Regresso à CBS

Correia da Fonseca
Anda a informação que nos é prestada pelos quatro canais «clássicos»da televisão portuguesa muito entretida, se não enlevada, pelo chamado Caso Felgueiras que se sucedeu ao Caso Casa Pia no topo das notícias, isto é, no «critério jornalístico» que decide da sua prioridade e da extensão com que elas são abordadas. É óptimo que seja assim no entendimento de quem acha que mais vale que o bom povo português pense em tais casos do que andar a ralar-se com questões como o desemprego e o custo de vida, no quadro nacional, ou com a sementeira de ódios que a ocupação do Iraque pelos Estados Unidos (acolitados por britânicos, australianos, uma mão-cheia de polacos e uma pitada de portugueses) há-de suscitar, no quadro internacional. A quem se obstine na distinção obsoleta entre informação e faz-de-conta restará a busca em canais distribuídos por cabo, e de modo nenhum em todos eles, de dados que lhe digam com seriedade o que vai pelo mundo. E nem é preciso saber línguas estrangeiras para ter algum êxito: no SIC-Notícias continuam a surgir momentos interessantes e úteis, embora se saiba que é preciso usar de grandes cuidados quando pomos os pés, ou melhor, os olhos e os ouvidos, em terrenos que sempre poderão estar armadilhados e que, na verdade, muitas vezes o estão. Não é novidade para ninguém que a fronteira entre a liberdade de informação e a liberdade de falsificação é incerta e fluida, muitas vezes à mercê dos ventos, isto é, dos dólares.

É nestas circunstâncias que continuo a frequentar o SIC-Notícias e, aí, a tentar não perder a transmissão de programas onde por mais de uma vez já encontrei verdades fundamentais vindas de fontes pouco ou nada suspeitas. E, como já aqui registei, o caso do «60 Minutos», programa da cadeia norte-americana CBS. Quando a invasão do Iraque estava na sua máxima força, pareceu-me óbvio que o «60 Minutos», até ele, se deixara de contrariar as grandes verdades proclamadas ao mundo pela Administração Bush. Agora, como as coisas amainadas embora longe de decididas, resolvi ir espreitar como está o programa. Verifiquei que está melhor que durante esses dias de crise e de sangue. Que voltou a a valer a pena ouvir o que nos diz e partilhar com outros o resultado dessa diligência, para reflexão comum.

Nos bastidores da reconstrução

O «60 Minutos» mais recentemente transmitido no momento em que escrevo foi quadripartido, isto é, constituíram-no quatro reportagens/entrevistas realizadas por jornalistas da CBS na Síria, na Jordânia, nos Estados Unidos e de novo presumivelmente na Síria com um membro do Hasbollah. Acerca da Síria, há pouco tempo ainda ameaçada de um tratamento idêntico ao aplicado no Iraque, ficámos a saber do seu «défice democrático», mas também da ocupação por Israel de uma parte do seu território sem que as democracias ocidentais se importem com isso. Isto porque, segundo um anónimo cidadão sírio entrevistado na rua, «os Estados Unidos são um país enorme, mas quando lidam com Israel tornam-se pequeninos». Nem de propósito: na Jordânia, o rei Abdulah espera (ou diz esperar...) que os Estados «depois de libertarem os iraquianos, libertem os palestinianos». A última entrevista do programa, com um dirigente do Hasbollah, foi a mais breve, e só teve o interesse na sua condenação categórica de atentados como o de 11 de Setembro. E o fragmento mais interessante de todo o programa foi, sem dúvida e de longe, o rodado nos Estados Unidos tendo como tema de reportagem os fabulosos interesses comerciais do grupo de empresas de Dick Cheney, vice-presidente dos Estados Unidos, na reconstrução do Iraque destruído pelos Estados Unidos.

Dir-se-á que o caso não é novidade nenhuma., e é verdade, mas a revelação tem outro sabor e outra credibildiade quando vinda do trabalho de jornalistas norte-americanos ao serviço de uma das maiores cadeias de TV dos Estados Unidos. Ali foi confirmado que contratos para a reconstrução do Iraque foram assinados com a Halliburton e a sua complementar Brown & Root, do grupo de Cheney, cerca de dois anos antes da guerra! Que, paralelamente, contratos astronómicos confiaram àquele grupo o fornecimento ao exército de bens e serviços que até então sempre haviam sido produzidos pelo próprio exército. Quanto a tudo isto e muito mais, foi concludente a arrasador o testemunho do presidente do Centro de Integridade Pública, um organismo não-governamental que investiga a existência de corrupção na área do poder. E o caso é que a gente ouve aquilo e, como se compreenderá, fica preocupada com o nível de heroicidade que terá sido necessária ao ministro Portas para se movimentar naquela selva.


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