Uma afronta à dignidade humana

Rui Paz

O imperialismo está a tentar impor a globalização da tortura

As revelações sobre a prática sistemática da tortura pelos Estados Unidos e pelos seus aliados não impediram a Alemanha de prolongar a missão militar da Bundeswehr e da unidade especial KSK que no Afeganistão, juntamente com o exército norte-americano executam operações ilegais de liquidação física dos adversários de Karzai, no quadro da «paz duradoura». O mais correcto seria chamar-lhe «paz dos cemitérios». Depois da globalização da pobreza e da miséria, da exploração e da guerra, o imperialismo está a tentar impor a globalização da tortura. Não existe uma única agressão ou ocupação militar sem massacres e cruéis violações dos princípios civilizacionais em nome dos quais as potências capitalistas afirmam desencadear a guerra. Veja-se o que aconteceu em Fallujah, a Guernica de hoje, e continua a acontecer noutras localidades iraquianas. Abu Ghraib não é uma criação do nosso tempo, mas a mentira da propaganda imperialista nunca foi tão flagrante ao pregar as guerras «humanitárias» quando o seu verdadeiro objectivo é a destruição dos estados, o sofrimento, a tortura e a subjugação dos povos.

No momento em que o actual sistema de tortura global dos Estados Unidos e dos seus aliados começa a ser desvendado, convém relembrar que não estamos em presença de um fenómeno novo da política externa norte-americana, mas sim do retomar dos seus métodos tradicionais. Quando em 1974 o levantamento militar e popular do 25 de Abril pôs fim ao regime fascista em Portugal e às guerras coloniais em África, o mundo não queria acreditar que num Estado, fiel membro da NATO, onde durante meio século reinara o fascismo, ainda existissem militares capazes de libertar o povo da guerra e da opressão. Tanto mais que, poucos meses antes, as forças armadas chilenas apoiadas pelo Estados Unidos acabavam de assassinar o presidente eleito Salvador Allende, de bombardear o palácio de La Moneda e de mergulhar o Chile numa sangrenta ditadura. Na altura, a imagem dos militares dos países capitalistas era a de um corpo reaccionário sustentáculo de regimes de terror, manipulado pelas grandes potências para subjugar os seus povos. Ao longo de toda a segunda metade do século XX, sucessivas administrações norte-americanas, através de uma ligação íntima com as elites militares de numerosos estados, utilizaram as respectivas forças armadas para liquidarem movimentos democráticos sempre que os povos se revoltavam contra regimes corruptos.

O que se passa hoje no Afeganistão e noutros pontos do globo faz parte integrante da natureza brutal e agressiva do imperialismo. O taxista Dilawar que, durante cinco dias, foi barbaramente torturado até à morte por 27 oficiais e soldados aliados em Bagram, soube antes de morrer que o verdadeiro inferno era a ocupação militar do Afeganistão pela NATO. O cidadão de cor canadiano Maher Arar raptado no aeroporto de Nova York pelo FBI e enviado para um centro de tortura no Médio Oriente, onde foi submetido a sofrimentos terríveis durante 10 meses e 10 dias sem que lhe tenha sido dada qualquer explicação, nunca mais terá dúvidas sobre os métodos e o modelo da «democracia» americana. O Imam Hassan Mustafa Nasr, raptado na Itália por 13 agentes da CIA quando em Fevereiro de 2003 se dirigia para a mesquita de Milão foi levado para a base alemã de Ramstein, tendo sido transportado depois para o Cairo onde desapareceu definitivamente. O Boeing norte-americano registado com o numero N313P que aterra regularmente na Polónia numa pista abandonada, transportando prisioneiros para Szymany onde está situado um dos vários centros de tortura que a CIA mantém no estrangeiro (Stern, 0.11.05), é a versão moderna dos esquadrões da morte dos generais torcionários latino-americanos dos anos setenta.
Osistema que gera tais métodos e monstros está gravemente doente. Considerá-lo o expoente máximo da «democracia», como apregoam os propagandistas do capitalismo, é uma afronta à dignidade humana.


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