«O Papa Bom»

José Casanova
Há dias, a RTP1 transmitiu um filme sobre a vida de João XXIII, por (quase) todos chamado o «Papa Bom». Muitas e fortes razões deveria haver para lhe chamarem assim, a ele, João XXIII, e assim não chamarem a nenhum outro papa, antes ou depois dele. O filme mostra-nos algumas dessas razões.
Desde muito cedo, ainda jovem seminarista, ele opta pela defesa dos explorados e dos oprimidos, da liberdade e da paz, da justiça social, do respeito pelos direitos a que todo o ser humano, pelo simples facto de existir, tem direito, ao fim e ao cabo «o direito à existência e a um digno padrão de vida». Ao longo do filme, vemo-lo solidário com os operários em greve por melhores salários e apoiando os trabalhadores ameaçados de desemprego por efeito do encerramento da empresa; vemo-lo batendo-se pela paz que, ele o diz, não existirá se não houver justiça e liberdade; vemo-lo agindo com determinação contra o nazismo – e, num caso concreto, tendo um papel decisivo no salvamento de 600 crianças dos fornos crematórios hitlerianos; vemo-lo alvo de uma campanha orquestrada por uns tantos cardeais e outros tantos jornalistas, denunciando as suas supostas simpatias comunistas – e vemo-lo, sereno, calmo, reafirmar o seu apego à luta «pelo bem da humanidade» que é, igualmente, a luta dos comunistas; vemo-lo, homem humilde que nunca traiu as suas origens humildes e com um sentido de amizade muito forte e profundo; vemo-lo avançando com o Vaticano II - para quê ouvir as opiniões de tanta gente quando se dispõe do poder, absoluto, de decidir sozinho?: perguntam os democratas do monólogo, e ele responde-lhes convocando 2500 bispos de todo o mundo...
Por tudo isto, João XXIII foi o Papa Bom e é tudo isto que o torna tão actual hoje, neste tempo de domínio de anti-valores.
Na sua Encíclica Pacem in Terris, escrita em Abril de 1963, pode ler-se: «Da sociabilidade natural da pessoa humana provém o direito de reunião e de associação, bem como o de conferir às associações a forma que aos seus membros parecer mais idónea à finalidade do fim em vista, e de agir dentro delas por sua própria conta e risco, conduzindo-as aos almejados fins».
Quarenta anos depois, precisamente em Abril de 2003, o PS, o PSD e o CDS aprovaram na Assembleia da República a fascizante lei dos partidos... a confirmar que o «Papa Bom» não teria lugar na bancada de nenhum desses partidos.


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