FARC inflige importante derrota ao Exército

Guerra na Colômbia alarma Washington

Final do ano assinalado na Colômbia pela intensificação do conflito armado entre as FARC e o governo de Álvaro Uribe, o melhor aliado dos EUA na América Latina.

«Derrota do Exército veio confirmar o fracasso do Plano Patriota»

No início da segunda quinzena de Dezembro uma coluna das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC) chefiada pela comandante Katrina matou oito polícias na zona fronteiriça do Panamá. Na mesma região a guerrilha aniquilara dias antes uma força do Exército, abatendo 22 soldados.
O Alto Comando das Forças Armadas respondeu com uma ofensiva no Departamento do Meta, desencadeada no âmbito do Plano Patriota. A operação terminou a 26 de Dezembro com a mais grave derrota infligida ao Exército nos últimos anos. As FARC contra atacaram e o saldo da batalha, em que participaram três centenas de guerrilheiros da Frente Oriental, foi pesado para as tropas do governo. A Brigada Móvel nº12 do Exército, unidade de elite, foi praticamente destruída: 26 soldados e três sargentos morreram nos combates travados em Playa Rica, Vistahermosa, na ex-zona desmilitarizada. O número de feridos terá excedido três dezenas.
Os comandantes das Forças Armadas, general Ospina, e do Plano Patriota, general Castellanos, reconheceram o significado do desastre militar.
A repercussão nos meios políticos foi imediata e muito negativa para a imagem de Uribe. Com poucas excepções, as entrevistas com personalidades conservadoras publicadas pelo diário El Tiempo sublinham que a derrota do Exército no Meta veio confirmar não somente o fracasso do Plano Patriota e da chamada estratégia de «segurança democrática» como também a necessidade urgente de uma negociação séria com uma organização revolucionária cujo poder militar é transparente.
Segundo El Tiempo, nos combates de Playa Rica participaram 300 guerrilheiros de várias Frentes. A contra ofensiva terá sido coordenada pelo comandante Jorge Briceño, El Mono Jojoy, o grande estratego das FARC.

Uribe admite negociar

Observadores internacionais interpretaram o aumento das acções militares das FARC como uma forma de pressão sobre o governo no momento em que Uribe, em manobra inseparável da sua campanha para a reeleição, admite pela primeira vez iniciar negociações para um acordo humanitário com as FARC.
Washington reagiu com inquietação à notícia de que o presidente colombiano tinha respondido positivamente a uma proposta da Comissão Facilitadora Internacional -França, Suíça e Espanha – tendente à abertura de diálogo com as FARC, cujo objectivo seria a troca de prisioneiros.
A resposta das FARC à iniciativa da Comissão acentuou as apreensões do governo Bush. Embora seja muito improvável que o governo de Bogotá e a organização revolucionária possam nas presentes circunstâncias firmar qualquer acordo, a administração norte-americana vê na abertura do diálogo uma fonte de problemas.
A Comissão propõe para sede do encontro a aldeia de El Retiro, no Vale do Cauca. Uma área de 180 km 2 seria previamente desmilitarizada e a fiscalização das negociações ficaria a cargo de 30 a 40 observadores estrangeiros e da Cruz Vermelha Internacional.
As questões logísticas e de segurança são prioritárias para as FARC que exigem a retirada de todas as forças militares e militarizadas dos municípios de Florida e Pradera.
As posições das partes são, como se esperava, muito diferentes e, na aparência, inconciliáveis.

Proposta troca de prisioneiros

O comandante Raul Reyes, do Secretariado das FARC e seu principal negociador, sintetiza em poucas palavra a proposta da organização revolucionária:
«Trata-se de libertar a totalidade dos prisioneiros das FARC, entre os quais Dona Ingrid Betancur (a franco-colombiana, ex-candidata à presidência), dezenas de comandantes militares e da polícia, os 12 deputados do Vale do Cauca, outros parlamentares, vários políticos e os três mercenários estadounidenses capturados após o derrubamento pela artilharia guerrilheira do avião em que sobrevoavam o nosso solo pátrio, fazendo espionagem (…) Em contrapartida esperamos do governo a libertação do total dos nossos guerrilheiros presos, no momento da assinatura do acordo, não interessando o lugar onde se encontram».
Os guerrilheiros cuja libertação é exigida são cerca de 500. Mas não é o seu número que dificultará um acordo, se as negociações tiverem início. O que preocupa Uribe e Washington é o facto de dois destacados dirigentes das FARC se encontraram em presídios dos EUA para onde foram extraditados: os comandantes Simon Trinidad e Sónia. Outro preso cuja libertação é obviamente exigida, o comandante Rodrigo Granda, responsável pelas Relações Internacionais das FARC, foi sequestrado em Dezembro de 2004 na Venezuela em acção pirata que suscitou escândalo mundial.
Álvaro Uribe avaliou mal as consequências da sua manobra ao manifestar-se finalmente aberto a negociações para troca de prisioneiros.
As derrotas militares de Dezembro acentuaram o mal-estar no Exército. Milhões de cidadãos exigem uma política orientada para o diálogo com as FARC, uma política de paz.
Segundo a última sondagem do ano, mais de 70% dos colombianos é favorável à troca de prisioneiros.


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