A pose

Henrique Custódio
O ministro do Trabalho e da Solidariedade Social, Vieira da Silva, discursou esta semana na abertura da Conferência Mundial que a Organização Internacional do Trabalho (OIT) está a realizar em Lisboa até à próxima terça-feira.
A Conferência subordina-se ao ponderoso tema «Protecção Social e inclusão: convergência de esforços numa perspectiva global», pelo que o governante mostrou à OIT e ao mundo o que valia, pronunciando coisas muito globais e numa pose de Estado a condizer.
«Eu diria», disse ele, «com toda a franqueza, que erradicar completamente as taxas de pobreza até 2010 será muito difícil, tanto em Portugal, como em qualquer país da União Europeia», acrescentando que, apesar disso, «Portugal está empenhado em cumprir».
Chamamos a atenção para a subtileza do ministro - polvilhada da genialidade arguente que largos anos de convívio com o poder lhe incutiram no verbo e na verve -, ao dissolver a pobreza deplorável que grassa em Portugal «integrando-a» no conjunto dos países da União (como se a pobreza fosse toda igual no espaço comunitário europeu), rematando a seguir com a afirmação de que «Portugal está empenhado em cumprir», sujeito majestático onde se presume ele próprio, mais o Governo a que pertence, como os lídimos intérpretes da própria identidade nacional, assim «empenhada em cumprir».
Como se diz no rifão, o ministro passou assim como cão por vinha vindimada sobre vários factos a que deveria responder.
Por exemplo, deveria assumir que o Portugal em nome do qual agora fala assinou em 2000 a «Agenda de Lisboa», onde todos os países da União Europeia se comprometeram a «erradicar a pobreza» dos seus territórios até ao ano 2010, tal como deveria explicar como é que o seu Governo pode garantir que «Portugal está empenhado em cumprir» esse compromisso quando, em apenas ano e meio de governação, em vez de criar os prometidos 150 mil postos de trabalho da campanha eleitoral que lhes deu o poder, tem permitido o desaparecimento de muitos milhares desses postos de trabalho, engolidos quer através do encerramento constante de grandes unidades fabris deslocalizadas pelas multinacionais a que, entretanto, o Governo nem contas pede pelos muitos milhões de «incentivos» que lhes foram doados, quer pelas falências constantes na miríade de pequenas e médias empresas vítimas do empobrecimento generalizado do aparelho produtivo nacional, contribuindo assim para o aumento constante – e não a diminuição - do número de pobres absolutos que enxameiam Portugal.
Isto sem nos alongarmos nos chamados «indicadores» de desenvolvimento regularmente publicados pela União Europeia, onde o nosso País vai batendo sistematica e ininterruptamente todos os recordes negativos: ora somos o membro da União que menos cresce, o que mais diminui a sua produtividade, o que tem os salários mais baixos, ora somos o que apresenta o maior número de pobres ou os enriquecimentos mais rápidos, o que tem os trabalhadores mais mal pagos e os gestores que recebem os honorários mais astronómicos em toda a União, ora, ainda, somos o palco das mais acentuadas degradações salariais, a par dos mais descomunais aumentos de lucros dos bancos e seguradoras em toda a Europa comunitária.
É claro que para o ministro Vieira da Silva abordar tais assuntos, seria necessário que a «pose de Estado» com que fala correspondesse a mais alguma coisa do que a um mero «estado de pose»...


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