Simulacro da «razão»?

Francisco Silva
O libertar da ganga dos preconceitos, o adoptar de uma perspectiva e de métodos eficazes para ir avançando na senda do conhecimento não é fácil. Todos o vamos sabendo. Com o tempo, com os enganos, uns mais do que outros vamos afiando os gumes da crítica, nomeadamente a que assestamos sobre nós próprios; e lá vamos descobrindo coisas que supúnhamos inimagináveis. E, ao referir aqui o conhecimento, quero declarar desde já não ter eu a intenção de entrar neste texto por análises detalhadas, como seja, por exemplo, considerar a distinção relativa aos diversos tipos de conhecimento - corrente, científico, filosófico -, distinções relevantes, sim, mas cuja análise, mesmo superficial, é impraticável no âmbito do presente texto. Em conformidade, aproveito, mais uma vez, para relembrar a obra ímpar de Armando de Castro sobre a Ciência do Conhecimento Científico. Por outro lado, ao referir o termo conhecimento, estou ainda a assumir a não inclusão no seu âmbito, para efeitos deste texto, de formas referidas como conhecimento não pertencentes às categorias citadas - corrente, científico e filosófico, e tal como as vivemos na nossa época.
E por agora, vamos adiante, uma vez delimitado o âmbito do que se entende aqui por conhecimento, sem qualquer esperança de ficar a salvo das contraditas e anátemas de comentadores e filosofantes pós-modernos que ainda resistam. Paciência. Estes, aliás, ditos ora, para uns, de «esquerda» ora, para outros, de «direita», sorrateiramente, têm ido abandonando tais paragens do relativismo e da amálgama «pós-moderna», procurando fazer esquecer o seu anterior apoio total a tais agora «velharias», e vão alinhando, sem colocar condições, com o actual pico «civilizacional», o novíssimo velho moderno - a sua pior parte - que vai sendo feito ressurgir das cinzas, e que eles gostam de datar o respectivo início com a hecatombe novaiorquina daquele negríssimo 11 de Setembro (o escrevente destas linhas, pelo seu lado, ao escutar e ler tais referências a 11 de Setembro, ele, «fossilizado» três décadas mais atrás, não consegue esquecer a hecatombe do Chile; e relembra muitos daqueles que na altura condenaram esta com veemência, agora, os mesmos que dela parecem esquecidos!).
Continuando esta caminhada, deve ser dito com clareza que o conhecimento que vimos perseguindo, na realidade, para o ser, não pode deixar de incluir como equipamento determinante da sua elaboração as obrigatórias ferramentas da razão (com letra minúscula, maiúscula, fique-se assim).
Isto, aparte e ressalvadas as críticas, com frequência justas, que têm sido feitas ao positivismo, ao reducionismo, etc. Críticas que - na minha cabeça - são sempre tidas em conta quando falo da razão, pensando-a num ambiente, num enquadramento, materialista dialéctico, em que aquela deve estar embebida. Além disso, também não deixo de lado os ensinamentos de que a razão, e o modo de empregá-la, não pode desdenhar da informação relativa a todos os canais de sensibilidade nos quais está imersa, tanto os canais dos cinco sentidos externos, como os canais proprioceptivos, dando conta de coisas como o equilíbrio e as posições relativas das diversas partes do nosso corpo, e ainda os canais interoceptivos, viscerais - portanto, incluindo também as nossas emoções. Tudo ligado, bem entendido. E passe a ironia: mais «holística», não poderia ser esta posição.
Enfim, tendo lido este depoimento, conceda o leitor que não estou mal artilhado para evitar as armadilhas mais usuais de um cientismo ingénuo a la belle époque. Devo mesmo dizer que vejo o esforço da razão para o avanço do conhecimento como o contrário da ingenuidade, como foi o caso do abandonar da visão geocêntrica do mundo, do alcançar uma compreensão evolucionista da Vida em vez da visão que esta tinha sido toda criada no início dos tempos, ou ainda da descoberta de que a luz não se propaga em linha recta.
Então pergunto, nas sociedades de hoje, que os poderes dizem querer que sejam do «conhecimento», querem agora que nós, na busca do conhecimento, não «suspeitemos» existir mais informação relevante, e mesmo contraditória, para além daquela facultada pelos poderes deste mundo, e que os media embrulham e difundem. Ilustração: indignada pareceu estar Paula Teixeira da Cruz quando Odete Santos referiu informação oficial pouco compatível com a versão oficial do 11 de Setembro novaiorquino, disponibilizada na Internet. Defendia a primeira que a Internet não era credível. Medo de perderem o controlo das consciências?


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