Afeganistão

A farsa das eleições

Depois do bombardeamento e invasão do país por parte dos EUA, 12,5 milhões de afegãos foram chamados às urnas, domingo, num acto eleitoral confuso e incerto.

«São tantos os votos aleatórios que seria impossível fazer qualquer previsão»

As autoridades admitem que só no final de Outubro será possível apurar resultados definitivos e, para já, ninguém adianta projecções sobre possíveis vencedores e derrotados, até porque tal tarefa revela-se a todos os níveis impraticável.
«A confusão é tão grande e são tantos os votos aleatórios que seria impossível fazer qualquer previsão», revela Françoise Hostalier, observadora da OSCE, organização que monitorizou o sufrágio.
As razões da incerteza prendem-se desde logo com a baixa afluência às assembleias eleitorais. Contrariamente ao que esperava a ONU, menos de metade dos eleitores inscritos exerceram o seu direito de voto e, destes, muitos terão escolhido os candidatos sem qualquer possibilidade de estabelecer um critério.
Na capital, Cabul, mas também em outras cidades de forte concentração populacional, os eleitores confrontaram-se com cadernos eleitorais contendo sete páginas e fotos de mais de 400 candidatos. Acresce o facto de a população do Afeganistão, devastada por guerras civis e pela violência arbitrária de ocupantes e senhores da guerra, apresentar uma taxa de analfabetismo próxima dos 72 por cento.

Insegurança e intimidações

Em disputa, no domingo, estiveram os 249 assentos parlamentares e as 420 cadeiras das 34 assembleias provinciais do país.
Apesar do aparato militar montado em torno do sufrágio – envolvendo cerca de 40 mil polícias e soldados afegãos e mais de 30 mil marines norte-americanos – durante a campanha contabilizou-se a morte de 15 pessoas, sete das quais candidatavam-se a lugares de deputado no Wolesi Jirga, o parlamento afegão.
A Human Rights Watch afirmou existir «um clima de medo entre muitos candidatos e eleitores, especialmente nas zonas rurais mais remotas», que foram, aliás, as que registaram os piores indicadores de participação popular.
A provar que a segurança no país pouco passa dos portões dos acantonamentos militares, são os relatos e testemunhos de violência e pressões contados às dezenas. Ataques a esquadras de polícia e a residências de candidatos, mulheres pressionadas a depositarem confiança nos candidatos escolhidos pelos homens e intimidações feitas pelos senhores da guerra são alguns dos exemplos confirmados por participantes e observadores.
Os senhores da guerra controlam, aliás, parte do território e uma fatia considerável da produção agrícola do Afeganistão, por isso valeu tudo para conservar o discricionário poder tribal e, sobretudo, as rotas comerciais ligadas ao tráfico de ópio, estupefaciente que desde a invasão americana em 2001 regressou ao topo da cadeia de produção do país.

Velhos amigos da democracia

Um dos factores que mais contribui para avolumar a desconfiança sobre a democraticidade eleitoral no Afeganistão é a apresentação de candidaturas por parte de alguns dos mais influentes senhores da guerra.
Antes da campanha, a comissão eleitoral anulou cerca de três dezenas de candidaturas do género, mas a permanência de muitas outras levanta a questão: As queixas e impugnações levantadas não terão sido uma antecâmara da disputa entre milícias armadas concorrentes?
Informações avançadas por várias agências de notícias indicam que influentes personalidades da anterior cadeia de poder talibã concorreram nestas eleições defendendo o regresso de leis e normas próprias de uma teocracia.
Abdul Muttawakil, responsável pela pasta dos Negócios Estrangeiros até 2001, apresentou-se pelo círculo de Kandahar, e Abdul Savyaf, conhecido senhor da guerra, também não perdeu a oportunidade de garantir presença parlamentar.
Diversas organizações internacionais e de assistência humanitária acusam Savyaf de pilhagens, homicídios e violações desde que, em 1979, iniciou o combate contra o governo popular no Afeganistão. Na época, este senhor da guerra e os seus homens eram qualificados por Washington como «combatentes pela liberdade» e os apoios então prestados pelos EUA parecem, agora, voltar a encaixar na estratégia de partilha do poder e dos recursos do país.
Mesmo a participação de mulheres, quer como eleitoras quer como candidatas, pouco mais representa que uma fachada. A realidade é que os cerca de dez por cento de candidatos femininos não chegam para ocupar a totalidade dos cargos que lhes foram destinados no parlamento e nos órgãos provinciais, isto para além da esmagadora maioria destas ter recebido ameaças de morte, o que levou à desistência de meia centena de mulheres antes da ida às urnas.

Ocupação sem fim

Na semana antes das eleições, a questão da saída das tropas ocupantes voltou a ser colocada na agenda política do país.
Para esclarecer a situação, o embaixador norte-americano em Cabul revelou, em conferência de imprensa que «os EUA ainda não tomaram a decisão final sobre o número de soldados a manter no Afeganistão».
Ronald Neumann disse ainda que «se me perguntarem se o planeamento vai numa fase avançada, se a questão da redução de efectivos vai ser tratada de imediato, a resposta é que não», palavras que confirmam que a tutela norte-americana no país está para durar.
Só este ano morreram no país mais de um milhar de pessoas em resultado dos conflitos entre milícias, resistência armada e soldados estrangeiros, número muito superior ao verificado no ano anterior.
Os cerca de 26 milhões de afegãos continuam, quatro anos depois da ocupação, a viver num dos países mais inseguros e pobres do mundo, com uma esperança média de vida que não ultrapassa os 46 anos e um rendimento anual per capita a rondar os 164 euros.


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