Resistência sobe de tom
Os primeiros resultados das eleições do passado dia 15 no Iraque avolumaram a onda de contestação popular. Governo e ocupantes são acusados de fraude.
Milhares de pessoas marcharam nas ruas da capital e em outras cidades do norte do Iraque
As manifestações contra a legitimidade do escrutínio sucedem-se, e nem as declarações de Donald Rumsfeld e Tony Blair em visitas relâmpago ao território – este último em trânsito para uns dias de férias na estância balnear de Sharm el-Sheik, no Egipto – conseguem fazer crer que as eleições trouxeram democracia e liberdade à esmagadora maioria dos iraquianos.
Na terça-feira, centenas de pessoas juntaram-se na zona Oeste de Bagdad para denunciar as irregularidades. A convocatória para os protestos foi do Congresso para a Rejeição das Eleições Falsificadas, estrutura que agrupa mais de 40 formações políticas que se dizem prejudicadas pelo sufrágio.
A mesma organização previa nova manifestação para o dia de ontem, dando seguimento a uma semana de mobilização a favor da repetição do sufrágio.
A iniciativa mais significativa ocorreu na sexta-feira da semana passada, quando milhares de pessoas marcharam nas ruas da capital e em outras cidades do norte do Iraque exigindo que se investiguem as centenas de queixas de fraude e violações eleitorais.
Combates vincam repúdio
Apesar das reacções do governo e da Comissão Eleitoral (CE) indicarem alguma desorientação em face dos protestos em massa, as autoridades não ficaram de braços cruzados e optaram por tentar calar a voz a quem se insurge contra a ocupação do Iraque e a possível divisão do país.
Na cidade de Mossul, no Norte, o sequestro e posterior assassinato de um activista estudantil que protestava contra os resultados anunciados pela CE fez aumentar o nível de contestação popular até à ira. O jovem foi encontrado com as mãos atadas atrás das costas e, segundo fonte hospitalar, o corpo apresentava-se cravejado de balas como se de uma execução se tratasse.
Perante o repúdio generalizado prosseguem as operações militares visando a aniquilação das bolsas da resistência, com particular incidência em el-Anbar e Fallujah. Em resposta, grupos armados multiplicam os ataques, tornando o dia-a-dia dos invasores num autêntico inferno.
No domingo, enquanto decorria uma manifestação em Bagdad, três patrulhas dos exércitos iraquiano e norte-americano foram atacadas e duas outras bombas explodiram junto a instalações policiais. As explosões direccionadas contra autoridades e ocupantes não se ficaram apenas pela capital. No mesmo dia, o quartel de Mahmudiya, no Sul, foi atacado à morteirada. Kirkuk e Mossul, no Norte, foram palco de incidentes semelhantes.
A produção de petróleo também tem sido afectada pela violência crescente no território. Apesar de guardados pelo exército, por mercenários e seguranças privados, e por milícias pertencentes a grupos políticos interessados na divisão do principal recurso natural do país com os EUA, os oleodutos não escapam aos ataques da resistência.
Esta segunda-feira, um dos oleodutos da refinaria de Baiji, a Norte de Bagdad, foi alvo de uma acção de sabotagem que provocou danos consideráveis e um violento incêndio nas instalações.
Prisioneiros e religiosos protestam
Entretanto, a Associação de Ulemas Muçulmanos do Iraque (AUMI) informou, segunda-feira, que dois líderes religiosos sunitas foram raptados pelo exército dos EUA em Fallujah e Bagdad.
A AUMI considerou o acto de «terrorista» e exigiu a imediata libertação dos dois indivíduos, cujo paradeiro e natureza das acusações que motivaram a sua detenção ainda se encontram por explicar.
As prisões arbitrárias e a ausência de qualquer tipo de acusação formalizada no acto da detenção são práticas comuns no Iraque. Os estabelecimento prisionais encontram-se em ruptura de condições, factor que juntamente com o prolongamento do cativeiro sem fundamentação legal levam à sucessão de protestos no interior das cadeias.
Na véspera de Natal, o jornal britânico The Guardian assegurou que em Shaiba os detidos entraram em greve de fome. O comando britânico esclareceu que a situação já estava controlada e, não fosse a informação divulgar mais um caso incómodo, adiantou que «tudo foi resolvido com um mínimo uso da força».
Ocupação cada vez mais cara
Perante este cenário, não é de estranhar que diversos países – esta semana foi a Ucrânia – comecem a fazer regressar as suas tropas estacionadas no Iraque. Mesmo os EUA e a Grã-Bretanha anunciam uma provável redução nos seus contingentes, mas a medida não passa de propaganda natalícia, pelo menos a julgar pelo orçamento recorde aprovado a semana passada pela Câmara dos Representantes. Washington contemplou, para 2006, um aumento das despesas militares na ordem dos 12,3 mil milhões de dólares, isto sem contar com os cerca de 50 mil milhões de dólares inscritos no documento destinados a sustentar as campanhas no Afeganistão e Iraque.
Contudo, os custos da guerra não se contam apenas em milhões de dólares, mas também em vidas. Desde o início da campanha militar regular, em Março de 2003, já morreram no Iraque mais de 2200 soldados dos EUA.
A estes juntam-se dezenas de milhares de vítimas civis iraquianas, razão pela qual uma sondagem recente da cadeia de televisão ABC afirmava que mais de dois terços da população do Iraque defende a desocupação do país.
A contundência dos números obrigou mesmo o comando militar norte-americanos a admitir numa entrevista que o povo os quer fora do Iraque «o mais rápido possível».
Na terça-feira, centenas de pessoas juntaram-se na zona Oeste de Bagdad para denunciar as irregularidades. A convocatória para os protestos foi do Congresso para a Rejeição das Eleições Falsificadas, estrutura que agrupa mais de 40 formações políticas que se dizem prejudicadas pelo sufrágio.
A mesma organização previa nova manifestação para o dia de ontem, dando seguimento a uma semana de mobilização a favor da repetição do sufrágio.
A iniciativa mais significativa ocorreu na sexta-feira da semana passada, quando milhares de pessoas marcharam nas ruas da capital e em outras cidades do norte do Iraque exigindo que se investiguem as centenas de queixas de fraude e violações eleitorais.
Combates vincam repúdio
Apesar das reacções do governo e da Comissão Eleitoral (CE) indicarem alguma desorientação em face dos protestos em massa, as autoridades não ficaram de braços cruzados e optaram por tentar calar a voz a quem se insurge contra a ocupação do Iraque e a possível divisão do país.
Na cidade de Mossul, no Norte, o sequestro e posterior assassinato de um activista estudantil que protestava contra os resultados anunciados pela CE fez aumentar o nível de contestação popular até à ira. O jovem foi encontrado com as mãos atadas atrás das costas e, segundo fonte hospitalar, o corpo apresentava-se cravejado de balas como se de uma execução se tratasse.
Perante o repúdio generalizado prosseguem as operações militares visando a aniquilação das bolsas da resistência, com particular incidência em el-Anbar e Fallujah. Em resposta, grupos armados multiplicam os ataques, tornando o dia-a-dia dos invasores num autêntico inferno.
No domingo, enquanto decorria uma manifestação em Bagdad, três patrulhas dos exércitos iraquiano e norte-americano foram atacadas e duas outras bombas explodiram junto a instalações policiais. As explosões direccionadas contra autoridades e ocupantes não se ficaram apenas pela capital. No mesmo dia, o quartel de Mahmudiya, no Sul, foi atacado à morteirada. Kirkuk e Mossul, no Norte, foram palco de incidentes semelhantes.
A produção de petróleo também tem sido afectada pela violência crescente no território. Apesar de guardados pelo exército, por mercenários e seguranças privados, e por milícias pertencentes a grupos políticos interessados na divisão do principal recurso natural do país com os EUA, os oleodutos não escapam aos ataques da resistência.
Esta segunda-feira, um dos oleodutos da refinaria de Baiji, a Norte de Bagdad, foi alvo de uma acção de sabotagem que provocou danos consideráveis e um violento incêndio nas instalações.
Prisioneiros e religiosos protestam
Entretanto, a Associação de Ulemas Muçulmanos do Iraque (AUMI) informou, segunda-feira, que dois líderes religiosos sunitas foram raptados pelo exército dos EUA em Fallujah e Bagdad.
A AUMI considerou o acto de «terrorista» e exigiu a imediata libertação dos dois indivíduos, cujo paradeiro e natureza das acusações que motivaram a sua detenção ainda se encontram por explicar.
As prisões arbitrárias e a ausência de qualquer tipo de acusação formalizada no acto da detenção são práticas comuns no Iraque. Os estabelecimento prisionais encontram-se em ruptura de condições, factor que juntamente com o prolongamento do cativeiro sem fundamentação legal levam à sucessão de protestos no interior das cadeias.
Na véspera de Natal, o jornal britânico The Guardian assegurou que em Shaiba os detidos entraram em greve de fome. O comando britânico esclareceu que a situação já estava controlada e, não fosse a informação divulgar mais um caso incómodo, adiantou que «tudo foi resolvido com um mínimo uso da força».
Ocupação cada vez mais cara
Perante este cenário, não é de estranhar que diversos países – esta semana foi a Ucrânia – comecem a fazer regressar as suas tropas estacionadas no Iraque. Mesmo os EUA e a Grã-Bretanha anunciam uma provável redução nos seus contingentes, mas a medida não passa de propaganda natalícia, pelo menos a julgar pelo orçamento recorde aprovado a semana passada pela Câmara dos Representantes. Washington contemplou, para 2006, um aumento das despesas militares na ordem dos 12,3 mil milhões de dólares, isto sem contar com os cerca de 50 mil milhões de dólares inscritos no documento destinados a sustentar as campanhas no Afeganistão e Iraque.
Contudo, os custos da guerra não se contam apenas em milhões de dólares, mas também em vidas. Desde o início da campanha militar regular, em Março de 2003, já morreram no Iraque mais de 2200 soldados dos EUA.
A estes juntam-se dezenas de milhares de vítimas civis iraquianas, razão pela qual uma sondagem recente da cadeia de televisão ABC afirmava que mais de dois terços da população do Iraque defende a desocupação do país.
A contundência dos números obrigou mesmo o comando militar norte-americanos a admitir numa entrevista que o povo os quer fora do Iraque «o mais rápido possível».