De carrinho

Anabela Fino
De Janeiro a Junho deste ano venderam-se em Portugal 1600 descapotáveis, o que representa um aumento de 10 por cento relativamente ao mesmo período do ano passado. A informação consta do caderno de Economia do Ex­presso de 6 de Agosto, onde se recorda ainda que a comparação é feita com «o semestre do Euro 2004, que foi um pequeno oásis no deserto da nossa crise».
O curioso, para além da notícia em si, é que o facto de a mesma começar com uma asserção no mínimo insólita em páginas de especialidade económica: «A crise económica em que vivemos tem expressões que a razão desconhece», escreve o Ex­presso.
Vamos por partes. Salvo melhor opinião, não consta em nenhum manual de economia que a crise económica leve à compra de carros de luxo, que é justamente o sector onde se registou o maior crescimento, designadamente - e só para citar o exemplo mais espectacular - em relação aos cabriolés da Porsche, cujas vendas passaram de oito carros (no primeiro semestre de 2004) para 103 (no primeiro semestre deste ano), ou seja, um crescimento de 1287 por cento.
Daqui se infere, se a lógica não é uma batata, que a crise não chegou aos putativos compradores nacionais de descapotáveis. Assim sendo, importa também concluir que a crise não só não toca a todos da mesma maneira como nem sequer toca a todos, razão por que uns andam de tanga e outros de carrinho, diferença que está longe de ser despicienda.
Há que convir que entre o Zé Povinho e os novos proprietários dos 21 BMW Série 6 (€97 000), os compradores dos 63 Porsche Carrera (€134 300), os detentores dos dois Jaguar XK (€135 070) e o dono do único Ferrari descapotável (€214 250) - tal é a frota topo de gama entrada no país no que vai de ano -, há que convir, dizia, que entre estas duas partes do todo nacional há um abismo de tal monta que só não vê quem não quer.
Daí que, ao invés de escrever que «A crise económica em que vivemos tem expressões que a razão desconhece», o que o Ex­presso efectivamente quer dizer, mas não diz, é que a crise invocada por especialistas, economistas, comentaristas, governantes e outros ex­perts é fruto precisamente de uma política que, para uns andarem de carrinho, sem desprimor para as máquinas, exige que outros andem de corda na garganta.
Assim se explica, por exemplo, que o primeiro-ministro Sócrates, depois de ter pregado a crise e assinado de cruz as medidas restritivas do calvário nacional, não tenha tido o mínimo pudor em ir de safari para o Quénia, por ventura para apurar a técnica da caça aos gambozinos com que se propõe promover o desenvolvimento nacional.
Entre um tirinho e outro - da máquina digital, claro -, o nosso primeiro sempre há-de alinhavar mais um argumento para a campanha do «sacrifício de todos» para sair da crise e dar graças aos céus por haver tanto carro novo no país a precisar de quem lhe puxe o lustro, aspire o pó, alinhe a direcção, mude o óleo e tudo o mais que os brinquedos de luxo exigem, garantindo assim mais uns quantos postos de trabalho a abater às tais centenas de milhares prometidas pelo Governo PS.
Parafraseando o Ex­presso, no deserto da nossa crise é sempre a abrir.


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