Coerência e surpresa
Nas suas Linhas direitas, Luís Delgado (LD), um dos mais fervorosos panegiristas da política de direita, embandeira em arco com a prestação de José Sócrates na apresentação do Programa do Governo. Muitas e fortes são as razões de tal entusiasmo, como adiante veremos. LD lança, mesmo, um alerta às suas hostes: «ou o centro-direita se prepara, e bem, para uma oposição» à maneira, «ou este primeiro-ministro, com o estilo que tem, e as medidas que quer pôr em prática, canibaliza o espaço natural do PSD e do PP» – pelo que, previne, ou estes dois partidos «se cuidam» ou ficarão «na oposição pelos ‘próximos séculos’». Segundo LD, Sócrates «enunciou incontáveis medidas urgentes e benéficas para o País». E o intrépido colunista da direita, não hesita, mesmo, em afirmar que, com este Programa, «este PM (ou seja, José Sócrates, secretário geral do PS) poderia estar muito bem no centro-direita (ou seja, no PSD ou no PP) porque a maioria das medidas que agora explicitou são tipicamente desse espectro político». E, sempre louvando a socrática prestação, aduz, didáctico: «a política, nesta alternância entre o PS e o PSD, não se faz através de diferenças ideológicas, mas no modo e no estilo como se abordam e enfrentam os problemas (…) e se garante, de uma forma prática e coerente, a execução governamental». Não se percebendo o que está ali a fazer aquele coerente, percebe-se, no entanto, o essencial da prosa de LD: ideologias, ideologias, política de direita à parte: descubra as diferenças entre a política do PS e a do PSD.
Escreve, ainda, LD, em prosa espantada, que o conteúdo do Programa do Governo do PS «foi uma grande surpresa». Terá sido? Para quem?
Na verdade, só por absoluta e total distracção, ou por ensaiada, encenada e representada farsa, é que é possível alguém surpreender-se pelo facto de o programa de um governo do PS (ou do PSD) ser, nas suas linhas essenciais, igual ao programa de um governo do PSD (ou do PS) – sempre assim foi, desde o longínquo governo PS, nascido no longínquo ano de 1976, presidido pelo dr. Mário Soares e iniciador da política contra-revolucionária de ajuste de contas com Abril.
Surpresa, sim, seria o Governo PS/José Sócrates – partido e líder que se afirmam de esquerda – pôr fim à política de direita praticada nos últimos vinte e nove anos e substitui-la por uma política de esquerda – e, aí sim, poderíamos, então, falar de coerência.
Escreve, ainda, LD, em prosa espantada, que o conteúdo do Programa do Governo do PS «foi uma grande surpresa». Terá sido? Para quem?
Na verdade, só por absoluta e total distracção, ou por ensaiada, encenada e representada farsa, é que é possível alguém surpreender-se pelo facto de o programa de um governo do PS (ou do PSD) ser, nas suas linhas essenciais, igual ao programa de um governo do PSD (ou do PS) – sempre assim foi, desde o longínquo governo PS, nascido no longínquo ano de 1976, presidido pelo dr. Mário Soares e iniciador da política contra-revolucionária de ajuste de contas com Abril.
Surpresa, sim, seria o Governo PS/José Sócrates – partido e líder que se afirmam de esquerda – pôr fim à política de direita praticada nos últimos vinte e nove anos e substitui-la por uma política de esquerda – e, aí sim, poderíamos, então, falar de coerência.