A realidade ficcionada
Para além dos textos políticos e dos ensaios, e, ainda, dessa monumental tradução do Rei Lear, de Shakespear, cujos críticos consideram a melhor realizada até hoje e que constitui um verdadeiro «estudo» sobre a obra, dadas as numerosas notas que a acompanham visando uma melhor compreensão por parte do leitor, Álvaro Cunhal distingiu-se também como romancista.
São quase todas obras realizadas nos «intervalos» da actividade política - que, aliás, nunca abandonou. Publicadas todas após o 25 de Abril - logo em 1974 é editado o romance Até Amanhã, Camaradas. E todas elas sob o pseudónimo de Manuel Tiago - só revelando a autoria em final de 1994, quando o dirigente comunista já não desempenhava funções executivas na direcção do Partido e, na altura, alguém se preparava para anunciar que o pseudónimo pertenceriam a um escritor já falecido...
A modéstia terá levado Álvaro Cunhal a um tão longo segredo sobre a identidade que se cobria com o pseudónimo. Mas, certamente também, para que se não «confundisse» o dirigente com um autor literário, favorecendo este?
O certo é que, escrito o romance Até Amanhã Camaradas nos anos 50, quando Álvaro Cunhal se encontrava preso - dez longos anos de isolamento -, a obra traz à tona das páginas uma experiência vivida intensamente por uma geração de comunistas. Lido o livro, muitos dirão e persistem ainda hoje em dizer, que se trata de uma peça autobiográfica, chegando alguns a identificar o autor entre a vasta galeria de personagens. Vaz seria Álvaro Cunhal ele próprio, enquanto muitos outros seriam os retratos de heróis verdadeiros dessa saga. Ancorado na experiência vivida - qual o escritor que o não faz? - o livro é muito mais do que um relato e não quer ser autobiografia. Não se trata de um documento político, mas de muito mais do que isso, contando o empenhamento de um punhado de revolucionários cuja vida se não esgota na luta e nas dificuldades e perigos a que o fascismo os submete. É um panorama geral de um país, visto e vivido de um dos lados da barricada que se erguia entre exploradores e explorados. Lutadores pela liberdade, arriscando a vida para mudar o mundo, com um sonho a realizar.
Como em todo o neo-realismo de que este livro pode ser considerado um ponto alto, o herói é um grande colectivo de gente. E a gente, como raras vezes sucede nas obras literárias que exaltam uma luta, é gente tão verdadeira que nunca nos surge o herói perfeito, mas aquele com que o leitor pode identificar-se, com as suas fraquezas - uma vaidade aqui, uma teimosia, uma severidade desmedida, uma tentação sedutora, um espírito de aventura, um temor, uma cobardia.
Essa qualidade que permite ao autor ir ao fundo das pessoas e aos seus sonhos, que narra os sabores e os dissabores de uma vida, ela sim, de abnegação e de sacrifícios em nome de um ideal ao alcance da luta é que, provavelmente, dispõe o livro à leitura tão próxima que muitos daquela geração se reconhecem fazendo os mesmos caminhos e ferindo-se nos mesmos obstáculos.
Num trabalho de fôlego excepcionalmente bem feito e documentado, de João Céu e Silva, recentemente publicado pelo suplemento do Diário de Notícias - o DNA - pode ler-se: «O Até Amanhã Camaradas é o livro que mais marca a grande parte dos leitores da ficção de Manuel Tiago, a maioria militante do partido onde foi secretário-geral, porque resume a história de muitas vidas, dos pais ou de algum familiar ou amigo. Quando se fala dos outros livros, há sempre um comentário a propósito, mas é o Até Amanhã que impressiona mais os camaradas. Esta lá tudo, todos os factos que formaram a imagem de uma organização, reprimida política, social e culturalmente até chegar a liberdade com o 25 de Abril de 1974.»
É assim que nesse romance - com rara felicidade passado a série de televisão e, esperamos que em breve, a filme - a vida se mistura a um projecto que lançou raízes profundas na consciência de muitos milhares de camaradas e cujo exemplos, noutras circunstâncias, fazem com que novos militantes venham colmatar as perdas sofridas.
A comparação que João Céu e Silva faz de excertos do livro com os testemunhos reais de numerosos camaradas - António Gervásio, João Honrado, Joaquim Gomes, João Pinheiro, José Leão, dos mais destacados aos mais modestos militantes, mostra aquilo que Dias Lourenço aí diz: «O Até Amanhã, Camaradas é um livro em que todos nós nos encontramos, quando o escreveu agarrou nas manifestações pessoais e nas diversas lutas que se travaram. Às vezes coloca nos personagens coisas em que se revê, ou viu noutro companheiro. Ele fez um resumo vivo das lutas populares e dos seus participantes, que se vêem retratados em muitos dos personagens mas que nunca faz de qualquer um de nós um protagonista. Agarra nas experiências que vive e acompanha e acabamos por nos vermos aqui e acolá nas páginas do livro.»
É a experiência - transfigurada em literatura, carregando, portanto, o subjectivismo inerente à vida humana - que constitui o esteio mais forte da obra de Manuel Tiago. Não são histórias «inventadas» que nos conta, mas retiradas da vida que conheceu com particular profundidade ou que viveu com especial dramatismo e que, no trabalho literário, ficcional, recompõe para que a verosimilhança se não perca, antes ilumine a obra.
Uma novela de grande qualidade, entretanto, Cinco dias, cinco noites, extraída ainda do imenso manancial da experiência do autor, conta uma passagem clandestina de fronteira. Ao longo das páginas, em que o leitor se vai dando conta de que o caminho é áspero por entre as fragas e as noites, mas também arriscado pelos perigos que espreitam e se imaginam no mundo soturno e fascista de então, a novela, que encanta pela aventura que narra, é uma história de confronto entre duas personalidades, humana e culturalmente distintas - o jovem militante clandestino e o passador, amigo de contrabandistas, entre os quais nasce uma desconfiança que acaba numa consideração mútua e no respeito das diferenças entre ambos.
Outra novela, A Casa de Eulália, leva-nos até à Espanha da guerra civil, onde Álvaro Cunhal passou alguns meses em tarefa do partido e onde conheceu numerosos portugueses que combatiam pela República e a liberdade e contra o fascismo franquista. Aqui também, a humanidade das personagens supera a simples narração do facto histórico e abre ao leitor a perspectiva dos projectos que o autor perfilha, sem que eles se transformem num slogan ou numa tese e sua demonstração. A vida é o próprio cerne da obra literária de Álvaro Cunhal, que nos deixou ainda muitos outros contos e novelas.
A modéstia terá levado Álvaro Cunhal a um tão longo segredo sobre a identidade que se cobria com o pseudónimo. Mas, certamente também, para que se não «confundisse» o dirigente com um autor literário, favorecendo este?
O certo é que, escrito o romance Até Amanhã Camaradas nos anos 50, quando Álvaro Cunhal se encontrava preso - dez longos anos de isolamento -, a obra traz à tona das páginas uma experiência vivida intensamente por uma geração de comunistas. Lido o livro, muitos dirão e persistem ainda hoje em dizer, que se trata de uma peça autobiográfica, chegando alguns a identificar o autor entre a vasta galeria de personagens. Vaz seria Álvaro Cunhal ele próprio, enquanto muitos outros seriam os retratos de heróis verdadeiros dessa saga. Ancorado na experiência vivida - qual o escritor que o não faz? - o livro é muito mais do que um relato e não quer ser autobiografia. Não se trata de um documento político, mas de muito mais do que isso, contando o empenhamento de um punhado de revolucionários cuja vida se não esgota na luta e nas dificuldades e perigos a que o fascismo os submete. É um panorama geral de um país, visto e vivido de um dos lados da barricada que se erguia entre exploradores e explorados. Lutadores pela liberdade, arriscando a vida para mudar o mundo, com um sonho a realizar.
Como em todo o neo-realismo de que este livro pode ser considerado um ponto alto, o herói é um grande colectivo de gente. E a gente, como raras vezes sucede nas obras literárias que exaltam uma luta, é gente tão verdadeira que nunca nos surge o herói perfeito, mas aquele com que o leitor pode identificar-se, com as suas fraquezas - uma vaidade aqui, uma teimosia, uma severidade desmedida, uma tentação sedutora, um espírito de aventura, um temor, uma cobardia.
Essa qualidade que permite ao autor ir ao fundo das pessoas e aos seus sonhos, que narra os sabores e os dissabores de uma vida, ela sim, de abnegação e de sacrifícios em nome de um ideal ao alcance da luta é que, provavelmente, dispõe o livro à leitura tão próxima que muitos daquela geração se reconhecem fazendo os mesmos caminhos e ferindo-se nos mesmos obstáculos.
Num trabalho de fôlego excepcionalmente bem feito e documentado, de João Céu e Silva, recentemente publicado pelo suplemento do Diário de Notícias - o DNA - pode ler-se: «O Até Amanhã Camaradas é o livro que mais marca a grande parte dos leitores da ficção de Manuel Tiago, a maioria militante do partido onde foi secretário-geral, porque resume a história de muitas vidas, dos pais ou de algum familiar ou amigo. Quando se fala dos outros livros, há sempre um comentário a propósito, mas é o Até Amanhã que impressiona mais os camaradas. Esta lá tudo, todos os factos que formaram a imagem de uma organização, reprimida política, social e culturalmente até chegar a liberdade com o 25 de Abril de 1974.»
É assim que nesse romance - com rara felicidade passado a série de televisão e, esperamos que em breve, a filme - a vida se mistura a um projecto que lançou raízes profundas na consciência de muitos milhares de camaradas e cujo exemplos, noutras circunstâncias, fazem com que novos militantes venham colmatar as perdas sofridas.
A comparação que João Céu e Silva faz de excertos do livro com os testemunhos reais de numerosos camaradas - António Gervásio, João Honrado, Joaquim Gomes, João Pinheiro, José Leão, dos mais destacados aos mais modestos militantes, mostra aquilo que Dias Lourenço aí diz: «O Até Amanhã, Camaradas é um livro em que todos nós nos encontramos, quando o escreveu agarrou nas manifestações pessoais e nas diversas lutas que se travaram. Às vezes coloca nos personagens coisas em que se revê, ou viu noutro companheiro. Ele fez um resumo vivo das lutas populares e dos seus participantes, que se vêem retratados em muitos dos personagens mas que nunca faz de qualquer um de nós um protagonista. Agarra nas experiências que vive e acompanha e acabamos por nos vermos aqui e acolá nas páginas do livro.»
É a experiência - transfigurada em literatura, carregando, portanto, o subjectivismo inerente à vida humana - que constitui o esteio mais forte da obra de Manuel Tiago. Não são histórias «inventadas» que nos conta, mas retiradas da vida que conheceu com particular profundidade ou que viveu com especial dramatismo e que, no trabalho literário, ficcional, recompõe para que a verosimilhança se não perca, antes ilumine a obra.
Uma novela de grande qualidade, entretanto, Cinco dias, cinco noites, extraída ainda do imenso manancial da experiência do autor, conta uma passagem clandestina de fronteira. Ao longo das páginas, em que o leitor se vai dando conta de que o caminho é áspero por entre as fragas e as noites, mas também arriscado pelos perigos que espreitam e se imaginam no mundo soturno e fascista de então, a novela, que encanta pela aventura que narra, é uma história de confronto entre duas personalidades, humana e culturalmente distintas - o jovem militante clandestino e o passador, amigo de contrabandistas, entre os quais nasce uma desconfiança que acaba numa consideração mútua e no respeito das diferenças entre ambos.
Outra novela, A Casa de Eulália, leva-nos até à Espanha da guerra civil, onde Álvaro Cunhal passou alguns meses em tarefa do partido e onde conheceu numerosos portugueses que combatiam pela República e a liberdade e contra o fascismo franquista. Aqui também, a humanidade das personagens supera a simples narração do facto histórico e abre ao leitor a perspectiva dos projectos que o autor perfilha, sem que eles se transformem num slogan ou numa tese e sua demonstração. A vida é o próprio cerne da obra literária de Álvaro Cunhal, que nos deixou ainda muitos outros contos e novelas.