Está nas nossas mãos

Albano Nunes (Membro da Comissão Política)
Neste início de Dezembro quando se avizinham dias que todos gostaríamos que fossem realmente festivos, a grande maioria dos portugueses vive tempos de grandes dificuldades.
De facto, o quotidiano dos portugueses é profundamente marcado pelo desemprego e a precariedade das relações laborais, pelo alastramento da pobreza, pela quebra de salários e rendimentos e pensões de miséria, pelo aumento do custo de vida, pelo endividamento das famílias, pela crescente amputação de direitos sociais básicos que a Constituição consagra, pela incerteza no dia de amanhã. O marasmo económico e a retracção do mercado são inseparáveis desta situação de carência e empobrecimento das grandes massas e é evidente que sem o aumento da procura interna não será possível reanimar a economia e ultrapassar a situação de estagnação em que o país foi mergulhado por dezenas de anos de políticas anti-populares e de submissão nacional. Mas para que isso aconteça é necessário romper com a expressão portuguesa das políticas neoliberais que desde os anos oitenta comandam a dinâmica do sistema capitalista, é necessário travar e derrotar a gula insaciável dos grandes grupos económico financeiros, é necessário impedir que os banqueiros tomem conta dos nossos destinos.
Aquilo a que nestes dias assistimos com uma publicidade avassaladora e agressiva da Banca, tanto na caça à poupança (nomeadamente em nome de reformas que competiria à Segurança Social assegurar), como no convite ao endividamento (enquanto o BCE aumenta a taxa de desconto), roça o demencial. Mas o que mais importa assinalar do ponto de vista político é que ela é produto de um acelerado processo de centralização e concentração do capital, a começar pelo capital bancário com os lucros colossais que o acompanham e traduz a acentuação do carácter parasitário do capitalismo, um sistema que para subsistir necessita de mercantilizar todas as esferas da vida social e empobrecer as grandes massas. Um sistema que, levando a um nível inaudito a polarização da riqueza, restringe constantemente a sua própria base social de apoio, só podendo manter-se pela força, com a privação dos direitos democráticos no plano interno de cada país, e a guerra de agressão e ocupação no plano externo.

Capitalismo vive
crise insuperável


É assim que, sem escamotear as pesadas responsabilidades de sucessivos governos do PS, PSD e CDS, as dificuldades que os portugueses hoje enfrentam em vésperas das tradicionais festividades, se inserem na realidade mais ampla do capitalismo internacional. Realidade à qual querem amarrar Portugal de pés e mãos, pois é esse o interesse do grande capital nativo, historicamente ligado e subordinado ao capital estrangeiro. Realidade que temos de ter presente na nossa intervenção sem que isso signifique a menorização da luta no plano nacional, a qual aliás sempre consideramos o nosso primeiro dever internacionalista.
É por isso que conferências de partidos comunistas e operários como aquela em que o PCP recentemente participou em Atenas, se revestem de grande importância como espaço de troca de experiências e procura da acção comum. Ela não só confirmou que o capitalismo vive uma crise insuperável no quadro do sistema, como mostrou que existem em todos os continentes forças portadoras da alternativa necessária, o socialismo. Mostrou também que, recuperando dos golpes sofridos nos anos 80 e 90, os partidos comunistas estão a reassumir na prática a posição de vanguarda que lhes compete no processo de luta dos trabalhadores e dos povos. Luta que, com avanços e recuos, tende a alargar-se e intensificar-se por todo o mundo. E que, nem a tentativa fascizante de assimilar «terrorismo» com resistência e luta libertadora, nem as perseguições de que os comunistas são alvo em numerosos países e campanhas sistemáticas para denegrir a sua história – como aquela a que mais uma vez recentemente assistimos contra o PCP pela mão de conhecido corifeu da reacção – conseguirão deter. A palavra de ordem da candidatura do camarada Jerónimo de Sousa, «Determinação e Confiança», não é apenas ajustada à importantíssima batalha imediata das eleições presidenciais, é justíssima quanto à intervenção geral do Partido. O destino dos portugueses está nas suas próprias mãos, depende da sua determinação e da sua confiança na própria luta.


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