Bush recebido com protestos
Milhares de pessoas manifestaram-se na Índia e no Paquistão contra a política externa norte-americana e o papel seguidista dos respectivos governos face aos interesses dos EUA.
A marcha em Nova Déli foi organizada e encabeçada pelos comunistas
Centenas de milhares de pessoas saíram às ruas das principais cidades da Índia, no final da semana passada, para protestarem contra a visita de George W. Bush ao país, o qual, acusaram, de ser responsável pelos crimes de guerra cometidos contra os povos do Iraque e do Afeganistão, e de pretender impor pela coacção e a chantagem económica e militar o aprofundamento das linhas políticas neoliberais no «gigante» asiático.
Em algumas das metrópoles onde se desenrolaram os protestos, sindicatos e organizações sociais convocaram uma greve geral que paralisou os sectores públicos e privados.
Em Lucknow, no estado de Uttar Pradesh, a polícia respondeu com extrema violência às mobilizações populares de sexta-feira, atribuídas, como convém, a «extremistas de inspiração islâmica». Em resultado dos disparos, quatro pessoas morreram e pelo menos vinte ficaram feridas.
A força das manifestações foi tal, que obrigou Bush a cancelar alguns dos compromissos previstos na cidade que é actualmente o maior centro tecnológico da Índia.
Sob lemas como «Bush vai para casa» ou «Bush Assassino», o cenário repetiu-se, desde quarta-feira, em Bangalore, Mumbai (Bombaim), Punjab, Nova Déli e Haryana. Nesta última, os protestos chegaram à câmara dos representantes locais, onde deputados da oposição ao governo provincial se apresentaram com t-shirts inscritas com slogans anti-Bush. A iniciativa causou incómodo no chefe do governo da região, que abandonou a sala com as orelhas a arder e apressado pela agenda a caminho de um encontro com o presidente dos EUA.
Na capital, Nova Déli, um mar de bandeiras vermelhas e negras deu as «boas-vindas» ao presidente norte-americano. Muito embora os meios de comunicação social e agências com expressão internacional tenham deturpado o protesto, classificando-o como mais uma manifestação de cariz fundamentalista e religiosa, o facto é que a marcha foi organizada e encabeçada pelos comunistas, por estruturas sindicais e estudantis. De diversos pontos da cidade partiram colunas de milhares e milhares de pessoas em direcção ao parlamento indiano, repudiando não só a política externa da Casa Branca, mas também os acordos estabelecidos entre os EUA e o governo da Índia, liderado por Manmohan Singh.
PCI(M) toma posição
A cooperação nuclear civil assinada entre a Índia e os EUA mereceu aplausos da Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA). O seu responsável, Mohamed el-Baradei, considerou-o como «um passo importante para satisfazer as necessidades energéticas crescentes da Índia, nomeadamente, as da tecnologia nuclear e do combustível enquanto factores de desenvolvimento», palavras que ecoam forte e soam a dois pesos e duas medidas quando comparadas com as dirigidas a pretensões semelhantes veiculadas pelo Irão ou pela República Popular Democrática da Coreia, ainda para mais quando a Índia não se encontra entre os signatários do Tratado de Não-Proliferação Nuclear e mantém um conflito histórico com o vizinho Paquistão, este um tradicional aliado dos EUA na Ásia.
Mas a questão nuclear é somente a ponta do iceberg do acordo estabelecido entre as duas nações. Em reacção ao convénio, o Bureau Político do Partido Comunista da Índia (marxista) esclareceu que a «parceria estratégica» vai muito além da energia atómica, contendo um alinhamento da política indiana com os EUA em matéria «económica, política e ideológica, de pesquisa agrícola e geopolítica militar na Ásia».
Sectores fulcrais da economia indiana vão passar a depender dos interesses privados das multinacionais norte-americanas, afirmam os comunistas. Exemplo acabado de tal realidade são os acordos na área da pesquisa agrícola, os quais, diz o PCI(M), «facilitam os interesses de multinacionais como a Monsanto e fazem depender os interesses públicos da Índia da agenda de uma empresa privada».
O «pau-mandado» paquistanês
No périplo de cerca de 72 horas que Bush fez pela Ásia, o Paquistão foi um dos destinos. O presidente, Pervéz Musharaf, acalentava a esperança de que os EUA autorizassem e ajudassem o governo de Islamabad a desenvolver um programa nuclear semelhante ao da Índia, mas as pretensões do ditador acabaram goradas numa cínica declaração de intenção. Sem papas na língua para com o seu subordinado, Bush incitou Musharaf a manter rija a «luta contra o terrorismo». Se os resultados agradarem a Washington, talvez Bush pense no assunto.
Quem não se submeteu aos ditames norte-americanos foram os milhares de paquistaneses que, tal como os homólogos indianos, saíram à rua para rejeitar Bush e a sua política.
Depois do atentado que em Carachi vitimou um diplomata norte-americano, milhares de pessoas protestaram na capital e em cidades como Peshawar, Rawalpindi ou Quetta.
À cautela, dias antes da chegada de Bush, o governo paquistanês deteve centenas de membros de partidos e organizações sociais e políticas da oposição. Na mesma afã de demonstra bons serviços ao Tio Sam, o exército do Paquistão lançou ainda uma violenta ofensiva na fronteira com o Afeganistão. Poucos dados existem sobre os resultados dos bombardeamentos contra aldeias e vilas encravadas nas montanhas, mas as parcas informações divulgadas apontam para um balanço provisório de mais de meia centena de mortos, entre habitantes e soldados, e pelo menos três mil deslocados.
Em algumas das metrópoles onde se desenrolaram os protestos, sindicatos e organizações sociais convocaram uma greve geral que paralisou os sectores públicos e privados.
Em Lucknow, no estado de Uttar Pradesh, a polícia respondeu com extrema violência às mobilizações populares de sexta-feira, atribuídas, como convém, a «extremistas de inspiração islâmica». Em resultado dos disparos, quatro pessoas morreram e pelo menos vinte ficaram feridas.
A força das manifestações foi tal, que obrigou Bush a cancelar alguns dos compromissos previstos na cidade que é actualmente o maior centro tecnológico da Índia.
Sob lemas como «Bush vai para casa» ou «Bush Assassino», o cenário repetiu-se, desde quarta-feira, em Bangalore, Mumbai (Bombaim), Punjab, Nova Déli e Haryana. Nesta última, os protestos chegaram à câmara dos representantes locais, onde deputados da oposição ao governo provincial se apresentaram com t-shirts inscritas com slogans anti-Bush. A iniciativa causou incómodo no chefe do governo da região, que abandonou a sala com as orelhas a arder e apressado pela agenda a caminho de um encontro com o presidente dos EUA.
Na capital, Nova Déli, um mar de bandeiras vermelhas e negras deu as «boas-vindas» ao presidente norte-americano. Muito embora os meios de comunicação social e agências com expressão internacional tenham deturpado o protesto, classificando-o como mais uma manifestação de cariz fundamentalista e religiosa, o facto é que a marcha foi organizada e encabeçada pelos comunistas, por estruturas sindicais e estudantis. De diversos pontos da cidade partiram colunas de milhares e milhares de pessoas em direcção ao parlamento indiano, repudiando não só a política externa da Casa Branca, mas também os acordos estabelecidos entre os EUA e o governo da Índia, liderado por Manmohan Singh.
PCI(M) toma posição
A cooperação nuclear civil assinada entre a Índia e os EUA mereceu aplausos da Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA). O seu responsável, Mohamed el-Baradei, considerou-o como «um passo importante para satisfazer as necessidades energéticas crescentes da Índia, nomeadamente, as da tecnologia nuclear e do combustível enquanto factores de desenvolvimento», palavras que ecoam forte e soam a dois pesos e duas medidas quando comparadas com as dirigidas a pretensões semelhantes veiculadas pelo Irão ou pela República Popular Democrática da Coreia, ainda para mais quando a Índia não se encontra entre os signatários do Tratado de Não-Proliferação Nuclear e mantém um conflito histórico com o vizinho Paquistão, este um tradicional aliado dos EUA na Ásia.
Mas a questão nuclear é somente a ponta do iceberg do acordo estabelecido entre as duas nações. Em reacção ao convénio, o Bureau Político do Partido Comunista da Índia (marxista) esclareceu que a «parceria estratégica» vai muito além da energia atómica, contendo um alinhamento da política indiana com os EUA em matéria «económica, política e ideológica, de pesquisa agrícola e geopolítica militar na Ásia».
Sectores fulcrais da economia indiana vão passar a depender dos interesses privados das multinacionais norte-americanas, afirmam os comunistas. Exemplo acabado de tal realidade são os acordos na área da pesquisa agrícola, os quais, diz o PCI(M), «facilitam os interesses de multinacionais como a Monsanto e fazem depender os interesses públicos da Índia da agenda de uma empresa privada».
O «pau-mandado» paquistanês
No périplo de cerca de 72 horas que Bush fez pela Ásia, o Paquistão foi um dos destinos. O presidente, Pervéz Musharaf, acalentava a esperança de que os EUA autorizassem e ajudassem o governo de Islamabad a desenvolver um programa nuclear semelhante ao da Índia, mas as pretensões do ditador acabaram goradas numa cínica declaração de intenção. Sem papas na língua para com o seu subordinado, Bush incitou Musharaf a manter rija a «luta contra o terrorismo». Se os resultados agradarem a Washington, talvez Bush pense no assunto.
Quem não se submeteu aos ditames norte-americanos foram os milhares de paquistaneses que, tal como os homólogos indianos, saíram à rua para rejeitar Bush e a sua política.
Depois do atentado que em Carachi vitimou um diplomata norte-americano, milhares de pessoas protestaram na capital e em cidades como Peshawar, Rawalpindi ou Quetta.
À cautela, dias antes da chegada de Bush, o governo paquistanês deteve centenas de membros de partidos e organizações sociais e políticas da oposição. Na mesma afã de demonstra bons serviços ao Tio Sam, o exército do Paquistão lançou ainda uma violenta ofensiva na fronteira com o Afeganistão. Poucos dados existem sobre os resultados dos bombardeamentos contra aldeias e vilas encravadas nas montanhas, mas as parcas informações divulgadas apontam para um balanço provisório de mais de meia centena de mortos, entre habitantes e soldados, e pelo menos três mil deslocados.