. O valor inicialmente orçamentado para este protocolo é de 65 milhões de euros, só na parte do Estado, 35 milhões dos quais destinados a subsidiar empresas nacionais ou instaladas em Portugal. O acordo subalterniza as actuais estruturas nacionais de direcção do ensino superior e da investigação científica e submete um grupo importante de estabelecimentos de ensino e de laboratórios do Estado aos critérios que regem o sistema norte-americano (o MIT) baseado na relação educação/ investigação/empresa. Os estudantes portugueses mais dotados irão estagiar nas universidades americanas. Os professores norte-americanos virão ensinar em Portugal. A igreja entra directamente no negócio através da Universidade Católica cuja Faculdade de Ciências Económicas e Empresariais produz os famosos MBA, especialistas em liderança, gestão da informação e marketing; e no suporte financeiro do projecto, área onde se destacam os bancos de capitais ligados ao Vaticano, como o J.P.Morgan, o Santander, o Finibanco, o BCP, o BPI e vários outros mais. Este tipo de acordos bilaterais vai ser praticado pelo governo noutras áreas das tecnologias. O universo da Educação e da Investigação transformar-se-á em gorda fatia de negócios. Assim se entende agora que, movidos pelo sopro da Ética, grandes capitalistas se tenham metemorfoseado em filantropos, arautos da Doutrina Social da Igreja.
Num outro plano, poder-se-á referir um original projecto megalómano onde a instituição católica também participa em lugar cimeiro, liderada pela Santa Casa da Misericórdia de Lisboa. O pretexto é a revitalização da Baixa-Chiado. O negócio envolve um investimento de mil, cento e quarenta e cinco milhões de euros. O meganegócio, cuja principal instigadora é Maria José Nogueira Pinto, grande tecnocrata cristã das Misericórdias e do Comissariado da Baixa/Chiado (um encontro de cargos que não é inocente) é alucinante e implica a ruína do centro histórico lisboeta, a compra e venda de ministérios, tribunais e serviços públicos, convertendo tudo em hotéis de luxo e em equipamentos turísticos : a construção de um grande Hotel, a erguer no Terreiro do Paço ; a gestão do centro histórico como se tratasse de um «centro comercial»; a instalação de mercados ao ar livre; e a promoção, nos bairros populares, de um «novo tipo de habitação» cujas características sociais permanecem obscuras.
Nogueira Pinto, católica exemplar, chama a este negócio «círculo virtuoso», como manda a boa gramática caritativa da ética social da igreja. A verdade oculta é, porém, que a Santa Casa precisa de investir em áreas altamente rentáveis e bem remuneradas os milhões que se acumulam nos seus cofres, produzidos pela especulação financeira, pelo monopólio das lotarias e pelas operações imobiliárias. É apenas puro negócio.
Em tudo isto, é certo, há o delírio do dinheiro. Mas que é alucinação apoiada num poder responsável pela prática de grandes crimes sociais. Cumpre-nos estar atentos e vigiar. É necessário, sobretudo, que o povo católico saiba sacudir as duras carapaças ancestrais que tolhem as suas liberdades, exigindo das hierarquias o cumprimento dos compromissos da fé. O capitalismo é uma construção artificial corrupta. O comunismo continua a não ter alternativa válida. É o futuro dos povos. Os mais fortes somos nós! ...


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