Os monstros

Anabela Fino
As comemorações do 60.º aniversário da derrota do nazi-fascismo ficaram assinaladas por uma das mais despudoradas tentativas de reescrever a História a que já foi dado assistir. Com pouca imaginação e muita subserviência aos ditames das centrais internacionais ditas de informação, a generalidade dos média abriu as suas páginas à propaganda do império americano e ao seu anticomunismo primário. A endrominação teve como objectivo fazer passar a mensagem – de forma subliminar ou abertamente – de que o terrível inimigo que a humanidade foi (e é) chamada a enfrentar não foi (nem é) o fascismo mas sim o comunismo.
O presidente norte-americano, George W. Bush, foi mesmo ao ponto de pedir desculpa por os EUA – esse paladino da liberdade que, como se sabe, embora se esconda, apenas entrou na guerra a tempo de colher os louros da vitória e quando se tornara já evidente que Hitler, derrotado na Rússia, tinha os dias contados –, não terem impedido a “maior catástrofe” que a Europa conheceu, ou seja, a expansão do domínio soviético.
Os milhões de mortos na guerra contra o nazismo, a destruição, a tortura, os campos de concentração pouco mais representam, na lógica do imperialismo e dos seus lacaios, do que um ligeiro inconveniente face a essa ameaça maior para os povos que é o comunismo.
Pelo mesmo diapasão alinham alguns plumitivos da nossa praça, como é o caso do director da Capital, Luís Osório, que anteontem dava conta dos seus temores quanto ao eventual «regresso da União Soviética». Reconhece LO que o «desmoronamento do monstro de Leste» não deu lugar a um mundo de paz e concórdia, mas o seu dedo acusador não se vira para as democracias ocidentais e para o sistema capitalista, antes insinua que a culpa cabe aos «monstros» que a queda dos muros libertou e andam por aí a fomentar o terrorismo. Escreve igualmente LO que Putin, Gorbachov, Brejnev e mesmo Estaline não são comunistas «na verdadeira acepção do termo», mas isso, assevera «não iliba o comunismo como prática política, sobretudo por ser uma carta de princípios contrária à lógica comportamental humana». Daí que haja todos os motivos para temer, diz, que o reaparecimento nas ruas de Moscovo, a 9 de Maio, das bandeiras vermelhas com a foice e o martelo seja «o início de uma das mais imprevistas ressurreições da história».
Que grandes democratas estes! Diabolizam o comunismo que lhes ameaça os privilégios de classe, absolvem o fascismo que lhes serve de seguro de vida e os outros é que são os «monstros». Seria descorçoante se não fosse pura e simplesmente degradante.


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