«Privilégios»

Henrique Custódio
Se o anterior Governo da coligação de direita se atrevesse a declarar os funcionários públicos como «privilegiados», denegrindo assim, tão grosseiramente, um terço da população activa do País, assistiríamos a um reboliço tão gigantesco e previsível que, obviamente, nunca aconteceu.
Nesse reboliço teríamos, como de costume, o Partido Socialista a brandir os seus pergaminhos «de esquerda», como fez, por exemplo, quando o Governo PSD/PP apresentou o novo Código do Trabalho - que o PS na oposição rejeitou, altaneiro, denunciando-lhe os malefícios, para agora, no Governo, o aceitar tranquilamente.
Também como de costume, o PS chegou de novo ao poder «combatendo a direita» e fazendo promessas de esquerda para, mal se instalou na novidade da sua maioria absoluta, substituir o «discurso da tanga» usado pela direita pelo «discurso do privilegiado» inventado pelo Executivo de José Sócrates, para realizar o impensável: transformar os trabalhadores da Função Pública numa espécie de «bando de exploradores» que estariam na origem da «crise nacional».
Assim, de uma assentada, o Governo de José Sócrates pretenderá obter duas coisas: uma, levar o País e os seus trabalhadores em geral a aceitar este «nivelamento por baixo» imposto a todos pela descida abrupta de vários direitos dos funcionários públicos; outra, arrecadar muitos milhares de milhões de euros em cortes generalizados e maciços na Função Pública, cortando em tudo e em todos: nos salários, nas pensões, nas reformas, nos subsídios, nas comparticipações, nas carreiras, nas baixas, nas horas, nas férias, nos horários, nos contratos, nas garantias, nos medicamentos, na assistência, isto seja para professores ou maqueiros, juizes ou electricistas, médicos ou professores, militares ou polícias, oficiais de justiça ou trabalhadores da limpeza, escriturários ou contínuos, porteiros ou motoristas, etc. etc.
Tudo isto ao preço da difamação de um terço dos trabalhadores – sem os quais, obviamente, o País pura e simplesmente não funciona -, chamando-lhes «privilegiados» por ainda gozarem de alguns direitos socio-laborais, enquanto, vergonhosamente, não profere uma palavra, quanto mais um acto, contra os verdadeiros privilegiados desta governação, os detentores do poder e do dinheiro.
Portanto, mais uma vez o PS está a cumprir a sua missão: subir ao poder com discursos de esquerda para, já no poder, realizar a política de direita que nem esta, muitas vezes (como agora) se atreve a concretizar.
Assinale-se, entretanto, uma das notícias do dia: os lucros dos bancos subiram 191 milhões de euros nos últimos nove meses, o que corresponde a um aumento de 49,6 % em relação ao mesmo período do ano passado, confirmando, mais uma vez, este absurdo que se instalou tranquilamente no mundo financeiro: se os lucros se «limitarem» a ser iguais aos do ano anterior, a coisa já é vista como uma catástrofe, porque, neste momento, «lucros a sério» têm de aumentar todos os anos entre 50% e o dobro em comparação com o período anterior, isto para se ser... competitivo!
Como o Governo de José Sócrates nada diz ou faz em relação a estes indiscutíveis privilegiados, somos forçados a concluir que, para a maioria absoluta que actualmente governa o País, os únicos «privilegiados» em Portugal são mesmo os trabalhadores, a começar pelos que trabalham para o Estado, pois aí é mais fácil cortar-lhes nos salários e nos direitos.
E diz-se esta gente «socialista»...


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