Todos iguais
Seja qual for o desfecho das eleições norte-americanas, ainda por definir no encerramento desta edição, duas coisas se tornaram já evidentes com este acto eleitoral. A primeira, é que o povo dos EUA está finalmente a despertar para a intervenção política, como testemunha não só a intensa participação eleitoral, a maior dos últimos quarenta anos, mas também a multiplicidade de iniciativas políticas e cívicas que antecederam o escrutínio, trazendo para a rua o debate público sobre o caminho que o país está a trilhar. A segunda, é que o sistema eleitoral norte-americano está obsoleto e de tal forma anquilosado que não permite a expressão da vontade popular.
Damos de barato a questão de saber se na «maior democracia do mundo» o sistema foi alguma vez efectivamente democrático, deixando de lado a longa história de discriminação racial e de opressão e exploração das minorias. Centremo-nos apenas no último meio século, ou quarto de século, ou meia dúzia de anos. O que se verifica, como estas eleições voltaram a mostrar, tal como há quatro anos, é que de democracia o sistema tem pouco e é mais esburacado do que um queijo suíço, para proveito de uma classe privilegiada e pouco escrupulosa que não olha a meios para atingir os seus fins.
Não se trata, evidentemente, só da questão do presidente não ser eleito por voto universal e directo, pois a eleição através de um colégio eleitoral até pode ser aceitável se este for representativo da vontade popular, ou seja, eleito pelo método da proporcionalidade dos votos entrados nas urnas, o que não sucede nos EUA.
O que está em causa, na verdade, é a questão de o país cujos dirigentes se arrogam o direito de dar lições de democracia ao mundo - sobretudo por meio da força bruta - estar estruturado a partir de uma complexa teia de mecanismos legais que permitem que, sendo todos iguais, uns sejam mais iguais do que outros. É o triunfo dos porcos de que falava Orwell, levado à sua mais alta expressão.
Nos EUA qualquer um pode chegar ao topo do poder mesmo sem particulares aptidões, como o caso de Reagan ou Bush bem demonstram, mas sem o apoio do grande capital é mais fácil a um norte-americano passar pelo buraco de uma agulha do que entrar na Casa Branca.
A panóplia de irregularidades já conhecidas registadas nestas eleições, desde militares a votarem por fax e por mail, boletins de voto enviados pelo correio para moradas deliberadamente adulteradas, retirada ilegal do direito de votos a milhares de cidadãos, orquestradas campanhas de desinformação sobre procedimentos a adoptar quanto ao exercício do voto, desaparecimento inexplicável de boletins, etc., etc., etc., sem esquecer a obstrução feita aos observadores internacionais que pela primeira vez fizeram questão de acompanhar as eleições norte-americanas, tamanho estendal de irregularidades, repete-se, se registado em qualquer outro lugar do mundo teria dado lugar a um coro de protestos, condenações ou mesmo ingerência externa em nome da sacrossanta democracia. Nos EUA isso é impensável, pelo que os comentadores de serviço, mesmo quando reconhecendo os factos, não lhes dão importância.
Face ao descalabro que é esta «democracia» mete-se o lixo debaixo do tapete e faz-se a agulha para outras direcções, como se nada fosse.
Não se trata sequer de política de avestruz. É a submissão pura e simples aos ditames do capital, é o assumir a canga como se fora um fraque e clamar que isto sim é que é democracia. Não é por acaso que se andam a aprovar leis dos partidos para calar a voz dos contestatários. O que é preciso é que todos sejam iguais para que uns possam ser mais iguais do que outros.
Damos de barato a questão de saber se na «maior democracia do mundo» o sistema foi alguma vez efectivamente democrático, deixando de lado a longa história de discriminação racial e de opressão e exploração das minorias. Centremo-nos apenas no último meio século, ou quarto de século, ou meia dúzia de anos. O que se verifica, como estas eleições voltaram a mostrar, tal como há quatro anos, é que de democracia o sistema tem pouco e é mais esburacado do que um queijo suíço, para proveito de uma classe privilegiada e pouco escrupulosa que não olha a meios para atingir os seus fins.
Não se trata, evidentemente, só da questão do presidente não ser eleito por voto universal e directo, pois a eleição através de um colégio eleitoral até pode ser aceitável se este for representativo da vontade popular, ou seja, eleito pelo método da proporcionalidade dos votos entrados nas urnas, o que não sucede nos EUA.
O que está em causa, na verdade, é a questão de o país cujos dirigentes se arrogam o direito de dar lições de democracia ao mundo - sobretudo por meio da força bruta - estar estruturado a partir de uma complexa teia de mecanismos legais que permitem que, sendo todos iguais, uns sejam mais iguais do que outros. É o triunfo dos porcos de que falava Orwell, levado à sua mais alta expressão.
Nos EUA qualquer um pode chegar ao topo do poder mesmo sem particulares aptidões, como o caso de Reagan ou Bush bem demonstram, mas sem o apoio do grande capital é mais fácil a um norte-americano passar pelo buraco de uma agulha do que entrar na Casa Branca.
A panóplia de irregularidades já conhecidas registadas nestas eleições, desde militares a votarem por fax e por mail, boletins de voto enviados pelo correio para moradas deliberadamente adulteradas, retirada ilegal do direito de votos a milhares de cidadãos, orquestradas campanhas de desinformação sobre procedimentos a adoptar quanto ao exercício do voto, desaparecimento inexplicável de boletins, etc., etc., etc., sem esquecer a obstrução feita aos observadores internacionais que pela primeira vez fizeram questão de acompanhar as eleições norte-americanas, tamanho estendal de irregularidades, repete-se, se registado em qualquer outro lugar do mundo teria dado lugar a um coro de protestos, condenações ou mesmo ingerência externa em nome da sacrossanta democracia. Nos EUA isso é impensável, pelo que os comentadores de serviço, mesmo quando reconhecendo os factos, não lhes dão importância.
Face ao descalabro que é esta «democracia» mete-se o lixo debaixo do tapete e faz-se a agulha para outras direcções, como se nada fosse.
Não se trata sequer de política de avestruz. É a submissão pura e simples aos ditames do capital, é o assumir a canga como se fora um fraque e clamar que isto sim é que é democracia. Não é por acaso que se andam a aprovar leis dos partidos para calar a voz dos contestatários. O que é preciso é que todos sejam iguais para que uns possam ser mais iguais do que outros.