Confissões sinistras (I)

Pedro Campos
Esteve durante sete semanas consecutivas na lista dos livros mais vendidos do New York Times. Cento e setenta mil exemplares desapareceram das livrarias num abrir e fechar de olhos. O Boston Herald disse que era «deslumbrante». O Library Journal, que se lia «como um romance de espionagem... altamente recomendado». Trata-se de «Confessions of an Economic Hit Man», ainda não vertido para o português, mas que se poderia traduzir como «Confissões de um Sicário Económico». O autor é John Perkins, um executivo de topo, que «era» um respeitado membro da comunidade financeira internacional. O pretérito imperfeito deve-se a que em Confessions... define com enorme precisão que os sicários económicos «são profissionais muito bem pagos (pelas multinacionais mas ao serviço dos poderes mais sinistros do Império) que enganam países de todo o mundo em triliões de dólares. As suas ferramentas são relatórios
financeiros fraudulentos, eleições manipuladas, recompensas, extorsões, sexo e
assassinatos».
O livro esteve para sair nos anos noventa mas só apareceu recentemente porque o autor recebeu um suborno de meio milhão de dólares para o não publicar.
Realmente, afirma Perkins, não foi um suborno: «pagaram-me como consultor» (...) não teria que fazer muito trabalho, simplesmente não escrever este livro, que, nesse momento, se chamava «A Consciência de um sicário económico». O meio milhão saiu dos cofres de Stone Webster, uma empresa construtora, mas poderia ter partido da Halliburton, da Betchel ou de qualquer outra grande corporação.
Se não se entende com clareza o que é um «sicário económico», o autor explica. «O que nos ensinaram a fazer é reforçar o império estado-unidense. Criar situações nas quais o máximo de recursos naturais chegue a este país, às nossas corporações e ao nosso governo», e de facto tivemos muito sucesso. Construímos o maior império da história. Isto foi conseguido nos últimos 50 anos (...) com muito pouca intervenção militar. É só em casos como o do Iraque que o militar entra como último recurso».

Só os «melhores» são escolhidos

Logo a seguir à II Guerra Mundial, os encarregados destes «trabalhos» eram homens ligados à CIA, como por exemplo Kermit Roosevelt, neto de Teddy, que foi «homem do ano» da revista Time, muito provavelmente por ter derrubado o governo de Mossadegh (Irão) e tê-lo substituído pelo Xá. O «netinho» teve sucesso, mas se tivesse sido apanhado com as mãos na massa teria sido um sarilho porque aquilo não era «politicamente correcto». É então quando surde a necessidade de criar os «sicários económicos» e deixar a CIA e a NSA para quando não há mais alternativa...
John Perkins, que trabalhou para Chas T. Main, de Boston, Massachussets, onde chefiava um grupo de meia centena de economistas, conta que foi recrutado nos anos sessenta, quando ainda estava na universidade, pela National Security Agency (Agência Nacional de Segurança), a «maior e menos conhecida das organizações de espionagem» dos Estados Unidos. Yale e Harvard, entre outras casas de estudo, são as que fornecem a matéria-prima para a transformação de jovens academicamente brilhantes em «sicários económicos».
Nesta leitura a não perder, Perkins conta que a função destes «sicários económicos» é emprestar dinheiro, quantidades enormes de dinheiro a países que depois não o podem pagar. Uma espécie de «fundo perdido», diríamos... Uma das condições para esta «generosidade» é que esse dinheiro – fala-se geralmente de milhares de milhões – seja utilizado em 90% em grandes projectos de sistemas de energia eléctrica ou portos ou aeroportos ou outras obras de infra-estrutura, que deverão ser construídos por empresas
norte-americanas. O dinheiro sai dos Estados Unidos e regressa rapidamente ao ponto de partida com juros tão leoninos que deixam o país «beneficiário» hipotecado de por vida, económica e politicamente.
Tome-se o caso do Equador. O autor recorda-nos que este país latino-americano «deve hoje dedicar mais de 50% do seu orçamento nacional só para pagar a dívida. E não o pode fazer. Temo-lo agarrado pelo pescoço. Então, quando queremos mais petróleo, vamos ao Equador e dizemos: “Olhem, vocês não podem pagar a dívida, entreguem então os vossos bosques amazónicos, que estão cheios de petróleo, às nossas companhias petrolíferas, e assim entramos e destroçamos a Amazónia, obrigando o Equador a que nos entregue essa zona porque acumulou uma dívida imensa».


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