O regresso do «homem do leme»

Jorge Cordeiro
Disse, dias atrás, o ex-ministro cavaquista Silva Peneda que as eleições presidenciais vão ser decididas «muito mais em função do passado dos candidatos do que em relação às promessas». Outras razões não houvesse, e bastaria a afirmação para ajuizar da justeza da decisão do PCP em avançar com candidato próprio. Cingíssemo-nos apenas ao passado, olhando para os candidatos ou quase candidatos que se vão perfilando, e não veríamos garantidas, aí, a presença e afirmação dos valores de esquerda e da exigência de um rumo diferente para a vida política do país. É esse papel insubstituível que só quem, como o PCP, desde sempre esteve com as principais conquistas de Abril e com a luta de resistência contra os que há mais de 28 anos as têm tentado destruir, está em condições de assumir. Não se vê aliás, conhecido o negro passado de Cavaco Silva, tanta razão de optimismo e confiança depositada nessa faceta da criatura. Descontadas os mais mediatizados momentos associados à gestão do tabu presidenciável de 1986 ou à deserção do governo e do PSD protagonizada por Cavaco Silva, o que a história passada dele guarda, é o seu papel no aprofundamento da ofensiva contra direitos e conquistas sociais — iniciada com os governos do PS, alguns dos quais presididos por Mário Soares, — e uma imagem de alguém autoritário e intolerante que os acontecimentos repressivos da ponte 25 de Abril impressivamente assinalam.
Pelo que o seu passado, por mais branqueado que alguns se esforcem por apresentar, não augura coisa boa no futuro. A estratégia que Cavaco Silva terá em construção, desvendada por um matutino, no sentido de um mandato presidencial marcado por «uma atitude de vigilância constante da governação» resumível à ideia de «um homem ao leme, apesar do sistema não ser presidencialista» não deixa de ser inquietante: primeiro, por já ter sido bastante a tormenta para o país e para os portugueses resultante de uma longa e penosa década com Cavaco Silva ao «leme» dos destinos nacionais; depois, porque mais do que «vigilância sobre a governação» o que seria desejável era ver assegurado na Presidência da Republica alguém que respeite e faça cumprir (incluindo aos governos) a Constituição, em particular as principais conquistas e direitos que ainda consagra. Condição que manifestamente não preenche; e por último, mas não menos importante, porque a ideia de um certo messianismo e homem providencial que lhe vem sendo associada comporta inquietantes elementos quanto ao próprio regime democrático e ao rumo da vida política nacional.


Mais artigos de: Opinião

Malabaristas

Nas hostes sionistas mais radicais alguém se lembrou de associar à recente retirada dos colonos de Gaza o Holocausto nazi. Embora condenada à partida, a encenação foi posta em marcha e vale como marca do nosso tempo. Não vemos, por exemplo, o presidente norte-americano impudentemente comparar a resistência iraquiana aos...

A «rentrée» do PS e a mistificação.

Há uns poucos anos que, no início de Setembro, se vive este momento de confronto entre conceitos e modos de estar e intervir na política bem distintos, que repercutem diferenças de classe essenciais na sociedade portuguesa.
Dum lado os que se colocam no terreno da «rentrée», da mistificação e da «marcação da agenda política», conforme os axiomas do «marketing» e dos «spin doctors» (doutores em manipulação), do outro os que fazem a Festa do Avante como espaço/tempo de alegria, de cultura, de intervenção e iniciativa política, num percurso de luta pela transformação social.

Justiça

Uma das frases-feitas que por aí cresceram nos últimos anos e que deixam muito boa gente perplexa, é aquela que diz assim: «Eu tenho confiança na Justiça».A confiança é feita de muitas convicções mas, seguramente, tem de ser ancorada em provas dadas, passada pelo crivo de uma experiência que põe de lado questões menores,...

Sequestrados

Sequestro, dizem os dicionários, significa «retenção ilegal de pessoas privando-as da liberdade, com objectivos políticos», «acto pelo qual, ilicitamente, se priva uma pessoa da sua liberdade, mantendo-a em local de onde não possa sair livremente» - e outras definições semelhantes que assentam todas que nem uma luva na...

Fronteiras da corrupção

Suscitou muita controvérsia, na comunicação social e nos meios da política dominante, a última entrevista do vereador do Urbanismo e vice-presidente da Câmara Municipal do Porto. À revista Visão disse na semana passada mais do que já tinha dito noutras ocasiões. Anteontem, no Departamento Central de Investigação e Acção...