O provocador de serviço

Pedro Campos
William Brownfield é o representante diplomático de Bush em Caracas e deve admitir-se que está a fazer um bom papel como provocador ao serviço dos interesses mais obscuros do império.
O Estado Zúlia, no Ocidente da Venezuela, é um dos mais importantes do país. Tem pouco mais de 63 mil km2 de área e perto de três milhões de habitantes. Para dar uma ideia da riqueza desta região, anote-se que mais de 70% do que a Venezuela consome em leite, queijo e manteiga é produzido em Zúlia. A zona é também rica em fosfatos e outros minerais como carvão, para não falar dos seus recursos piscatórios. Por outro lado, tem um lago imenso, de enorme valor estratégico, e é sumamente rico em... petróleo!
Situado na parte ocidental da Venezuela, teve, durante parte do século XIX, algumas veleidades separatistas, apoiadas por interesses forasteiros ansiosos de pôr as mãos nas suas riquezas. Em 1869 o governador local ergue-se em armas para desconhecer as autoridades nacionais. Derrotado pela força, refugia-se num navio de guerra inglês que – coincidência? – estava por ali perto. No século XX, em 1902, outro império, desta vez o alemão, bloqueia o lago e bombardeia as defesas de Maracaibo, a capital do estado. Anos mais tarde, já conhecida a riqueza petrolífera da região, nova tentativa independentista, desta vez alentada pelas companhias estado-unidenses.
Nas últimas eleições para governadores, o estado Zúlia foi um dos dois, dos 24 que formam a Venezuela, que ficaram nas mãos da oposição, e Brownfield tem aproveitado bem esta situação para provocar situações difíceis de gerir. Há alguns meses, esteve em Maracaibo e despejou esta «gracinha»: «Há 25 anos, vivi dois anos na República Independente e Ocidental de Zúlia e por isso sei perfeitamente o que é estar num clima de calor...». Alentada por declarações como estas e certamente por outros
tipos de apoios surgiu no panorama política uma organização – Rumo Próprio – de claro corte separatista, cuja intenção é convocar um referendo contra a aplicação das leis nacionais. Como é óbvio, houve uma reacção rápida das autoridades nacionais e um rechaço popular tão grande que até o governador – oposicionista e golpista declarado – veio a público declarar que «todos somos venezuelanos».
Os recursos do capitalismo são imensos e se a jogada separatista não funcionou como estava no guião, Brownfield parece disposto a arriscar o físico no seu papel de agente provador. Recentemente visitou um bairro maioritariamente bolivariano para oferecer uns equipamentos desportivos. Fê-lo sem avisar as autoridades venezuelanas da sua agenda e num local desportivo onde sabia haver um contencioso legal entre a municipalidade e uma empresa particular. Resultado: foi insultado e teve de se retirar rapidamente do lugar, não sem que antes alguns mais exaltados lhe atirassem uns quantos ovos ao carro! Não era exactamente isto que queria Brownfield? Com o seu embaixador em risco de perder a vida abatido por um ovo que, além do mais, poderia estar podre, que outra «razão» necessitaria o imperialismo para invadir a Venezuela e acabar com um processo revolucionário tão incómodo?

Um pouco de história

Em 1959, acabada de cair a ditadura do general Pérez Jiménez, Nixon visitou Caracas e nunca mais deve ter esquecido essa viagem. Houve ovos, pedras e pontapés no carro imperial e – outra vez coincidência? – havia por perto do porto um navio de guerra dos EUA. Se a situação não tivesse sido controlada num ápice que teria sucedido?
Nestes dias de provocação, os navios de guerra – mais uma coincidência? – estão em manobras pelas Caraíbas, perto das costas venezuelanas. Mais: José Miguel Corrales, deputado da Costa Rico, sugeriu há dias que os EUA poderiam usar as águas do seu país para uma eventual acção militar contra o governo venezuelano.
Tudo isto nos traz à memória Glanshammar. Em 1970, nessa pequena cidade da Suécia, então governada por Olof Palme, o embaixador de Nixon foi recebido por uma manifestação contra a guerra do Vietname, a mesma guerra contra a qual tinha desfilado dias antes Palme. Washington castigou de imediato a Suécia com um bloqueio e congelando as relações diplomáticos com Estocolmo. Há enorme diferenças entre Olof Palme e Hugo Chávez. Mas assim como o primeiro reagiu com um «Satans Mördare/Assassinos de Satanás», quando da destruição, em 1972, de um hospital em Hanói, também é sabida a oposição do venezuelano à guerra contra o Iraque. Em 1986 Olof Palme era assassinado numa rua de Estocolmo. Ninguém duvida que foi um crime político, até agora não totalmente esclarecido.
Por estes dias, a revista colombiana Semana informava que um ex-membro dos serviços secretos colombianos confirma haver planos para assassinar Hugo Chávez.


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