Central do rapto e da tortura

Rui Paz

A resposta a estas questões tem sido bloqueada sistematicamente pelo governo da coligação Merkel/SPD

Em Novembro de 2005, Dieter Wiefelspütz, responsável do Partido Social-Democrata Alemão pela política de Segurança, formulava a posição do SPD face à utilização ilegal do território e do espaço aéreo alemães pela CIA nos seguintes termos: «Não temos nada a ver com o que os americanos fazem com as suas bases», isto é, a Alemanha não exerce qualquer controlo sobre quem vai a bordo dos aviões e sobre o que transportam, e acrescentava: «nós próprios queremos que seja assim» (Spiegel Online, 25.11.05).
O escândalo do rapto e da tortura por um comando da CIA do cidadão alemão, Khaled Al Masri, com o objectivo de esclarecer pormenores da sua vida privada a que só os serviços secretos alemães poderiam ter tido acesso, e a recusa de Berlim em esclarecer uma situação, que já se arrasta há mais de dois anos, colocou de novo no centro da actualidade toda uma zona obscura da colaboração entre a Alemanha e os Estados Unidos no quadro da chamada «guerra contra o terrorismo».

Aquilo, que, até há pouco tempo, vinha a ser apresentado oficialmente como um fechar de olhos face ao amigo americano - o que, só por si, já seria extremamente grave à luz da ordem jurídica alemã - está a revelar-se cada vez mais como o resultado de uma estreita colaboração e do envolvimento directo da Alemanha e de outros estados europeus na rede clandestina de raptos, prisões ilegais, tortura e interrogatórios violentos.
Aliás, o que se passou com Al Masri, pacífico chefe de família e pai de três crianças, não é um caso isolado. Murat Kurmaz, um outro cidadão alemão, maltratado no Afeganistão por elementos da tropa especial da Bundswehr, KSK, ficou quatro anos a apodrecer em Guantânamo, onde foi interrogado por agentes de Berlim, sem que até hoje lhe tenha sido dada qualquer explicação.

Qual o grau de colaboração entre a Alemanha e os Estados Unidos no labirinto das prisões secretas da CIA e no rapto dos prisioneiros? Porque é que especialistas alemães têm participado em interrogatórios nos centros de tortura norte-americanos? Quais as informações fornecidas a Washington por agentes dos serviços secretos de Berlim estacionados em Bagdad sobre alvos a atingir pelos bombardeamentos americanos e que levaram o Pentágono a condecorá-los pelos serviços prestados aos Estados Unidos? Como foi possível que não só o aeroporto de Frankfurt mas um elevado número de aeroportos alemães se tenham transformado no maior ponto de convergência dos aviões que transportam bandos ilegais de raptores? A resposta a estas questões tem sido bloqueada sistematicamente pelo governo da coligação Merkel/SPD, o que obrigou o deputado Noskovic, membro da comissão de inquérito do Bundestag, a abandonar as suas funções por considerar que o relatório fornecido pelo Governo constitui «uma manobra de diversão».

Se dois jornalista do programa da ARD, Panaroma, conseguem em poucos dias ir à Carolina do Norte, localizar e identificar o bando de raptores e a empresa de aviões da CIA, a Aero Contractors, que executa tais operações, porque é que o Ministério Público de Munique continuava a afirmar em Setembro não possuir dados suficientes que permitissem a emissão de mandatos de captura?
O escândalo dos voos ilegais da CIA está a revelar a existência de uma verdadeira central transatlântica secreta do rapto e da tortura com base em estruturas de poder paralelas e clandestinas, as quais, à margem dos poderes institucionais e dos princípios constitucionais, têm conduzido cada vez mais estados europeus a abdicar na prática do exercício dos seus direitos territoriais e de soberania em favor dos Estados Unidos.


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