O «arrastão» - factos e interrogações

Carlos Gonçalves
O indevidamente chamado «arrastão» de Carcavelos voltou à primeira página do «Expresso», porque o comandante da PSP de Lisboa reconheceu ter sido «pressionado» por «testemunhos de pessoas consideradas credíveis, algumas delas de órgãos de comunicação social», para dizer, num comunicado da PSP abundantemente noticiado, que «400 a 500» pessoas «constituídas em «gangs» (de «jovens negros») entraram na praia de Carcavelos e começaram a assaltar e agredir os banhistas». Ficou-se agora a saber que, em concreto, o referido oficial só dispunha de «informações» dum agente «que não soube consubstanciar exactamente o que tinha acontecido».
E, desde logo, daqui resultam questões concretas que só podem ser respondidas pelo Governo. Como foi possível um comunicado da PSP sem sustentação (e desconforme às mais elementares normas policiais aplicáveis)? Como foi possível que, apesar de ainda nesse dia a PSP ter sabido que eram apenas uns 40 ou 50 os envolvidos e só haver 2 queixas de furto, o «arrastão» não tenha sido desmentido pelo Governo? Porque é que o Governo preferiu cavalgar a onda mediática em reuniões com autarcas para falar das «medidas tomadas», em vez de evitar o alarmismo e a histeria xenófoba e defender o turismo nacional, posto em causa na BBC e etc.?
E ressaltam certos factos e coincidências da fileira dos acontecimentos. O inventado «arrastão» aconteceu a 10 de Junho (data ideal para provocar «nacionalistas»), a primeira notícia da Lusa, dum jornalista «acidentalmente no local», foi quase anterior aos factos e cheia de inverdades, e o «tsunami mediático» não foi confrontado com a realidade.
Os factos posteriores são conhecidos – uma onda de xenofobia da extrema direita institucional, do CDS e de A.J.Jardim, a manifestação racista e fascista dos skinheads, da Frente Nacional e da sua expressão «legalizada» o Partido Nacional Renovador, (e que em conformidade com a Lei devia ter sido proibida pelo Governo), a espectacularidade mediática dos grupos fascistas e o significativo surto da sua actividade e estruturação.
Hoje, em Portugal, há grandes interesses bem capazes de financiar e apoiar grupos fascistas, para os utilizar como instrumentos dos seus objectivos de rapina. E por isso se coloca a questão de saber quem e como montou e dirigiu esta «operação arrastão» e porque é que o Governo PS anda, ou faz que anda, a «dormir na forma».


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