Sinais dos tempos

Mentiras, loucuras e mortes - II (conclusão)

Manuel Augusto Araújo
Uma nebulosa inquietante e de decadência artística que Nietzsche premonitoriamente tinha descrito «(…) pelo facto da vida já não animar o todo. A palavra torna-se soberana e irrompe fora da frase, que transborda e obscurece o sentido da página, e a página ganha vida em detrimento do conjunto: o todo já não forma um todo. Mas esta imagem vale para todos os tipos de décadence: é, sempre, anarquia dos átomos, desagregação da vontade. (…) Em toda a parte, a paralisia, a fadiga, o entorpecimento ou então a inimizade e o caos (…) O todo já não tem qualquer vida: é compósito, calculado, artificial, um artefacto.»
Se, com o propósito de facilitar o entendimento, a obra de Bartolomeu for sistematizada por temas, obtém-se uma estimulante abordagem, caminho para uma profunda análise académica, mas perde-se a perspectiva da sua inserção no movimento histórico e a compreensão ideológica do seu tempo que se consegue ordenando-a cronologicamente, entendendo-se que as ideologias são as ideias, os valores e os sentimentos através dos quais os homens tomam consciência, nas diversas épocas, da sociedade em que vivem e que, algumas dessas ideias, valores e sentimentos só são acessíveis pela arte, o que é bem evidente em toda a obra de Bartolomeu dos Santos.
Homem culto e erudito, artista do seu tempo e do seu mundo em que a visão filosófica, política e poética acompanha a evolução estética e formal, sendo tudo sempre integrado no trabalho que mantém em ritmo intenso. Olhem-se os labirintos e as esferas que irrompem nas gravuras de Bartolomeu nos anos 70, provocando inquietudes e interrogações tão peremptoriamente decisivas para visitar o mito da Atlântida (Atlantis, Atlantis Revisited, The End of Atlantis) como para anunciar os mistérios de The Visitor, Figure in Space, Great Monolith ou para perscrutar as leituras do Mare de Guine, The Future of Gold is Assured e Tratado de Tordesilhas. Tal como o são as múltiplas referências literárias, cinematográficas, visuais, de memórias e viagens, de almoços e conversas que se incorporam com naturalidade na vasta obra artística de Bartolomeu sem sofrer descontinuidades e de passo sempre acertado com o tempo. Uma obra artística que não aceita o mundo como ele é. Que o recria, revelando a sua natureza de produto construído. E ao comunicar essa consciência de energia produtiva a quem olha para as suas obras, Bartolomeu está a acordar neles energias semelhantes em vez de se limitar a satisfazer os seus desejos de consumidores.
Nesta exposição, intitulada Sinais dos Tempos, a primeira nota é para rejeitar liminarmente qualquer tentativa de a menorizar na base da falsa distinção entre arte e propaganda ou da arte e política, separação que contumazmente a critica presunçosa e burguesa faz. Distinção que colocaria fora dos parâmetros do que é arte artistas como Vertov, Meyerhold, Malevitch, Eisenstein, Piscator, Maiakovski, Shostakovich, Brecht, entre tantos outros que nos estão temporalmente próximos ou de Michelangelo (a Capela Sistina não será uma notável obra de propaganda e glorificação do deus católico?) ou Gericault ou etc. Defenda-se que toda a arte é progressista e que a arte fechada aos movimentos históricos-sociais da sua época, divorciada de uma consciência do que é historicamente central relega-se a si própria para um estatuto secundário. Tese decorrente é a que Ernst Fischer e de outro modo Walter Benjamim explanam de que a arte transcende sempre os limites ideológicos da sua época, dando uma percepção das realidades que se encontra ocultada pela ideologia. Acontece, muitas vezes acontece, que isso seja produzido por artistas politicamente conservadores como Erza Pound, Lawrence ou Bacon, muitíssimo distanciados de uma arte genuinamente revolucionária mas que opõem o seu conservadorismo radical aos valores caducos da sociedade burguesa liberal, o que se enquadra no principio da contradição formulado por Marx e Engels nas análises ao desenvolvimento económico da sociedade capitalista, e que os mesmos transpuseram quando se detiveram nas artes afirmando claramente que « as ideias políticas de um autor podem estar em oposição àquilo que a sua obra objectivamente revela». Donde se infere que a questão de saber ou medir quão progressista deve ser uma obra de arte para ser válida é uma questão histórica que não pode ser resolvida dogmaticamente, como o quiseram fazer Estaline ou Mão-Tsé-Tung, provocando uma devastadora ofensiva contra as artes e afundando-se no pior reaccionarismo ideológico, sustentado teoricamente numa vulgata marxista-leninista desviante.


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