Comentário

Um ano de lutas

Na União Europeia (UE), este último ano foi marcado por importantes vitórias mas igualmente recuos consideráveis no plano dos direitos e conquistas dos trabalhadores e dos povos. Acentuaram-se desigualdades entre países, foram feitos avanços na militarização da UE, na política de ingerência e na destruição de sectores produtivos nacionais.
Por outro lado, o ano de 2005 lega-nos importantes perspectivas de luta e de sucesso no desenvolvimento e aprofundamento da luta de massas e na sua expressão institucional através da acção das forças progressistas e revolucionárias mais consequentes.
Revisitando os acontecimentos políticos centrais fazemos uma primeira paragem no debate sobre a chamada «constituição europeia» que conduziu à vitória do «Não» em França e na Holanda, cujos povos rejeitaram claramente a constitucionalização da UE, do neoliberalismo, da militarização e do reforço do directório das grandes potências.
Ao mesmo tempo, no plano nacional, PS e PSD apressaram-se a efectuar a revisão da Constituição Portuguesa, subalternizando o direito nacional ao direito comunitário e hipotecando gravemente mais uma vez a soberania nacional.
Apresentado como a panaceia para todos os males (entenda-se a crise agonizante que o capital atravessa) e elo que uniria e apaziguaria as contradições insanáveis existentes na UE, o tratado constitucional está morto, facto que é admitido que até pelos seus maiores defensores.
Porém, isso não significa que o grande capital tenha desistido da sua ofensiva. Pelo contrário, em simultâneo com o avanço das políticas concretas, está em marcha uma poderosa campanha de propaganda («Plano D»), que procura ganhar as opiniões públicas para a necessidade e inevitabilidade das grandes orientações neoliberais consagradas no projecto de tratado.
Contudo, a recente luta contra o Tratado Constitucional demonstrou que, através do esclarecimento e da mobilização, é possível vencer batalhas decisivas para o futuro dos povos.

A «estratégia» do capital

Questão central neste ano foi igualmente a revisão da Estratégia de Lisboa, nome que lhe advém da sua aprovação em 2000, na capital portuguesa, durante a presidência da UE liderada pelo então governo do PS de António Guterres.
A «nova» abordagem desta autêntica agenda do capital reforçou os traços mais negativos da proposta original, nomeadamente as privatizações e a desregulamentação das relações laborais, subordinando-lhe igualmente os Fundos Estruturais e atirando às urtigas de forma definitiva a coesão económica e social. As baterias ficaram ainda mais apontadas para a sacrossanta competitividade concorrencial, assegurando-se o lucro das multinacionais privados através do financiamento público aos projectos privados (parcerias público-privado).
Mais recentemente foram aprovadas pelo Conselho Europeu as Perspectivas Financeiras para 2007-2013, onde se definem as prioridades políticas e os recursos a afectar para os próximos sete anos. Também aqui são acentuadas as orientações neoliberais, a política securitária e militarista de ingerência na soberania dos países, reduzindo-se o apoio à actividade produtiva, designadamente na agricultura e nas pescas.

Portugal mais atrasado

Em 2005, voltou a aprofundar-se a divergência de Portugal face a uma UE a quinze, derrapagem que se iniciou com a adesão ao euro. Utilizando os mesmos argumentos do anterior executivo do PSD/CDS, o Governo PS continuou a evocar o Pacto de Estabilidade para impor uma política orçamental restritiva do investimento público e do desenvolvimento nacional.
Foi o ano da aplicação da revisão da PAC de 2003 e do Regime de Pagamento Único; do início da reforma do sector do açúcar.
Foi o ano em que a Comissão Europeia assobiou para o lado, fazendo vista grossa às empresas que se deslocalizaram, lançando milhares para o desemprego depois de terem recebido avultados apoios comunitários.
Foi o ano em que a Comissão Europeia, presidida por Durão Barroso, se recusou a accionar as cláusulas de salvaguarda previstas nos acordos da OMC para o sector têxtil. Foi o ano em que se continuou a insistir na directiva do tempo de trabalho e na desregulamentação laboral.
O início do ano de 2006 perspectiva-se ensombrado desde já pelo agendamento da votação no plenário no Parlamento Europeu do relatório sobre a «Directiva Bolkestein» (criação de um mercado interno de serviços).
Só a luta dos trabalhadores e das populações poderá travar este gravíssimo ataque aos direitos laborais e sociais do povos. E esta luta tem hoje amplas possibilidades de sucesso.


Mais artigos de: Europa

Secreta britânica sabotou autonomia

Depois do arquivamento do processo de «espionagem» contra três membros do Sinn Fein no Parlamento de Stormont, em Belfast, um dos ilibados revelou que, afinal, sempre era um espião só que a soldo dos britânicos...

Agentes da CIA procuram-se

A justiça italiana acusou um militar americano de homicídio voluntário e emitiu mandados europeus de captura contra 22 agentes da CIA suspeitos de rapto de um íman egípcio.

Governo quer desempregados nos campos

O novo governo alemão, liderado pela conservadora Angela Merkel, pretende encorajar os cerca de cinco milhões de desempregados a aceitar trabalhos sazonais nos campos agrícolas.Numa tentativa de fazer baixar a taxa de desemprego que afecta 11 por cento da população, o ministro do Trabalho e vice-chanceler social...

França aumenta venda de armas

A França registou em 2004 uma forte subida na exportação de armas, cujo valor ascendeu a 7,12 mil milhões de euros, segundo anunciou, dia 20, o Ministério da Defesa.No ano anterior, o montante global deste tipo de comércio tinha representado apenas 4,390 mil milhões. Os «produtos» com maior peso são os helicópteros,...

UE perde apoio

O inquérito semestral do Eurobarómetro, efectuado entre a vitória do Não nos referendos sobre o «tratado constitucional», em França e na Holanda, e o acordo alcançado este mês sobre as perspectivas financeiras, revela uma quebra sensível da confiança dos cidadãos na União Europeia.Apenas metade dos inquiridos considera a...

Solidariedade com sindicalista

Numerosos sindicalistas, activistas associativos e eleitos locais manifestaram-se, no dia 17, frente ao escritório da TAP, no aeroporto de Orly, (Paris), protestando contra o despedimento injusto da delegada da CGT, Anabela Rodrigues, pela companhia aérea portuguesa.Durante a acção, foram distribuídos comunicados a...